
A prática esportiva beneficia a saúde física e mental das pessoas de diversas formas. Além de trazer bem-estar emocional e fortalecer o corpo, os esportes também ensinam valores importantes como trabalho em equipe, responsabilidade e respeito. Os esportes podem transformar vidas e, principalmente, ser um meio em que a inclusão seja uma realidade. E isso é uma realidade que todo mundo sabe.
Mas, o esporte pode ir ainda mais além. Ele é uma ferramenta de superação, inclusão e até “cura” de traumas da vida. Um exemplo claro é do que a prática esportiva tem feito com pessoas portadoras de deficiência física. A prática de modalidades esportivas como atletismo, natação, basquete em cadeira de rodas, vôlei sentado, bocha e tênis em cadeira de rodas, e também existem esportes mais específicos como o futebol de 5 (para deficientes visuais), goalball e judô, tem vida a diferença na vida de centenas de paratletas no Acre.
Cada modalidade é adaptada, desde equipamentos até a criação de novas regras, para que pessoas com deficiência física, sensorial, intelectual ou múltipla, que possuem diferentes necessidades, possam participar das mais diversas práticas esportivas.
Em maio deste ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que os dados do Censo 2022 apontam que o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência. Este número corresponde a 7,3% da população do país com dois anos ou mais de idade.
Ainda de acordo com o IBGE, cerca de 8,3 milhões das pessoas com deficiência são mulheres, correspondendo a 8,1% da população feminina, e 6,1 milhões são homens, cerca de 6,4% da população masculina.
Histórias de vida
Os rumos que a vida pode tomar nem sempre se enquadram nos planos que, muitas vezes, são elaborados. O Diego de Souza tinha apenas 22 anos quando um acidente de trânsito mudou os rumos de sua existência.

Enquanto trafegava pela Via Verde, voltando do trabalho, em novembro de 2018, a traseira da motocicleta de Diego foi atingida por uma caminhonete, o que fez com que perdesse o controle e capotasse várias vezes. O acreano ficou paraplégico imediatamente após o acidente.
“A minha história antes de entrar no esporte começa com um menino de apenas 22 anos, que acabava de sofrer um acidente de trânsito gravíssimo e que tinha dúvidas, medo e incertezas sobre o futuro. Antes disso eu era trabalhador, já tinha trabalhado entregando marmita fitness, atendente de telemarketing, auxiliar de eletricista e no momento atual do acidente eu trabalhava numa empresa de frios, entregando e recebendo pagamento de clientes. Também era estudante de Engenharia Ambiental, na Estácio, na época era Fameta, e me encontrava finalizando o sexto período do curso”, compartilha.
Nascido na capital acreana, Diego, atualmente com 29 anos, é casado desde 2015, além de ser pai da Ayla Sofia, de 10 anos de idade. O processo de reabilitação foi um momento difícil em sua vida. Durante a internação, desenvolveu estenose traqueal (um estreitamento da traqueia que dificulta a passagem do ar para os pulmões e que pode levar à insuficiência respiratória), causada pelo uso prolongado do tubo durante o coma.
“Passei três anos e meio sem conseguir falar ou respirar normalmente por causa dos problemas na traqueia, já que tive que usar durante muito tempo a traqueostomia, por isso tive estenose traqueal”, detalha.
Francimar Del Águila, de 48 anos, também teve uma mudança de rumo em sua vida. Trabalhando anteriormente como motorista de caminhão e, depois, como motorista de ônibus coletivo, Francimar trabalhava na linha que faz a rota na região da Sobral.
Em maio de 2014, quando estava indo para o trabalho em sua motocicleta, trafegando pela Via Verde, um motorista perdeu o controle do carro, atravessou a pista da rodovia e atingiu a mão de Francimar, que foi arrastado por cerca de 12 metros.
“Naquele momento minha perna ficou enganchada na roda do carro e, quando a roda do carro sacou fora, eu voei com a moto e caí dentro da ribanceira, ali próximo da UPA do Segundo Distrito, em um igarapé que tem antes de chegar a Corrente”, descreve.
