
Os povos que vivem nas regiões andinas possuem costumes e tradições variadas e com grande riqueza cultural e histórica. A dança é uma das mais diferentes formas de conhecer a cultura de um país, cidade ou região. Com esse intuito, o grupo Tukuy Yawar, da região de Madre de Dios, no Peru, apresentou danças típicas na 1ª Semana Cultural Andina, realizada neste fim de semana na capital acreana.
O Tukuy Yawar é um centro cultural amazônico e tem como diretor William Carpio Ayte. Com 23 anos de existência, o grupo realizou apresentações de algumas danças da cultura andina como a Marinera Norteña (embalada pelo som Marinera de Corazón), o Montonero Arequipeño e a Danza Selvática Kashiri (uma dança que apresenta um pouco da tradição indígena andina).
A vinda do grupo ao estado acreano é de fundamental importância para o intercâmbio cultural. De acordo com William, a troca é de extrema importância para os artistas culturais, pois não é somente um encontro dedicado à parte artística, mas é também uma feira artesanal, onde a parte andina do Peru, da Bolívia e o Brasil se unem.
“Este intercâmbio é muito valioso. Podemos intercambiar conhecimentos, nossos artesanatos e tecidos, nossa cultura amazônica com as músicas e danças. Nós, como centro cultural, estamos trazendo do Peru as três danças, das três regiões do país: costas, serra e selva. Trouxemos a Marinera Norteña, as danças andinas e as danças selváticas”, explica.
O principal objetivo, segundo William, é mostrar um pouco sobre os rituais ancestrais das comunidades indígenas andinas.

“A Marinera Norteña, por exemplo, é uma dança que traz os costumes da cultura da região da costa do país. Essa dança foi reconhecida como patrimônio nacional do Peru e que se baila em todo o país e, em nossa Amazônia, estamos começando a trabalhar e mostrar um pouco mais disso”, detalha.
Danza selvática kashiri
Uma das danças apresentadas pelo grupo e que, com toda a certeza tem uma grande riqueza cultural, é a Danza Selvática Kashiri. Conforme William, na cosmovisão Machiguenga (povo indígena do sudeste do Peru e que vive na região da amazônia oriental, nas encostas dos Andes), no início da história do surgimento da dança, havia um semideus que desceu até a terra e conheceu uma mulher muito bonita da comunidade e se apaixonou.
“E ele ensinou o povo a como poder trabalhar a terra, mostrou como semear e colher, mostrou todos os produtos e ensinou muita gente. Eles tampouco conheciam a morte, porque nunca morriam e a forma de procriar, se queriam um menino ou uma menina, talhavam em uma árvore específica e a colocavam em um monte na selva, e então vinha o menino ou a menina. E, assim, era como começavam a povoar”, explica parte da história.
William completa a história: “Quando o semideus veio a terra, essa bela mulher engravidou. Ao conquistá-la, ele mostra seus novos produtos, já não come mais terra (no início da história ele comia um barro escuro com uma folha) e, para seguir desta forma, aprendem como comer a macaxeira e como colher os frutos da natureza”, acrescenta.
Seguindo a lenda de origem de Kashiri, a bela mulher ficou grávida de duas crianças e, quando deu à luz, pela primeira vez ficou surpresa e desmaiou. “Sua mãe assustada, como o povo não conhecia a morte, exigiu que o semideus comesse a mulher, porque já havia morrido. No início se negou a reclamar: ‘Não! É a minha mulher e os meus filhos’. Contudo, a mulher já não estava morta, porém ele teve que comer e, assim, as duas crianças nasceram e se converteram em serpentes na terra”, complementa William.
O espírito da menina, filha do semideus, se converteu em uma estrela muito próxima da lua e o semideus também se elevou. “E nesse processo é que lhes ensinou como usar o arco e flecha, como caçar, lhes ensinou sobre as bondades e a natureza. E é assim como contam a história de Kashiri”, destaca sobre parte da história de origem da Danza Selvática Kashiri que é realizada em contextos festivos e narram a relação da lua com a vida humana.
Honra em apresentar a cultura andina
O grupo Tukuy Yawar trouxe ao Acre cerca de 19 componentes, entre músicos e bailarinos, e todos sendo jovens com idades variadas. A Ariana Alban, de 18 anos, é uma das dançarinas a apresentar um pouco da cultura andina.

Integrante do centro de dança há quase 7 anos, Ariana conta que sente muito orgulho ao trazer toda a tradição das danças e do folclore do seu país.
“Eu espero que os cidadãos brasileiros, todas as pessoas, possam conhecer um pouco mais a fundo do que nós temos como cultura. A preparação foi feita durante um bom tempo, levamos meses nos preparando. Tivemos o conhecimento de que íamos conhecer o Brasil e estivemos nos preparando com ensaios consecutivos”, diz ao expor suas expectativas sobre a possibilidade do intercâmbio cultural com a Bolívia e o Brasil.
Um pouco mais jovem do que Ariana, o Eloy Curva, de 13 anos, integra o Tukuy Yawar há 2 anos. Para o jovem, a participação na feira é uma experiência marcante.
“Como é a minha primeira vez participando, eu acho que é uma experiência bonita. Estou gostando. Também gosto do Brasil com toda sua cultura e gastronomia super rica. Estou desfrutando muito”, afirma.
O Luiz Viana, de 20 anos, também integra o centro de dança. Com 10 anos sendo integrante do grupo, Luiz destaca que o intercâmbio cultural é importante para reconhecer e valorizar a cultura peruana.
“É importante para a cultura tanto no nosso país como no Acre. É muito importante porque nós transcendemos dessa maneira e, assim, podemos valorizar a cultura de ambas as nações, além de saber que é muito bonito trazer, por exemplo neste caso, ramos artísticos como a dança para poder reconhecer isso e realizar um pouco mais de intercâmbios que podem ser valorizados em nossos países”, enfatiza.

Sobre a Semana Andina
Com o tema “Sabores que unem culturas”, a 1ª Semana Cultural Andina tem como objetivo promover a integração cultural entre o Peru, a Bolívia e o Acre, incentivando o intercâmbio artístico como forma de celebrar a arte, a música e as tradições dos povos andinos.
A iniciativa é realizada pela Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete) e tem o apoio dos Consulados do Peru e da Bolívia, Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), além das Secretarias de Estado da Casa Civil (SECC), de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict), de Comunicação (Secom), e de Assistência Social e Direitos Humanos (SEASDH).








