Rio Branco, 21 de maio de 2026.

O que realmente importa nessa discussão? – Por Daigleíne Cavalcante

Hilton em atuação da Câmara dos Deputados – Foto Agência Câmara

A eleição da deputada federal Erika Hilton para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados virou mais uma daquelas polêmicas que rapidamente tomam conta das redes sociais.

Primeiro veio a votação apertada: Hilton foi eleita com 11 votos, contra 10 votos em branco. Um placar que por si só já revela algo curioso: houve mais parlamentares preferindo não se posicionar do que apoiar explicitamente a nova presidente.

Depois veio a fala do apresentador Ratinho, no SBT, afirmando que Hilton “não é uma mulher”, porque, segundo ele, para ser mulher seria preciso ter útero e menstruar. A declaração gerou reação imediata, processo por transfobia e uma nota oficial do SBT afirmando que a opinião do apresentador não representa a emissora.

E assim o debate seguiu seu caminho previsível: indignação de um lado, ataques do outro, polarização nas redes… e pouca gente discutindo aquilo que realmente deveria importar.

Porque a pergunta central talvez seja: O que realmente faz diferença para ocupar um cargo como esse?

Será a biologia de quem o ocupa? Ou a capacidade de lutar por políticas que realmente protejam as mulheres?

Vivemos em um país onde os números de violência contra mulheres continuam assustadores. Onde muitas ainda vivem com medo. Onde a desigualdade continua sendo uma realidade cotidiana.

Diante disso, o que deveria estar no centro do debate é simples: o que será feito a partir desse cargo? Quais projetos serão apresentados? Quais políticas públicas serão defendidas?
Quais mudanças reais podem surgir dali?

Mais do que discutir identidades, talvez devêssemos observar histórico, atuação e compromisso.

O que a parlamentar já fez nessa pauta? Quantos projetos apresentou? Quantas vezes levantou a voz para defender essa causa? Essas são perguntas políticas, que deveriam ser respondidas politicamente.

Há exemplos na própria política brasileira que mostram como julgamentos apressados podem estar errados.

Quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o nome de Aldo Rebelo para o Ministério da Defesa, a reação de parte das Forças Armadas foi de forte desconfiança. Rebelo vinha de uma trajetória ligada à esquerda e ao movimento comunista, o que gerou críticas e receios dentro do meio militar.

Com o tempo, porém, o cenário mudou. Ao assumir o cargo no governo de Dilma Rousseff, Rebelo construiu diálogo, ganhou respeito institucional e acabou sendo reconhecido por muitos militares como um dos ministros da Defesa mais equilibrados que passaram pela pasta.

O episódio mostra algo simples, mas que às vezes esquecemos no calor das disputas ideológicas: o que define um gestor público não é apenas quem ele é ou de onde veio, é o que ele faz quando assume a responsabilidade.

Talvez essa seja a pergunta que realmente importa agora: o que será feito a partir desse cargo? Porque no fim das contas, mulheres não precisam de símbolos. Precisam de resultados.

Porque, no fim das contas, o que as mulheres realmente querem, e merecem, é que pessoas comprometidas façam os direitos valerem a pena.

Pessoas que ajudem a construir uma sociedade em que homens não se sintam superiores às mulheres. Uma sociedade em que respeito e segurança deixem de ser exceção e passem a ser regra.

Se quem ocupa o cargo é uma mulher cis, uma mulher trans ou qualquer outra pessoa, talvez essa seja uma discussão menor diante da urgência do problema.

Porque se fosse uma mulher “biológica” ocupando o posto, mas sem compromisso real com a pauta… isso seria melhor?

No fim das contas, toda essa polêmica nasceu da fala de um homem. Um homem que, por mais que tente, provavelmente nunca vai entender completamente o que significa viver com medo simplesmente por ser mulher.

Talvez por isso o debate tenha tomado esse rumo, mas talvez também esteja na hora de mudarmos a pergunta, porque quem ocupa o cargo não interessa, mas o que será feito, de fato, com ele.

São anos, anos e anos, de leis que dizem proteger as mulheres, mas que no final das contas, vemos pelos tristes dados de feminicídio, violência e abusos sexual, que nunca protegeram! 

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Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

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