Rio Branco, 13 de abril de 2026.

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Especial  — 37 anos depois: o que restou da luta de Chico Mendes em Xapuri e na Amazônia?

Chico no corte da seringa em Xapuri – Foto Internet

No dia 22 de dezembro de 1988, o Brasil assistiu à execução de um seringueiro que havia se tornado muito maior do que a luta que travava ou o território que defendia. Trinta e sete anos depois, Chico Mendes segue sendo nome de parque ambiental, de reserva extrativista, de prêmios e de discurso oficial. Mas a pergunta que ecoa em Xapuri e na Amazônia profunda é outra: o quanto de sua luta permanece vivo — e o quanto foi silenciado?

As respostas não são simples. Elas se espalham pelas falas de quem viveu ao lado de Chico, de quem herdou sua luta e de quem nasceu depois dela. Durante a 37ª edição da Semana Chico Mendes, que se encerra hoje, o Portal Acre buscou ouvir algumas “vozes do legado” do ambientalista, ouvindo algumas figuras históricas e alguns representantes da juventude extrativista, que veio após a morte do reconhecido, mas também contestado herói acreano.

Ao ouvir personagens históricos como Dercy Teles de Carvalho, Sabá Marinho e Raimundão de Barros, e nomes da nova geração como a professora Maria Lourdes Ribeiro Pereira, a Lourdinha, o ex-aluno do Centro dos Trabalhadores da Amazônia, Jurivan Rios, que foram ouvidos na série de entrevistas, e ainda a aluna do Instituto Federal do Acre (Ifac), Anna Lya Cardoso, e até um memorialista e amigo próximo do líder seringueiro, o ex-bancário e hoje empresário João Garrinha, o retrato que se forma é complexo, incômodo e necessário.

O Chico real: sindicalista antes de símbolo

A luta sindical que deu origem ao Chico ambientalista conhecido em todo mundo – Foto: Internet

Entre os que conviveram com Chico Mendes, há um ponto comum: a insistência em lembrar que ele não nasceu mito. “Chico não era ecologista nem ambientalista, ele era sindicalista”, afirma Dercy Teles, em uma voz para muitos controversa, mas apoiada na autoridade de ter sido da linha de frente dos empates e a primeira mulher no Brasil a presidir um sindicato rural — exatamente o mais famoso, o de Xapuri. “Ele defendia a floresta porque dela dependia a sobrevivência do seringueiro”, ela afirma convictamente.

Essa leitura reaparece em diferentes vozes, mesmo que em outros tons. Raimundão, primo de Chico e um dos principais herdeiros do seu legado, reforça que a consciência política do líder surgiu cedo, ainda na juventude, quando já se preocupava com a exploração dos trabalhadores da floresta pelos antigos seringalistas. “O que o mundo discute hoje foi exatamente aquilo que o Chico abraçou quando ainda era jovem.” Essa dimensão do Chico político, porém, é justamente a que mais incomoda — e a que mais tem sido apagada, segundo seus antigos companheiros.

Memória concentrada em dezembro

Em Xapuri, falar de Chico Mendes ainda é quase obrigatório no mês de dezembro. Fora dele, o silêncio predomina. “O Chico aparece em dezembro e depois some”, diz Dercy. Para ela, o enfraquecimento do sindicato e das associações comunitárias foi decisivo para esse apagamento. “Era o sindicato que mantinha efetivamente viva a história. Hoje não tem ninguém contando o Chico real para os jovens”, reforça.

Sabá Marinho, outro braço direito do líder sindical durante os empates, vai na mesma direção. Para ele, a injustiça não é apenas com Chico, mas com a própria luta que custou vidas. “Quando vejo filho de seringueiro derrubando a floresta, eu digo: estão matando o Chico outra vez.” A crítica não é nostálgica. É estrutural. O que se perdeu, segundo eles, foi a organização coletiva, o senso de classe, a política feita no chão da floresta — elementos centrais da estratégia de Chico Mendes.

Quando a memória se esvazia até nas homenagens

A ausência de público e de autoridades nas atividades da Semana Chico Mendes é explicada por quem convive, até hoje, com as disputas em torno de seu nome. Para Angela Mendes, filha do líder seringueiro, o afastamento de parte da população de Xapuri não é casual nem recente. Ela atribui esse distanciamento à disseminação histórica de boatos e narrativas falsas que tentam desqualificar a trajetória de Chico.

“Interessa a muita gente que o nome do meu pai seja desrespeitado”, afirma. Segundo ela, persiste na cidade uma mentalidade que ainda associa desmatamento e gado a desenvolvimento, ignorando que aquilo que Chico denunciava nos anos 1970 e 1980 hoje é amplamente reconhecido pela ciência. “A luta dele não era só ambiental. Era por justiça social, territorial e climática. Era uma luta pela vida”, reforça, lamentando que Xapuri ainda não reconheça plenamente um líder celebrado nacional e internacionalmente.

