
De acordo com a versão mais recente do levantamento TIC Kids Online Brasil 2025, cerca de 84% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos, acessam a internet mais de uma vez por dia. O dado revela uma realidade preocupante: crianças e adolescentes têm acessado cada vez mais o mundo virtual, estando expostas não apenas aos benefícios, mas aos perigos da rede digital.
Nesta semana, no interior do Acre, uma criança de 9 anos perdeu a vida. A investigação preliminar da Polícia Civil aponta uma possível relação entre a fatalidade com desafios online na internet. O caso não tem conclusão definida e ainda será apurado pela investigação da Polícia, mas se especula que a criança tenha tirado a própria vida.
A psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), Raphaella Assem, explica detalhes dos possíveis perigos que o mundo virtual pode ter para esse público.
Uso excessivo pode causar problemas
De acordo com a psicóloga, não existe comprovação científica de que jogos online, podem, por si só, causar comportamentos de risco em crianças. O problema, na realidade, está relacionado ao uso excessivo ou quando há um padrão problemático de jogo. Ainda assim, é necessário entender que fatores como saúde mental prévia, ambiente familiar, supervisão dos responsáveis e contexto social possuem grande influência.
“Na área da saúde mental, raramente há relações simples e lineares de causa e efeito, pois o comportamento humano é multifatorial. Portanto, os jogos não devem ser vistos como vilões. O impacto depende muito mais de como, quanto e em que contexto a criança joga do que do jogo em si”, explica.
Ainda de acordo com a psicóloga, crianças estão em uma fase importante de desenvolvimento emocional e cognitivo, portanto, não é possível esperar que elas saibam reconhecer melhor emoções, lidar com frustrações, controlar impulsos, e compreender consequências de formas mais amplas, portanto, crianças não compreendem possíveis perigos do mundo virtual como adultos.
“O ambiente digital exige discernimento, senso crítico e autorregulação, competências que ainda estão em desenvolvimento nessa faixa etária. Inclusive, muitas vezes a própria internet já é complexa e difícil até para nós, adultos; imagine, então, para uma criança que ainda está se entendendo no mundo”, diz.
Quais sinais de alerta observar?

Assem explica que o desenvolvimento de transtornos psicológicos em crianças geralmente envolvem diversos fatores. Cotidiano, ambiente familiar, relações escolares, convívio social e rotina têm grande influência no bem estar dos pequenos.
Entre os sinais, mudanças no comportamento, rompimento de padrões durante o dia, e até prejuízo nas atividades escolares ou sociais são alguns aspectos a serem observados. Apesar disso, a psicóloga alerta que cada criança tem seu jeito, então é importante perceber mudanças em relação a si mesma.
“Os principais sinais de alerta não estão ligados a comportamentos específicos, mas a mudanças significativas no padrão habitual da criança ou do adolescente. Alterações bruscas de humor, irritabilidade fora do comum ou isolamento que não faziam parte do perfil anterior merecem atenção. Também é importante observar os rompimentos da rotina, como mudanças no sono, na alimentação ou na organização do dia a dia. Outro ponto relevante é o prejuízo no contexto escolar, como queda no rendimento, dificuldade de concentração ou perda de interesse pelas atividades”, explica a psicóloga Raphaella Assem.
Diálogo e supervisão são importantes
Além de observar os sinais, é importante que os responsáveis mantenham a supervisão ativa e o diálogo para orientar, contextualizar experiências e promover um ambiente mais seguro e saudável para a criança.
“Os pais podem adotar medidas simples, mas muito eficazes: observar, monitorar e supervisionar o que a criança faz no dia a dia e no ambiente digital. É fundamental também manter um canal de comunicação aberto, ajustando a forma de dialogar ao estilo de cada criança. O ponto-chave é entender como a criança se comunica e estar presente de forma consistente, sem ser invasivo, criando segurança para que ela compartilhe experiências, dúvidas e dificuldades”, orienta a psicóloga.
Além disso, Assem orienta que o debate sobre os riscos digitais também pode estar nos ambientes que essa criança frequenta e confia, como a escola, por meio de palestras, rodas de conversa e atividades lúdicas. A capacitação dos educadores também é fundamental.
“A linguagem precisa ser próxima da deles, sem termos complexos, e os profissionais devem entender o universo digital que as crianças frequentam. Isso significa conhecer jogos, mídias e redes de forma prática, porque, mesmo parecendo diversão, esse é o contexto em que elas vivem e, portanto, onde nosso trabalho de orientação acontece. É entrar no mundo deles e falar a língua deles, com propriedade”, disse.
Procure ajuda
A psicóloga orienta, ainda, sobre a importância de evitar conclusões precipitadas. Segundo ela, em momentos de preocupação, é natural que os responsáveis queiram “encontrar um culpado”. Nesses momentos, a família necessita de acolhimento, não julgamento.
Se você precisa de ajuda, ou é responsável por criança ou adolescente que necessita de assistência, busque ajuda pelos canais:
Centro de Valorização da Vida (CVV) – 188: a ligação é gratuita e aberta 24h todos os dias. Além do oniline: cvv.org.br
Em casos de crises e/ou emergências em saúde mental, ligue para o SAMU ou busque a UPA mais próxima da sua residência. Ou, pode ir diretamente ao HUERB.
O CAPSi está sempre de portas abertas para acolher, atender e orientar crianças, adolescentes e pais e responsáveis. De segunda a quinta, das 7h30 às 17h30, na Avenida Sobral, em Rio Branco