Segundo o acreano, ele ficou cerca de 40 minutos sem receber qualquer tipo de assistência. “Sem fazer torniquete e pedindo a Deus forças para não morrer naquele lugar. Até que, depois de muita luta apareceu uma pessoa que me auxiliou, ligou para o SAMU e então fui encaminhado para o Pronto Socorro, mas chegando lá, infelizmente, não tinha mais jeito. Tentaram de várias formas reverter a situação, mas mesmo assim não teve jeito, foi preciso amputar a minha perna”, comenta sobre este difícil momento.
Apesar da mudança abrupta na vida de Diego e Francimar, ambos não desistiram e continuaram a buscar novos rumos para suas trajetórias.

“Eu tenho uma frase comigo que eu sempre ouvi em um louvor, ela diz assim: Nunca pare de lutar. E esse louvor foi a minha base para a vida depois do acidente. Para não desanimar, sempre que eu lembro e ouço esse cântico, eu sempre tenho dentro do meu coração que nunca devemos parar de lutar. Então, depois desse acidente, muitas coisas mudaram para a minha vida. Não para pior, mas para melhor”, afirma Francimar.
Recomeços
E o esporte foi uma importante ferramenta de renovação para a vida de ambos. Após realizar a cirurgia da traquéia, em Manaus, Diego voltou ao Acre 100% curado e também com alta médica.
“Respirando normalmente e falando também. Foi então que eu comecei a fazer musculação, algo que eu já fazia antes do acidente. Eu já era bem ativo, jogava bola, corria, etc. Acredito que isso foi muito vantajoso para mim, na nova vida em cima da cadeira de rodas”, disse.
O acreano complementa ainda. “Um certo dia, um cara chamado Clodoaldo, professor do Centro de Referência Paralímpico, junto ao Jader, me viu treinando na SmartFit e viram que eu tinha potencial, levantava muito peso e me convidaram para conhecer o Centro de Referência, me apresentando o halterofilismo e o atletismo”, acrescenta.
Diego pratica para-halterofilismo, para-atletismo e jiu-jítsu adaptado. Além dos esportes que treina no decorrer da semana, ele também trabalha como estagiário no Tribunal Regional Eleitoral e está no sexto período do curso de Administração.
“Na metade de 2027 eu me formo como administrador. Então, eu tento conciliar da melhor forma, tento descansar bastante para conciliar com os treinos, porque senão fica muito cansativo e difícil. O halterofilismo e atletismo eu pratico há 8 meses, comecei em março de 2025. Já o Jiu-jítsu completou 2 meses no dia 21 de novembro. Como eu já tinha vivência enquanto andante, na musculação, isso me ajudou a gostar e me apaixonar pelos esportes ao qual citei”, detalha.
Francimar também pratica halterofilismo paralímpico e treina há quase cinco meses no Centro de Referência Paralímpico da Universidade Federal do Acre (Ufac).

“O esporte se fez presente na minha vida depois do meu acidente, quando fui fazer a reabilitação. E por eu estar muito fraco, por ter passado por dois procedimentos cirúrgicos, ou seja, eu coloquei uma prótese e depois de algum tempo eu não me adaptei a ela e depois de usar outras duas próteses, tive que fazer um novo procedimento. Depois disso, eu tive que amputar mais 7 centímetros da minha perna e começar tudo do zero”, conta.
Segundo o acreano, foi durante sua recuperação em Porto Velho (RO) que surgiu o interesse em fazer alguma atividade física. “Porque a fisioterapia era bem constante, deixava o paciente bem apto para ter uma vida tranquila. Então foi ali que me despertou o interesse pela academia e de fazer musculação e treinar”, afirma.
Francimar acrescenta que conheceu o atual esporte que pratica somente neste ano. “De 2017 até 2024, eu não conhecia, apenas via pelos jornais e reportagens sobre os atletas paralímpicos. E me recordo que um dia nasceu aquela chama de um dia representar o Acre em alguma modalidade, mas eu não sabia qual modalidade ainda. Então, o esporte só veio ser presente na minha vida nesse ano de 2025, através do professor de academia, chamado Chico”, complementa.
Conforme o atleta, foi por meio deste professor que, com muita insistência, o convenceu a visitar o Centro de Referência, onde, de acordo com ele, foi bem recebido e acolhido, e a conhecer o halterofilismo paralímpico.
