Poucas pessoas podem afirmar que dividiram o mesmo caminho, a mesma floresta e a mesma trincheira de luta com Chico Mendes. Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, aos 80 anos de idade, é uma delas. Primo e braço direito do líder seringueiro nos históricos empates, ele carrega uma relação que ultrapassa o parentesco: Chico foi amamentado por sua mãe, e Raimundão pela mãe de Chico. “Somos irmãos de leite”, resume.
Nascido em 1945, no seringal Santa Fé, em Xapuri, Raimundão atravessou décadas de militância social, sindical e política. Foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, vereador por quatro mandatos, servidor da antiga Sucam e um dos principais articuladores da resistência extrativista. Levou a defesa da floresta a países como Itália, Alemanha e Estados Unidos, sempre sustentando a ideia de que viver da floresta em pé é não apenas possível, mas necessário.

Sobrevivente da pandemia, de um AVC e de incontáveis ameaças, Raimundão realizou recentemente um sonho antigo: a criação do Ateliê da Floresta, uma marcenaria comunitária instalada no coração da Reserva Extrativista Chico Mendes. Para ele, trata-se de um símbolo concreto de continuidade do legado do primo — um legado que, segundo alerta, está sob ataque constante, tanto pelo latifúndio quanto por forças políticas interessadas em “despolitizar” a memória de Chico.
Nesta entrevista ao Portal Acre, na última reportagem da série “Vozes do Legado de Chico Mendes”, Raimundão revisita lembranças íntimas, analisa o presente com dureza e faz um chamado direto à sociedade. Com pausas, emoção e a fala simples do seringueiro que nunca deixou de ser, ele afirma: apagar o caráter político de Chico Mendes é repetir a violência que tentou silenciá-lo.
ENTREVISTA — Raimundo Mendes de Barros (Raimundão)
Portal Acre — Raimundão, quando você fala de Chico Mendes, de quem exatamente está falando? Do líder ou do homem?
Raimundão — Eu estou falando das duas coisas juntas, porque no caso do Chico não dá pra separar. Quando eu me lembro dele, me vem à cabeça uma pessoa cujo sangue que corria na veia dele corria na minha também. Nós éramos primos e ainda tinha uma consideração maior, que era de irmão de leite. Minha mãe o amamentou e eu fui amamentado pela mãe dele. Então, quando eu falo do Chico, eu falo de um companheiro seringueiro que desde muito novo já se preocupava com a realidade em que a gente vivia. Com 14 anos ele já tinha essa preocupação. Com 16, 17 anos, nós nos encontramos uma vez na praça e ele me mostrou uma carta que tinha escrito sobre essas aflições. Ele já lia bem, escrevia bem, porque o pai dele ensinou e depois o Euclides Távora, onde ele ganhou mais leitura e mais consciência política, de luta de classe. Eu lembro do Chico jovem, eu lembro do Chico vereador, tentando fazer alguma coisa em defesa da categoria dele, mesmo com pouco espaço. Lembro dele nas festas, nas caminhadas, antes mesmo do movimento sindical. E hoje eu vejo o Chico como uma personalidade mundial. Aquilo que ele defendia lá atrás é o que o mundo inteiro discute hoje.
Portal Acre — Você sentia que ele corria perigo antes do assassinato?

Raimundão — Sentia, sentia sim. Eu sentia uma preocupação muito grande nele, e isso me deixava preocupado também. Cada preocupação que a gente tem vai ficando dentro da gente, né? Quando eu recebi a notícia, três e meia da madrugada, lá na minha colocação, foi uma coisa que me deixou fora de mim por alguns minutos. Foi um choque muito grande, um dos maiores que eu já tive na vida. Eu já passei por muita aflição, perdi filho, mas a morte do Chico foi diferente, foi incomparável. Ao mesmo tempo, eu tive muitos momentos de alegria com ele. Momentos em que ele chegava contando as conquistas do movimento sindical, os olhos brilhando, dizendo: “Raimundo, essa luta é heróica, essa luta vai trazer conquistas grandes”. Aquilo animava ele, dava mais coragem, mais audácia, mais vontade de seguir.
Portal Acre — Esses momentos de alegria ajudaram a construir o Chico líder?
Raimundão — Com certeza. Quando ele contava, por exemplo, que tinham evitado a expulsão de seringueiros no Seringal Carmem [em Brasiléia], ele falava com tanta alegria que a gente percebia que aquilo alimentava ele por dentro. Ele começou a acreditar, cada vez mais, que o seringueiro podia ser reconhecido como cidadão. Porque até então nós éramos tratados como coisa qualquer. Primeiro pelos patrões, de forma silenciosa, depois pelo latifúndio, de forma violenta. O Chico queria mudar isso, e acreditava que era possível.
Portal Acre — Por que hoje tanta gente, especialmente os mais jovens, conhece pouco essa história?
Raimundão — Eu acho que isso tem duas razões. Uma delas é culpa nossa mesmo. Faltou um trabalho mais eficaz da nossa parte, pra fazer com que a escola, a igreja, todas as instâncias tivessem compromisso com a história do Chico, com o que ele fez, com o legado que ele deixou. A outra razão é política. Existe uma ala política que trabalha todos os dias para apagar o nome do Chico. Quando uma autoridade diz que é preciso “despolitizar” o nome dele, isso é muito grave. Isso é uma proposta da direita ou do centro-direita, pra tirar o conteúdo da luta, pra facilitar o apagamento do valor que ele teve em vida e tem depois da morte.
Portal Acre — Se o Chico pudesse ver a realidade atual, o que você acredita que ele diria?
Raimundão — O Chico ficaria muito triste. Muito triste mesmo. E com a autoridade que ele tinha, ele faria as autoridades do município, do Estado e do país ouvirem o que está acontecendo. O latifúndio não morreu, ele ficou vivo. Ficou conspirando nos bastidores. Tem gente que chorou com a morte do Chico e hoje derruba castanheira, vende colocação, destrói floresta. Isso não é direito nosso. A colocação não é propriedade particular, é da União, com direito de uso pra nós trabalharmos e zelarmos, não pra destruir.
Portal Acre — Essa destruição atinge diretamente o legado de Chico Mendes?
Raimundão — Atinge sim, e atinge profundamente. Quem destrói a reserva está destruindo o legado do Chico e desmoralizando a luta. Muita gente está sendo incitada de fora, com promessa de gado, de dinheiro, de conforto rápido. Mas isso é o latifúndio agindo de novo. Defender a floresta é defender o futuro dos nossos filhos, dos nossos netos e de quem ainda vai nascer.
Portal Acre — Para encerrar, que mensagem você deixa para quem lê esta entrevista hoje?
Raimundão — Eu conclamo a população do meu município, do meu Estado, do Brasil e do mundo a continuar defendendo a luta dos extrativistas da Amazônia. Defender o nome do Chico é defender um homem que deu a vida pela floresta, pelo povo da Amazônia, pelo Brasil e pelo mundo. Onde tiver homem e mulher de sensibilidade, jovem bem-intencionado, que defenda esse nome com toda a garra, porque está defendendo o futuro.









