
Um estudo conduzido pelo economista Rubicleis Gomes, publicado pelo Fórum Empresarial do Acre em parceria com o Sebrae/AC, revelou que a carne bovina vendida em supermercados de Rio Branco custa, em média, 32% mais que a comercializada em açougues. A análise, baseada em dados de julho de 2023 a setembro de 2025, mostra como o preço da arroba do boi gordo se reflete de forma desigual no bolso do consumidor.
De acordo com o levantamento “Do Pasto ao Prato: Como os preços da arroba chegam à mesa do acreano”, a cada 1% de aumento na arroba, o preço final da carne ao consumidor cresce apenas 0,40%, revelando uma transmissão parcial dos custos. O estudo identificou ainda forte integração entre os mercados, indicando que os preços da produção e do varejo mantêm uma relação de equilíbrio de longo prazo, embora nem todos os reajustes cheguem integralmente às prateleiras.
A análise estatística mostrou uma velocidade de ajuste de 81% ao mês, o que significa que metade dos impactos nos preços é corrigida em cerca de 12 dias, sinalizando que o mercado de Rio Branco responde rapidamente às oscilações, mas absorve parte dos custos antes de repassá-los ao consumidor.
Preço distinto entre açougues e supermercados
Os dados revelam um contraste claro entre os dois canais de venda. Nos açougues, o comportamento é inflacionário, com aumento médio anual de 6,08%. Cortes como pá com osso (9,55%), agulha (9,72%) e coxão duro (7,19%) registraram as maiores altas. Já nos supermercados, a tendência foi deflacionária, com queda média de 4,02% em 12 meses — a picanha (-7,17%), o coxão duro (-7,98%) e o coxão mole (-5,94%) apresentaram reduções expressivas.
Essa diferença reflete as estratégias comerciais de cada segmento. Açougues, que dependem quase exclusivamente da carne, repassam os aumentos de custos diretamente ao consumidor. Supermercados, por outro lado, utilizam a carne como produto âncora, compensando perdas com lucros de outros itens — prática conhecida como subsídio cruzado.
Oscilações e fatores externos
Entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, a diferença de preços chegou a cair para apenas 5% a 7%, um comportamento atípico que durou pouco. A partir de janeiro, os valores voltaram a subir, impulsionados pela retenção de matrizes, pela seca prolongada e pelas flutuações do ciclo pecuário, que reduziram a oferta de gado e elevaram o preço do bezerro no estado.
A carne, que custava cerca de R$ 28 a R$ 29 por quilo no início de 2024, passou para R$ 33 a R$ 35 nos meses seguintes. O fenômeno acompanhou a tendência nacional, em que fatores climáticos e de mercado afetaram a oferta de animais para abate.
Implicações econômicas e sociais
Os resultados indicam que a estrutura de mercado influencia diretamente o preço pago pelo consumidor. Enquanto os açougues operam em ambiente próximo da concorrência perfeita, os supermercados atuam em um modelo oligopolista, competindo por preço e conveniência.
Para os pecuaristas, a transmissão incompleta dos preços significa que o aumento na arroba nem sempre se traduz em lucro maior. Para os consumidores, a pesquisa confirma que a escolha do local de compra — supermercado ou açougue — impacta o orçamento doméstico.
Caminhos para novas pesquisas
O estudo recomenda a ampliação da análise para incluir variáveis climáticas, ciclos pecuários e políticas públicas setoriais, além de comparar Rio Branco com outras cidades do Norte, como Cruzeiro do Sul, Tarauacá, Brasiléia e Epitaciolândia, que possuem diferentes dinâmicas comerciais e influência do mercado boliviano.
A expansão da pesquisa, segundo o autor, pode contribuir para políticas de regulação e competitividade mais eficazes, fortalecendo a pecuária acreana e garantindo preços mais justos ao consumidor.
De acordo com a pesquisa, a pecuária representa 60% da produção agropecuária do estado, garantindo emprego e renda a mais de 10 mil produtores rurais.