“Ele disse, olha, você vai se encaixar bem no halterofilismo paralímpico, porque você tem força. Faz uma visita. E, hoje, eu sempre indico o Centro de Referência como uma das melhores instituições para as pessoas que ainda não encontraram um caminho. No Centro me acolheram muito bem, todos os professores e demais pessoas que estão ali proporcionam um atendimento diferenciado e tratam muito bem as pessoas, principalmente o público alvo: as pessoas com deficiência. Muitas vezes a gente fica perdido. Então, foi lá onde eu me achei e, neste ano de 2025, foi onde eu me encontrei forças para continuar”, declara.
Francimar atualmente trabalha como auxiliar administrativo em um hospital da capital acreana, mas, infelizmente, precisou se afastar devido a falta da sua prótese que está quebrada.
“Estou tentando comprar outra prótese para voltar a andar, eu estou afastado das minhas atividades. Então, quando eu voltar a trabalhar, pretendo conciliar, tanto o emprego como o esporte, porque eu não pretendo largar o esporte. O meu foco é a seleção brasileira, o meu foco é trazer muitos títulos para o nosso estado e inspirar aquelas pessoas, que muitas vezes, estão no cenário de depressão ou com aquele pensamento que, por ter uma deficiência, achar que não vai conseguir. Mas tudo é possível quando colocamos no nosso coração que acreditamos e cremos”, fala com convicção.
Obstáculos a vencer
Com a mudança no rumo de suas vidas, o preconceito e a questão da acessibilidade também se tornaram constâncias em suas vidas. Segundo Diego, a falta de acessibilidade é um dos principais obstáculos que um atleta com deficiência pode enfrentar.
“Os recursos necessários e mínimos para atender o atleta. Na maioria das vezes temos que nos adaptar ou adaptar as condições. O preconceito existe e é real. Apenas com o tempo nos acostumamos a lidar, a encarar como algo do outro, sabe? Não é sobre você, mas sim sobre o outro e não podemos fazer muita coisa, além de mostrar, com o talento e a força de vontade, que somos capazes. Só assim vão começar a te respeitar”, relata.
O preconceito, conforme Diego, existe também nos supermercados, shopping, lugares públicos e privados em geral. “As pessoas acham que o normal seria um cadeirante ficar em casa se lamentando e chorando, enquanto a vida passa. E quando veem uma pessoa super ativa, que faz diversas coisas, não acreditam. Mas isso só vai começar a mudar, quando nós formos para cima e quebrarmos paradigmas”, argumenta.
Para Francimar, o maior desafio é não ter, atualmente, a sua prótese. “Como atleta com deficiência, temos vários desafios. O maior desafio que eu estou tendo hoje na minha vida é não ter minha prótese. Eu tinha uma muito boa, mas que, infelizmente, por eu ter uma vida muito ativa e ser uma pessoa de nível de atividade K3/K4, que é o grau que dão para quando a pessoa é ativa, e por eu ter uma vida rotina tão intensa, essa prótese me deixou na mão. Então, estou correndo atrás de comprar uma nova prótese”, conta.
O atleta adiciona também que, para uma pessoa com deficiência, o maior desafio são, muitas vezes, as ferramentas que ela possui e usa.
“Se você não tiver uma boa ferramenta, você não vai desenvolver um bom trabalho. E falo de ferramentas como próteses, como cadeiras de rodas adaptadas para a deficiência da pessoa. Além disso, enfrentamos, muitas vezes, o preconceito em lugares como, muitas vezes, nos ônibus, por exemplo: mesmo de muletas, como estou agora, andando de muletas, muitas vezes ficamos em pé no ônibus e ninguém oferece o lugar para a pessoa que está ali. Eu vejo que o preconceito sempre vai ter. O preconceito que, muitas vezes, enfrentamos são as indiferenças no meio social, dos direitos que temos e, que muitas vezes, não temos acesso”, diz.
Frutos colhidos

Apesar dos preconceitos e dificuldades que os atletas têm que enfrentar diariamente, o esporte tem dado “frutos” para a trajetória de ambos.
