
Aos 82 anos, Sebastião Marinho do Nascimento é um dos nomes mais representativos da história do líder sindical Chico Mendes. Ele carrega no corpo, na memória e na fala as marcas de uma das mais intensas lutas sociais já travadas na Amazônia. Conhecido no mundo do movimento social rural como Sabá Marinho, é considerado por companheiros e pesquisadores uma “memória viva dos seringueiros acreanos” — não por nostalgia, mas por seguir resistindo, lembrando e denunciando uma realidade que, segundo ele, “não é a que Chico sonhou.”
Nascido no seringal Filipinas, colocação Pindaquara, em 1943, Sabá construiu uma trajetória profundamente ligada à floresta e à organização dos trabalhadores rurais. Pai de oito filhos, avô e bisavô de quase 60 netos e bisnetos, ele foi casado por 49 anos com Joana Bento Marinho, companheira de vida e de luta. Neto de migrantes amazônicos e descendente de povos indígenas do Alto Rio Acre, sua história se confunde com a própria formação social da região.
Ao lado de Chico Mendes, Sabá participou ativamente dos empates, enfrentou fazendeiros, viveu sob ameaça constante e chegou a ter um filho baleado durante um confronto épico contra a multinacional Bordon. Morador da comunidade Nova Vida, no coração da Reserva Extrativista Chico Mendes, ele segue atento ao que chama de “desmonte da luta” e à devastação da floresta — agora, muitas vezes, promovida pelos próprios filhos dos seringueiros.
Na última segunda-feira, 15, Sabá foi um dos componentes do dispositivo de honra na cerimônia de abertura da 37ª Semana Chico Mendes, ao lado de outros membros da linha de frente dos históricos empates organizados e liderados pelo sindicalista. Mas um pouco antes disso, Marinho recebeu a reportagem do Portal Acre na casa que possui no bairro Sibéria para uma conversa de quase duas horas. Entre lembranças, pausas longas e reflexões duras, ele falou do amigo Chico, da coragem dos antigos companheiros e da dor de ver o legado ameaçado.
ENTREVISTA — Sebastião Marinho do Nascimento (Sabá Marinho)
Portal Acre — Como foi que o senhor conheceu o Chico Mendes?

Sabá Marinho — Eu conheci o Chico Mendes quando ele foi vereador pelo MDB, mas antes disso ele já era secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975, e às vezes vinha aqui em Xapuri. A gente não se conhecia direito, mas já se via. O nome dele era muito falado: “o vereador Chico Mendes”. Depois, quando começou a luta dos trabalhadores, ele já tinha fundado o sindicato de Brasiléia, e nós fundamos o sindicato daqui em 1977. Ele veio exatamente para nos ajudar. Tinha até uma música: “o Chico Mendes chegou pra nos ajudar”. O primeiro presidente foi o senhor Luís Damião, depois foi a Dercy Teles, e aí chamamos o Chico para ser presidente. Ele ficou até o momento em que tiraram ele daqui. Foi quando começaram a chegar os fazendeiros — a gente chamava todo mundo de paulista — expulsando seringueiro, queimando casa, derrubando com motosserra. Aí começamos a nos reunir, discutir como barrar aquilo. Não tinha moto, não tinha carro. Um corria na casa do outro, avisando. E assim foi que a luta começou.
Portal Acre — Como era o Chico no trato diário? Tinha arrogância por ser liderança?
Sabá Marinho — Não, não, de jeito nenhum. O Chico era um Sabá, era um Raimundão. Do mesmo jeito que eu estou conversando aqui com você, ele conversava com a gente. Ele não tinha arrogância nenhuma. Era um caboclo igual a nós. Quando ia lá em casa, na Nova Vida, na hora do almoço, ele preferia sentar na grama, comer com o prato na mão, debaixo das árvores. Dizia: “vamos comer e conversar”. Não era pessoa de confusão. A briga dele era outra. Eu até dizia: “Chico, será que vão nos matar e a gente não vai fazer nada?” E ele respondia: “Eu não quero ver sangue derramado. Se matarem o Chico, o Sabá sobe. Se matarem o Sabá, sobe outro. Até chegar onde a gente quer”. A história do Chico era essa.
Portal Acre — Qual é a lembrança mais forte sua do Chico, uma lembrança que te marca muito da tua convivência com ele?
Sabá Marinho — Foi o derradeiro empate que nós fizemos no [seringal] Cachoeira. Aí o pessoal ficava me perguntando, por que é que você saiu do Nazaré e foi para o Cachoeira? E eu disse: “É que a luta é a mesma daqui. Os companheiros de lá uma hora estarão aqui junto com a gente”. Aí juntei o povo do São Pedro, Venezuela, e viemos de lá para cá juntando, aí todo mundo foi para fazer o empate. Quando nós terminamos o empate, a gente se reuniu ali, num campinho que tinha encostado na casa da dona Cecília [Mendes]. Nós cantamos, batemos palmas, e o Chico quando terminou levantou as duas mãos assim e disse: ganhamos! ganhamos! Eu lembro dessa passagem, até aquele menino que fez aquela minissérie, Amazônia, que estava fazendo a personagem do Chico, eu esqueço o nome dele, o Cássio Gabus, ele repetia a palavra do Chico. Então, aquele momento ali me marcou, porque ainda hoje alguém me pergunta o que fui fazer lá. Ora, ajudar os companheiros porque o Darly queria derrubar tudo. Teve um cabra que vendeu as terras para ele e nós dissemos que ali ele não passava, e não passou mesmo, não. Ele dizia que ia passar, mas não teve coragem. E esse momento decisivo tanto para a vida do Chico como para a luta. Foi ali que decidiram eliminar ele. Porque ficaram com muito ódio, com muita ira.
