Rio Branco, 19 de abril de 2026.

Não era essa a história que esperávamos no Dia das Mulheres – Por Daigleíne Cavalcante

Dois meses depois, já dá para dizer: 2026 é um ano histórico. Lembra como ele começou?

Enquanto brindávamos a virada, os jornais anunciavam a maior Mega-Sena da história. Mais de um bilhão de reais. Manchetes comemorativas. Números impressionantes. Brasileiros sonhando.

Parecia um sinal. Um presságio otimista.

Mas talvez a história que esteja sendo escrita não seja exatamente aquela que imaginávamos. Porque, de positivo mesmo, parece que ficamos na loteria. De lá para cá, as manchetes disputam qual será a notícia mais perturbadora.

Filme de terror

Crises políticas. Decisões judiciais controversas. Intolerância cotidiana. Brutalidade banalizada. O noticiário parece um roteiro mal escrito de filme de terror. É que neles sempre há uma cena pior logo depois.

Mas, no meio do caos generalizado, um padrão insiste em se repetir.

As mulheres seguem sendo perseguidas como em Psicose, de Alfred Hitchcock. Só que aqui não há trilha sonora dramática. Há silêncio constrangedor.

Recentemente, um homem de 35 anos foi absolvido da acusação de estupro de vulnerável após manter relação com uma menina de 12 anos, sob a justificativa de que teria constituído família com ela.

A lei brasileira é objetiva: menores de 14 anos são vulneráveis. Não se trata de consentimento, trata-se de proteção.

Foi preciso que o caso ganhasse repercussão nacional. Que mulheres com voz pública questionassem a decisão. Só então o desembargador voltou atrás e decretou a prisão do adulto e dos responsáveis que permitiam o “relacionamento”.

Não são episódios isolados. É padrão!

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra mais de 74 mil casos de estupro por ano. Mais da metade das vítimas tem até 13 anos.

No Brasil, uma mulher é vítima de feminicídio a cada seis horas. A cada seis minutos, alguém é estuprado. Os números não são opinião, são um diagnóstico.

Recentemente, no Acre, jogadores foram presos sob suspeita de estupro. Dias depois, colegas entraram em campo em apoio público. Camisas erguidas, recados dados!

Claro, que depois sempre há uma nota de repúdio, mas quase nunca há transformação cultural.

E sabe quando você pensa: “não é possível que possa piorar” e a situação, de forma estarrecedora, piora? Pois é! No Rio de Janeiro, uma adolescente foi atraída para uma emboscada e violentada por cinco jovens. Em outro caso, uma idosa de mais de 70 anos foi estuprada dentro de um ônibus, após o motorista apagar as luzes e esperar que todos descessem.

Não é sobre idade, não é sobre roupa, não é sobre horário! É sobre uma construção social que confere uma sensação de poder aos homens.

A mesma sociedade  que repete que defendemos igualdade, em um discurso pronto, polido e socialmente obrigatório. Mas quando a igualdade exige rompimento com colegas, enfrentamento dentro de casa, exposição pública, posicionamento firme, a coragem evapora.

A violência não diminuiu na mesma proporção em que cresceram os discursos sobre respeito. E então fica a pergunta: igualdade virou código de etiqueta social?

Com apenas três meses, 2026 já se anuncia como histórico. Mas talvez seja histórico por nos obrigar a encarar o que preferimos ignorar. Estamos acelerados demais para perceber que andamos em círculos.

Parece que a indignação agora tem prazo de validade e é de no máximo 48 horas, porque depois vem o próximo caso e o anterior já não dói tanto, para sociedade, que não sente a dor da vítima.

Não era essa a história que esperávamos quando víamos os filmes sobre o futuro e a evolução da humanidade.

Esperávamos chegar no dia da mulher e comemorar a sensação de se decidir ser tudo o que quiser, onde quiser, como quiser, com quem quiser… Esperávamos respeito real!

Mas seguimos ouvindo apenas discurso de proteção, mas vivendo sempre com medo.

Até quando?

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Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

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