Diego possui duas vitórias nos campeonatos: Meeting paralímpico de Atletismo/Rio Branco-Ac e Meeting paralímpico de halterofilismo em Brasília/DF. Em ambos, o acreano ganhou a principal medalha das disputas: a de ouro.
A rotina de tribos de halterofilismo e atletismo, sendo três vezes por semana no Centro de Referência Paralímpico na Ufac; e o Jiu-Jitsu adaptado, também três vezes por semana, têm sido realizados na região da Sobral, perto da ladeira do Bola Preta.
“Com o Professor Moura, meu Sensei. Sou muito grato a ele, por ter aberto as portas pra mim. Os treinos são três vezes na semana também, porém por conta da rotina, trabalho e compromissos pessoais não consigo ir todos os dias, em algumas semanas”, conta.
O apoio da família, conforme o atleta, sempre esteve presente, mesmo antes de começar nos esportes.
“Então, o apoio da minha família tem sido fundamental para eu começar e continuar, até os dias atuais, praticando esportes. É primordial e muito satisfatório ver o quanto eles me apoiam, principalmente minha esposa e minha filha. E é muito bom ter elas ao meu lado para somar e incentivar”, comenta.
Francimar também compartilha as conquistas que tem alcançado no esporte. “Neste ano tive a oportunidade de ganhar um segundo lugar na Copa Norte de Halterofilismo Paralímpico, na cidade de Boa Vista, em Roraima. Nós, apenas com quatro meses de treino, tivemos a oportunidade de viajar para representar o Acre. E os frutos desse trabalho foi tirarmos esse segundo lugar, com a minha melhor marca até o momento: 117 kg. Para mim, e para todo centro paralímpico, foi motivo de alegria por todo o trabalho desenvolvido. Então, é bem gratificante”, declara.
De acordo com o atleta, sua família sempre o apoiou nessa trajetória. “Quando falei que ia começar a praticar halterofilismo, foram os primeiros a dizer vai em frente e não desista. Uma vez falei para minha mãe, quando aconteceu o acidente e tudo isso comigo, que um dia eu ia ser um atleta paralímpico. E depois de quase 11 anos, estou sendo um atleta. Estou competindo, treinando e o meu objetivo é chegar na seleção brasileira paralímpica de halterofilismo. E a minha família me apoia, sempre”, enfatiza.
O acreano, assim como Diego, também treina no Centro de Referência Paralímpico da Ufac. Além disso, também concilia com os treinos na academia.
“A minha rotina de treino é bem intensa, de persistência e de perseverança todos os dias. Não tem treino fácil, porque se almejamos alcançar o primeiro lugar, temos que treinar e dar o nosso melhor, para que tenhamos frutos do trabalho desenvolvido”, ressalta.
Vidas transformadas pelo esporte
A principal pergunta feita para ambos os atletas foi como o esporte transformou a vida de ambos. Para Diego, o esporte lhe deu novas forças e propósito para continuar a se desafiar e mostrar, para si mesmo, que é bom naquilo em que se dedica e se propõe a fazer.
“Me mostra também que a cadeira de rodas, hoje em dia, é só um detalhe para mim e para outras pessoas também. Além disso, também é uma forma de quebrar esses preconceitos que existem. O esporte é fundamental porque quanto mais pessoas conhecerem, depois de alguma situação que comprometa a integridade física, é uma forma de mostrar que a pessoa com deficiência e que tem muitas qualidades”, afirma.
Para Francimar, o esporte trouxe uma nova perspectiva para como cuidar da saúde mental. “Eu nunca tinha entrado num quadro de depressão, depois do meu acidente, lembro que quando passei pelas psicólogas na época, me disseram para ter muito cuidado. E ano passado me deparei com um quadro de depressão, onde tive que fazer terapia e buscar forças com profissionais na área da saúde. Isso eu sempre falo que é muito importante, antigamente eu não tinha esse pensamento, mas hoje eu sei o quanto é necessário. Então, quando comecei a praticar esportes, já estava participando das sessões de terapia”, compartilha.
Francimar acrescenta ainda. “O esporte é uma espécie de escape, uma porta que Deus me deu e que quero levar para o resto da minha vida, pois é algo que transformou, de verdade, minha vida para melhor”, finaliza.






