Rio Branco, 19 de abril de 2026.

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“Identidade de gênero não afasta ninguém do sagrado”, diz mãe de santo que promove acolhimento de jovens LGBTQIA+ por meio do candomblé

“Muitos jovens LGBTQIA+ chegam até nós depois de sofrer rejeição em outros espaços”, diz mãe de santo – Foto: acervo pessoal

Nos últimos anos, termos violentos, como “cura gay” e “destransição”, foram citados em matérias jornalísticas que denunciavam o comportamento de lideranças religiosas em todo o território brasileiro, que com ideologias conservadoras e preconceituosas, cometiam o crime de homofobia contra jovens e adultos LGBTQIA+.

Em dezembro de 2024, a jovem Letícia Maryon, de apenas 22 anos, tirou a própria vida após passar pela “destransição” na igreja em que frequentava, comandada pelo pastor Flávio Amaral, que ganhou notoriedade por se intitular “ex-travesti” e pregar que os fiéis poderiam “deixar a homossexualidade” por meio da fé.

O caso gerou revolta e foi denunciado pela deputada federal Erika Hilton, que por meio das redes sociais, levantou o movimento “Não somos doentes!”.

No Acre, em meio a tantos episódios de ódio e intolerância, Térgila Narrina Jucá Nascimento promove acolhimento e respeito por meio da religião. Mãe de santo do terreiro Ilê Axé Omó Dan Setó, Térgila foi iniciada no candomblé, religião de matriz africana, e no Ifá, há 13 anos. Para a ialorixá (mãe de santo), a religião deve enxergar o coração.

“O candomblé é uma religião que abraça e acolhe os seres humanos independente da raça, cor, gênero ou identidade sexual, ele enxerga o coração da pessoa, pois isso é que realmente importa para o orixá, um bom orí (cabeça), com boas intenções, devoção ao orixá e, principalmente, disposição para seguir os dogmas, os preceitos e o respeito, que são necessários para uma relação recíproca com o orixá e com a casa de santo”.

No terreiro, Térgila acompanha mais de 10 filhos LGBT, entre eles, um homem trans. A religiosa destaca que a identidade de gênero não afasta ninguém do sagrado. “Muitos jovens LGBTQIA+ chegam até nós depois de sofrer rejeição em outros espaços, inclusive religiosos, e aqui encontram respeito, pertencimento e a possibilidade de ser quem são sem culpa”,

Térgila compartilha que o acolhimento é também um momento que ensina. “Pela abrangência da religião, convivemos e abraçamos diversas pessoas, o que nos ensina a nos tornarmos seres humanos melhores em todos os contextos. Graças à religião, tenho o privilégio de aprender muito sobre os meus filhos e clientes, trabalhando na inclusão de todos, sem qualquer tipo de preconceito”, pontua.

A mãe de santo conta ainda que sempre simpatizou com religiões de matriz africana e que há 18 anos, iniciou na umbanda como cliente, onde teve contato com as entidades da religião. Anos depois, foi iniciada no candomblé.

Acolhimento é, antes de tudo, uma forma de combate ao preconceito – Foto: acervo pessoal

“Me iniciei no candomblé, para meu orixá Oxumarê, em Rio Branco. Após o processo iniciático, morei em Cruzeiro do Sul, onde solidifiquei minha tenda de atendimento e depois retornei para Rio Branco. Atualmente, minha casa completa cinco anos aberta e sigo nessa principal função de acolher pessoas, amigos, e todos que necessitam de auxílio espiritual, sempre acompanhada por Exu, Oxumarê e todas as entidades que cultuamos dentro do candomblé e do Ifá”.

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