Rio Branco, 25 de maio de 2026.

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Xapuri desperta para um domingo histórico com a inauguração da Ponte da Sibéria

Dentro de algumas horas, o governador Gladson Cameli vai descerrar a placa de uma das obras mais simbólicas do Acre, a Ponte da Sibéria, um sonho acalentado pela população de Xapuri por quase meio século e que se tornará oficialmente uma realidade na tarde deste domingo, 23 de novembro de 2025.

A ponte é resultado de uma promessa feita por Cameli há sete anos, no começo de um processo de transição política histórico marcado por um sentimento misto de esperança e incertezas com o futuro do estado diante da proximidade do fim de um ciclo de vinte anos de poder da esquerda liderada pelo Partido dos Trabalhadores.

O compromisso feito em cima de um caminhão de som em uma carreata eleitoral foi recebido por uns com ceticismo e por outros como uma janela de oportunidade para um anseio marcado por uma antiga luta de uma comunidade. A grande quantidade de telefones celulares apontados para o mesmo destino na tarde deste sábado, 22, em Xapuri, confirma que os últimos acertaram.

A Ponte da Sibéria será finalmente inaugurada após décadas de espera. O adiamento da cerimônia, que ocorreria na última sexta-feira, 21, apenas ampliou a expectativa que se espalha pela cidade, onde o clima é de festa, quase de celebração coletiva, como se todos respirassem mais fundo para marcar um dia que entra para a história.

O próprio governador Gladson Cameli, que comandará a solenidade ao lado de autoridades estaduais e municipais, e diante de uma população apreensiva, traduziu esse sentimento ao postar nas suas redes sociais que “a Ponte da Sibéria tá show e já é uma realidade para o povo xapuriense.”

Testemunhas da história

Maria Oliveira e o marido Carlito, que não viveu para ver o sonho da ponte realizado: Foto acervo pessoal

Mas poucas pessoas sentem o peso simbólico deste dia, como dona Maria Oliveira dos Santos, 80 anos, moradora histórica da Sibéria. Por décadas, ela subiu e desceu as escadarias da catraia — às vezes com sacolas, outras com netos pela mão, sempre com o rio como obstáculo. Hoje, observa da área da sua casa o vão da ponte já pronto, e lembra do falecido marido, Vicente Lima dos Santos, o Carlito Piauí, com quem dividiu esse sonho desde jovem.

“Esperei a vida toda por isso. Eu e meu marido sempre dizíamos que um dia essa ponte vinha, e agora veio. Dá uma alegria, mas também um aperto no peito, porque ele queria muito estar aqui para ver esse sonho se realizar. Mas eu estou aqui, e estou feliz demais”, afirma.

Entre a emoção e a transição inevitável que a obra traz, está também o olhar de quem viveu o rio como trabalho e sustento da família. Francisco das Chagas Brito de Souza, 42 anos, catraieiro há muitos anos, confessa a contradição de sentimentos com o que está prestes a acontecer.

“A gente sabe que a ponte é boa, que vai ajudar todo mundo. Dá orgulho de ver pronta. Mas também bate uma incerteza porque a catraia é a vida inteira de muita gente. Não sei ainda como vai ser depois, mas torço para que seja bom para a cidade”, diz antes de fazer mais uma travessia.

Francisco das Chagas é um dos catraieiros que fazem o transporte das pessoas pelo rio antes da inauguração da ponte: Foto Raimari Cardoso

A ponte também representa mudança para quem não mora nem na cidade, nem no bairro, mas depende da travessia para viver e produzir. Do Assentamento Tupá, distante cerca de 40 quilômetros da Sibéria, onde está há quase vinte anos, o ex-seringueiro Raimundo Ferreira Dias, de 63 anos, conta que nessas duas décadas enfrentou filas, atrasos e pane de motor na balsa.

“Vai melhorar muito, muito mesmo. Porque já fiquei três horas parado na balsa, até mais. Motor quebrado, rio ruim, tudo atrapalha. Para nós do assentamento, é uma vantagem grande. Agora, os catraieiros vão sofrer, né? É o ganha-pão deles. Mas o progresso tem que vir. Vai ser maravilhoso para Xapuri”, pontua o colono.

Morador do Tupá, o seringueiro Raimundo Dias fala com a certeza de dias melhores com a inauguração da ponte: Foto Raimari Cardoso

Todo o contexto histórico da Ponte da Sibéria, os relatos e depoimentos de quem é parte da trajetória de luta e reivindicação pela sua construção, mostram que ela é — literal e simbolicamente — um divisor de águas que não nasce apenas como obra de engenharia, mas como gesto coletivo de resistência, memória e desejo de futuro.

Xapuri inaugura neste domingo não apenas uma travessia, mas um novo tempo, em que a distância deixa de ser obstáculo e o rio deixa de separar vidas, como afirmou há alguns dias o professor João Jorge Cosmo da Silva, ex-presidente da Associação de Moradores, que tem 59 anos de vida e de Sibéria. Neste dia, o sentimento que percorre a cidade é unânime: valeu a pena esperar.

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