
Casal com 63 anos de casamento transforma promessa em igreja e mantém viva a devoção a São Sebastião na zona rural do Acre
No interior da floresta acreana, o tempo sempre anda no compasso da fé e produz histórias como a de Antônio Martins Pereira, 82 anos, e Tereza Alves Martins, 79, que se confundem com a própria devoção a São Sebastião. Casados há 63 anos — desde 1963, quando ele tinha 20 e ela apenas 17 — o casal construiu uma família numerosa, criou os filhos nos valores cristãos e transformou uma promessa em legado.
Antônio nasceu em Lábrea, no Amazonas. Tereza veio de Serra do Pereiro, no Ceará. Hoje, vivem na zona rural de Capixaba, no seringal São Luís do Remanso, onde fincaram raízes, ergueram casa, educaram dez filhos — nove vivos — e mantêm acesa uma fé que atravessa gerações.
É na voz de dona Tereza que a história deles ganha contornos de milagre. Devota de São Sebastião desde a juventude, ela relembra o dia em que a vida pareceu escapar por entre os dedos. Um mal súbito, uma queda em frente de casa e uma hemorragia intensa. Diante do desespero, veio a súplica.
Um dos filhos, já adulto, rogou a Deus e a São Sebastião: se a mãe se levantasse dali, se a vida fosse preservada, eles construiria uma igreja dedicada ao santo.
A fé falou mais alto. O sangue estancou. Dona Tereza se levantou, foi tratada e se recuperou. A promessa não ficou apenas na palavra. Primeiro, uma capela simples de madeira. Depois, a igreja de alvenaria, erguida em frente à casa da família. Desde então, todos os anos, a comunidade celebra a festa de São Sebastião naquele espaço que nasceu da dor, da esperança e de um sentimento de profunda fé.
“Quantas pessoas não vêm aqui pra ouvir a palavra nessa igreja?”, reflete dona Tereza, diante da imagem de São Sebastião, igreja matriz, com a serenidade de quem vê a promessa cumprida gerar frutos muito além da própria vida.
Mais reservado, seu Antônio também carrega uma devoção antiga. Diz que a fé em Deus o acompanha desde os 17 anos e que sempre ensinou aos filhos os preceitos cristãos como base da vida. Entre os ensinamentos, uma frase simples e firme, passada de pai para filho: “Um filho que toma a bênção do pai de costas não é feliz.”
Mesmo com a idade avançada e as limitações do corpo, dona Tereza ainda faz questão de, sempre que pode, estar presente na festa do padroeiro, reforçando um vínculo que não se mede pela distância ou pelo tempo, mas pela devoção sincera.
Em meio às celebrações de São Sebastião, a história do casal Antônio e Tereza traduz o espírito da festa: fé vivida no cotidiano, promessa cumprida com simplicidade e uma devoção que se transforma em herança espiritual para filhos, netos e toda a comunidade.