Essa sensação de abandono também aparece de forma contundente no depoimento de Raimundo Monteiro, seringueiro histórico do seringal Cachoeira, um dos cenários decisivos da luta que levou ao assassinato de Chico Mendes. Para ele, o esquecimento não é apenas simbólico, mas concreto. “Depois que mataram o Chico, a maioria abandonou a causa”, diz.

Monteiro lembra que, fora do Acre, o nome de Chico segue despertando muito respeito e interesse, enquanto em sua própria terra o reconhecimento diminuiu. Ele alerta que comunidades inteiras que só permaneceram na floresta graças à luta de Chico hoje se afastam das homenagens — mesmo diante do avanço do desmatamento e da redução drástica da cobertura florestal.

“Naquele tempo, tinha quase toda floresta. Hoje não tem mais. E a família cresce. A pergunta é: onde vamos colocar esse povo daqui a alguns anos?”, questiona.

A floresta de pé, mas a unidade em risco

A Reserva Extrativista Chico Mendes segue sendo uma das maiores conquistas do movimento liderado por Chico. Mas, 37 anos depois, ela enfrenta contradições profundas. De acordo com dados de várias entidades, órgãos e plataformas ambientais, a Unidade de Conservação é uma das mais pressionadas pelo desmatamento e, consequentemente, pelo fogo nas temporadas de incêndios florestais.

Raimundão é direto ao afirmar que o latifúndio na sua manifestação opressora dos povos que vivem na floresta não desapareceu. “Ele ficou vivo, conspirando nos bastidores.” Segundo ele, hoje a ameaça não vem apenas de fora, mas também de dentro, por meio da venda ilegal de colocações, derrubada de castanheiras e avanço do gado por meio dos arrendamentos de pasto no interior da Resex.

Dercy aponta o mesmo problema sob outra lente: a ausência de mediação social. “Não existe mais uma organização que faça o meio de campo, que ajude a resolver conflitos. Sem unidade de classe, tudo se fragiliza.” O resultado é uma floresta pressionada por interesses imediatos e uma juventude que, muitas vezes, já não se reconhece como extrativista.

A nova geração: herdeira de direitos, distante da história

É nesse ponto que a fala de Lourdinha se torna fundamental. Neta de uma seringueira que esteve na linha de frente dos empates, filha de moradores da Resex e hoje diretora de escola, ela representa uma geração que colhe os frutos da luta, mas nem sempre conhece suas raízes.

“Foi através da luta do Chico que os extrativistas tiveram acesso à educação, ao transporte, à informação”, afirma. Ao mesmo tempo, ela reconhece que o legado está cada vez mais distante das salas de aula. “Hoje eu não vejo mais o legado do Chico sendo trabalhado nas escolas, principalmente na zona rural”, pontua.

Lourdinha faz uma distinção importante: defende o ensino da história, mas critica a idolatria vazia. Para ela, Chico precisa ser apresentado como sujeito histórico, não como peça decorativa. “É alguém que fez parte da nossa história e que explica por que hoje nós conseguimos muitas coisas”, avalia.

Mesmo assim, o legado resiste. E parte dessa resistência nasce da formação comunitária promovida pelo Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA) — que foi decisivo na construção política e educacional de uma geração inteira.

Jurivan Bezerra Rios, 36 anos, servidor público estadual, é um desses frutos. Ele tinha apenas três meses de vida quando Chico Mendes foi assassinado, mas cresceu cercado pela memória do líder seringueiro — em casa, na comunidade e, sobretudo, nos cursos do CTA.

“Falar de Chico Mendes, para mim, é motivo de muito orgulho. Eu não o conheci pessoalmente, mas cresci ouvindo sua história. Aos 14 anos, entrei para os cursos de capacitação do CTA. Ali, a presença de Chico era constante. Toda formação enfatizava sua importância, seus valores, sua luta”, relata.

“O CTA formava jovens e adultos destacando o papel das populações tradicionais. Por isso me entristece quando vejo pessoas diminuindo a trajetória de Chico. O legado dele transcende Xapuri. É nacional, é internacional. É a história de um homem simples, que assumiu uma causa maior do que ele mesmo — a ponto de entregar a vida por ela.”

Anna Lya é estudante do IFAC e faz parte da nova geração que busca conhecer a luta do líder seringueiro – Foto: Raimari Cardoso

Essa linha de continuidade também aparece entre jovens que descobriram Chico Mendes não pela convivência direta, mas pela educação formal. É o caso de Anna Lya Cardoso, 16 anos, estudante de Biotecnologia do Instituto Federal do Acre — IFAC. Foi na instituição que ela se aproximou da história do líder seringueiro — e decidiu transformá-la em linguagem audiovisual. Recentemente, Anna Lya e alguns colegas produziram um vídeo sobre Chico Mendes, apresentado na Pré-Semana Chico Mendes, realizada no próprio IFAC.

