Rio Branco, 18 de fevereiro de 2026.

Quando o sofrimento vira espetáculo: o caso Antônia Lúcia e a nossa própria falta de equilíbrio

Nos últimos dias, a deputada federal Antônia Lúcia vem expondo crises em seu casamento com o pastor Silas Câmara, deputado federal eleito pelo amazonas. O posicionamento, nada republicano, circulou como combustível perfeito para a grande fogueira da internet.

Gritos, acusações, escândalos filmados em prédios públicos, brigas familiares que já se estendem à Justiça, tudo isso circulando como se fosse um episódio de reality show liberado sem censura.

A pergunta que me vem não é sobre quem está certo ou errado. Nem sobre o mérito de cada acusação. Muito menos sobre o passado carregado de polêmicas da deputada e da família, que todo acreano conhece bem.

A questão que me inquieta é outra: por que é tão fácil para nós transformar a dor do outro em entretenimento? Porque, olhando com franqueza, a deputada não parece bem. O olhar perdido, a impulsividade nas falas, a postura agressiva, tudo denuncia alguém emocionalmente desorganizado, atravessando o tipo de turbulência que exige ajuda, e não plateia. Mas, em vez de acolhimento, o que ela recebe é um tribunal digital pronto para rir, criticar e viralizar.

E eu não estou aqui defendendo a postura dela, longe disso. O comportamento é desastroso, imprudente e irresponsável. Mas existe um abismo entre responsabilizar alguém e esfregar o sofrimento dessa pessoa na praça pública, como se fosse show.

A verdade é que nós, como sociedade, desenvolvemos um apetite quase doentio pelo colapso alheio. Nos interessa o barraco, o print, o detalhe picante da fofoca, o vídeo que circula com vergonha alheia suficiente para virar meme. A dor emocional virou conteúdo. A instabilidade virou produto. A falência mental do outro virou entretenimento gratuito para quebrar a rotina.

E eu me pergunto: Em que momento perdemos o nosso senso de compaixão? Quando foi que deixamos de olhar para o ser humano por trás da manchete? Quando deixamos de pensar em acolhimento, tratamento, família, contexto e viramos apenas mais um dedo apontado?

Porque é curioso: criticamos o “desequilíbrio” da deputada, mas assistimos compulsivamente ao vídeo de alguém desequilibrado como quem consome um show de comédia. Queremos analisar cada gesto, cada choro, cada ataque, como se fôssemos especialistas em psiquê humana, quando na verdade estamos só alimentando o mesmo ciclo que destrói.

E, ironicamente, a forma como reagimos também diz muito sobre a nossa própria falta de equilíbrio emocional. Nos esquecemos de que todo ser humano tem limites, dores, gatilhos, traumas e rompimentos invisíveis. Nos esquecemos de que a internet não é consultório, não é terapia, não é espaço de cura e não deveria ser palco.

A sociedade virou uma plateia faminta, e qualquer um pode ser o espetáculo da vez. No fim das contas, o que mais fica claro no caso Antônia Lúcia não é sobre ela, é sobre a sociedade que nos tornamos. Sobre a cultura da humilhação, a normalização da crueldade cotidiana, sobre o desinteresse absoluto pelo sofrimento do outro, sobre o vácuo emocional de uma sociedade que se acostumou a rir da tragédia alheia como quem muda de canal.

No fim das contas, talvez a reflexão mais urgente seja essa: se estamos tão rápidos para condenar a loucura do outro, será que não deveríamos olhar com um pouco mais de honestidade para a nossa própria?

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Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

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