
Dois moradores de Xapuri tornaram-se réus por supostos crimes ambientais dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, uma das áreas de conservação mais simbólicas do país. A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra alvos da Operação Mezenga, deflagrada pela Polícia Federal em fevereiro do ano passado.
O processo tramita sob sigilo na Justiça Federal, mas, segundo o MPF, os dois denunciados são acusados de invasão de terras da União, inserção de informações falsas em cadastro ambiental, desmatamento, uso de fogo e criação irregular de gado dentro e no entorno da reserva.
A Operação Mezenga cumpriu nove mandados de busca e apreensão e identificou cerca de 1,4 mil bovinos sendo criados em áreas protegidas. O nome da operação faz referência ao personagem Bruno Mezenga, da novela Rei do Gado, numa alusão direta à expansão da pecuária.
Além das penas previstas na legislação, o MPF pede que os denunciados desocupem as áreas e sejam proibidos de exercer atividades econômicas incompatíveis com a unidade de conservação, como a agropecuária.
Acordos e recuperação ambiental
Outros três investigados firmaram acordo de não persecução penal com o MPF. Eles se comprometeram a aderir ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), apresentar Projetos de Recuperação de Áreas Degradadas (PRADA), recompor áreas de preservação permanente e entregar bens no valor de R$ 250 mil ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão da reserva. Segundo o MPF, os acordos priorizam a reparação do dano ambiental e o fortalecimento da fiscalização.
Xapuri no centro das operações
Não é a primeira vez que Xapuri aparece no radar das autoridades ambientais. Em 2025, a cidade também foi palco da Operação Suçuarana, que mirou ocupações e criação irregular de gado dentro da mesma reserva. As duas ações evidenciam a pressão recorrente da pecuária sobre áreas destinadas ao extrativismo tradicional.
Criada como símbolo da luta de Chico Mendes, a Resex Chico Mendes tem cerca de 970 mil hectares. Em 2025, registrou 14 km² de desmatamento — o equivalente a aproximadamente 1,4 mil campos de futebol —, uma redução de 56% em relação ao ano anterior, segundo levantamento do Imazon.
Apesar da queda nos índices, os números mostram que a disputa pelo território persiste. Em julho do ano passado, a Justiça Federal determinou que o ICMBio realizasse o georreferenciamento das áreas ocupadas por famílias extrativistas na reserva, numa tentativa de organizar o uso do território e reduzir conflitos.