“A impressão que eu tenho dele, pelo que tenho lido e estudado, é que foi um grande defensor dos povos da floresta, que queria preservar o direito deles de continuar vivendo da maneira que desejavam. Para mim, ele foi um grande herói que deve sempre ser exaltado”, diz.

Essa juventude vive uma relação híbrida com a floresta. Transita entre o celular e o corte do látex; entre o campus do IFAC e o varadouro; entre a tradição extrativista e os novos caminhos possíveis para permanecer na terra sem destruí-la. E, segundo especialistas, há sinais claros de renovação.

A socióloga Jayce Brasil, que atua há mais de 20 anos em projetos educacionais na região, observa esse movimento com atenção: “Os jovens da Resex estão redescobrindo o Chico por meio da educação. Eles sabem que o sonho dele era dar dignidade ao povo da floresta — e isso hoje passa por estudar, acessar tecnologia, criar novas formas de viver da terra sem precisar destruí-la”, afirma. “Eu vejo neles uma vontade real de fazer diferente, de transformar conhecimento em autonomia”, completa.

Jayce Brasil destaca que Chico tem sido “redescoberto” pelos jovens da Resex – Foto: Raimari Cardoso

O homem simples por trás do símbolo

Se para os jovens Chico Mendes surge como referência histórica e política, para quem conviveu com ele no cotidiano, a lembrança é menos épica e mais humana. O bancário aposentado e memorialista João Lopes Mendes Filho, o João Garrinha, um dos grandes amigos de Chico na cidade de Xapuri, descreve um homem sem vaidades, distante da imagem monumental que o tempo construiu.

Em entrevista ao Portal Acre, João Garrinha destacou a simplicidade e o poder de persuasão que tinha Chico – Foto: Raimari Cardoso

“O Chico era um homem simples. Sem vaidade nenhuma. A roupa dele era uma calça Lee, uma camisa Hering, uma sandália franciscana e uma agenda velha debaixo do braço”, recorda. “Não era um grande orador, mas tinha um poder de persuasão enorme. Ele falava para vinte, trinta pessoas e conseguia parar todo mundo para ouvir”. Garrinha compartilha uma percepção que atravessa as várias falas desta série: o esquecimento progressivo. “Eu sinto que, aos poucos, o povo está esquecendo. Essa é a verdade”, admite.

Despolitizar para apagar

Entre os entrevistados, talvez Raimundão seja quem formule a crítica mais dura ao presente. Ele alerta para tentativas explícitas de “despolitizar” o nome de Chico Mendes. “Despolitizar é apagar”, diz. Para ele, retirar o conteúdo político da memória de Chico é torná-lo inofensivo — um personagem sem força transformadora. “O Chico ficaria muito triste se visse isso.” Essa disputa pela memória não é apenas simbólica. Ela se reflete em decisões concretas, na fragilidade das instituições representativas e na dificuldade de mobilizar novas gerações para a defesa da floresta como projeto coletivo.

O que permanece de pé

Raimundão é, sem dúvida, o personagem vivo que mais representa a luta de Chico pelo povo da floresta – Foto: Raimari Cardoso

Apesar de tudo, nem tudo é perda. Há resistência. Ela aparece em iniciativas como o Ateliê da Floresta, criado por Raimundão dentro da Resex; no trabalho educacional de Lourdinha e na busca de Jurivan pela formação se perder a Resex de vista; na memória insistente de Sabá; na crítica lúcida de Dercy; e na paixão de Anna Lya, que nasce da visão de instituições de ensino como o IFAC. São formas diferentes de manter Chico vivo — não como mártir congelado no tempo, mas como referência incômoda, atual, exigente. “Defender o nome do Chico é defender o futuro”, resume Raimundão. Não apenas o futuro da floresta, mas o futuro de uma ideia de justiça social que ainda incomoda, divide e desafia.

37 anos depois

Trinta e sete anos após o assassinato de Chico Mendes, Xapuri segue sendo um território de disputa entre memória e esquecimento, entre organização e desagregação, entre floresta e devastação.O legado de Chico não morreu. Mas também não está garantido. Ele resiste onde há consciência, educação, organização e coragem. E se apaga onde a luta vira apenas nome, placa ou cerimônia anual.

Talvez o maior desafio de hoje seja justamente esse: transformar memória em prática. Porque, como lembram aqueles que caminharam ao lado de Chico Mendes, a floresta não se defende sozinha — e a história, se não for contada, pode ser silenciosamente derrubada.

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