Portal Acre — Para o senhor, Chico era mais líder ou mais amigo?
Sabá Marinho — [Depois de uma longa pausa] Eu acho que o Chico era mais amigo. Debaixo da liderança dele, ele era mais amigo. Porque se ele não fosse amigo não tinha entregado a vida dele por esse povo. Pelo irmão dele, pelo seringueiro, pelos companheiros, trabalhadores, lá na zona rural. Se ele não fosse amigo desse povo, não amasse esse povo, ele não tinha entregado a vida. E ele foi aquele caboclo que entregou a vida. Pela companheirada que morava na zona rural, que mora na zona rural, apesar de que hoje, meu Deus, a situação está meio feia na zona rural.
Portal Acre — Na sua opinião, o que mudou em Xapuri, depois de tanto tempo?
Sabá Marinho — Uma das coisas que mudou bastante é que acabaram-se os companheiros que enfrentavam esse batente com coragem, sem medo de morrer. Porque sempre eu digo para o pessoal, para os companheiros, para os jovens: estamos entregando a luta para vocês, porque o que nós tínhamos de fazer já fizemos. Porque se nós não pensássemos em vocês, nós tínhamos entrado na luta para quê? Nós tínhamos de pensar em nós. Imaginar que na minha casa não podia botar a cabeça do lado de fora. Comia dentro do quarto, tomava banho, minha mulher carregava água, minha menina carregava água, botava a bacia lá dentro do quarto pra eu tomar banho dentro, porque não podia sair à noite. Ainda bem que eu tinha dois cachorros que não deixavam ninguém encostar. Na minha vertente amanhecia saco de farofa, saco de biscoito, garrafinha de água. Campana para emboscar. No caminho que eu vinha, tinha uma itaúba dessa altura assim [gesticula com as mãos], que os caras ficavam de trás. Eu só vinha de lá com dez pessoas, quinze pessoas, de lá pra cá.
Portal Acre — Na sua opinião, o que o Chico diria se ele chegasse aqui hoje e visse a realidade atual?
Sabá Marinho — Eu não tenho uma palavra para dizer o que o Chico diria se chegasse hoje aqui e ver ele ter derramado o sangue, ter perdido a vida dele, outros terem perdido, para ver hoje a situação que está. O sindicato não resolve mais nada. O povo está entrando aí, derrubando madeira numa área da minha colocação, que nunca foi vendida. De um pedaço de terra, 45 anos de trabalho lá, deixei meus filhos lá, hoje o pessoal está ganhando uma questão para entrar lá dentro para tirar toda a madeira. O sindicato não se mexe com isso. Certo, é fora da reserva, mas é floresta. E a gente está lutando pela Floresta Amazônica. Não quer que acabe, não quer que derrubem, não quer que acabe com as nossas águas. Que quantas cabeceiras, vertentes, quantas madeiras de lei já não foram embora, com essas derrubadas. E é isso que a gente não queria que acontecesse, nem quer. Continuo dizendo, não aceito a devastação da floresta. Que vêm gente por aí que vai precisar desse ar puro. Que são o futuro do país. Que são as crianças… que estão nascendo, que vão nascer, que estão nascidas. Só neto e bisneto meu eu estou completando 60. O último está na barriga da mãe. E eles precisam disso. Não só os meus. Os bisnetos do Raimundão vão precisar disso. Os netos dele já estão precisando disso. Porque quem é que não quer respirar um ar puro? Todos nós queremos respirar um ar puro. E esse futuro que vem ainda… a gente não sabe como é que vai viver.
Portal Acre — Xapuri, na sua opinião, a nossa sociedade, não só no aspecto do movimento social, mas como um todo, ela é injusta com o Chico?
Sabá Marinho — Exatamente. É injusta com o Chico, é injusta com o Lula, que o Lula nunca ganhou no Acre. Então eu acho que a nossa sociedade é muito injusta. A luta do Chico, o sacrifício que ele fez, sacrificou a vida dele, tiraram a vida dele, eu acho que é muito injusto. A gente vê hoje o filho do seringueiro, meu filho, filho do Sabá, derrubando de dois a três alqueires na floresta, matando o Chico outra vez. Pra mim é isso, eu entendo que quem faz um trabalho desse está matando o nosso companheiro outra vez, pra mim está dizendo assim: “se ele aparecesse hoje quem matava éramos nós.”








