Rio Branco, 22 de maio de 2026.

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Quando a dor vira rotina: Campanha do Março Amarelo relembra a importância do diagnóstico da Endometriose

Estudos mostram que endometriose afeta uma em cada dez mulheres no Brasil – Foto: reprodução

O mês de março traz consigo a campanha de conscientização sobre uma doença crônica que afeta 1 a cada 10 mulheres no Brasil, a endometriose. O Março Amarelo busca alertar que dores e cólicas fortes não são normais, mas afetam a qualidade de vida de meninas e mulheres. A doença é, muitas vezes, pouco entendida por quem não a vive, e o diagnóstico precoce é um importante meio de promover uma rotina mais saudável.

A médica ginecologista e obstetra, Camila Amorim, explica que a endometriose é uma doença que ocorre quando o tecido que deveria crescer apenas dentro do útero começa a crescer fora dele.

“Esse tecido é o mesmo que descama na menstruação, e é chamado de endométrio.
O problema é que, fora do útero, ele não tem por onde sair, então inflama, dói e pode formar aderências”, explica.

De acordo com o estudo “Endometriose na região norte do Brasil: Prevalência de internação, desafios e perspectivas para a saúde da mulher”, publicado na revista Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, entre 2019 e 2023, foram identificados mais de 3,6 mil internações por endometriose no Norte do país, dessa porcentagem, o Acre entre com quase 10%: 9,6% dessas internações vieram do Estado.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 180 milhões de mulheres em todo o mundo enfrentam esse problema, sendo 7 milhões delas no Brasil (MS/SVS, 2023). Essa condição afeta principalmente mulheres em idade reprodutiva, geralmente entre os 25 e 40 anos. No entanto, embora seja mais comum nesse grupo etário, a endometriose pode afetar mulheres de todas as idades, incluindo adolescentes e mulheres na pós-menopausa”, diz a publicação.

A doença pode afetar o emocional e a qualidade de vida dessas meninas e mulheres. Dor crônica e infertilidade são algumas das consequências. Além disso, a vida pessoal e profissional delas também é afetada, por isso, é importante que o diagnóstico seja precoce.

Meireelem Carvalho: conheça portadora de Endometriose que fez da história de vida uma inspiração para outras mulheres

Meireelem Carvalho, que tem uma filha de quatro anos, resolveu usar as rede sociais para falar sobre a doença – Foto acervo pessoal

Uma dessas mulheres é a servidora pública e pastora Meireelem Carvalho. Natural de Brasiléia, no interior do Acre, Meireelem é graduada em Química pela Universidade Federal do Acre (Ufac), e possui mestrado na mesma área pela instituição. Aos 35 anos, ela é casada, e tem uma filha de 4 anos.

“Eu sou traumatizada com o nome cólica. A minha vida inteira eu sofri de dores. Muitas vezes eu deixei de fazer coisas porque sabia que naquela semana eu ficaria incapacitada”, disse.

Meireelem conta que já chegou a faltar à faculdade por conta das dores fortes, além dos fortes remédios que tomava por conta dos incômodos. Apesar das queixas constantes, o diagnóstico da endometriose só veio após uma cirurgia exploratória, aos 25 anos, 14 anos depois da primeira menstruação.

Depois da primeira cirurgia, vieram outras. Na segunda, por videolaparoscopia, a pastora descobriu que estava com as duas trompas obstruídas e órgãos pélvicos com aderências, onde veio o diagnóstico de infertilidade.

“Foi quando vi a endometriose como uma causa de vida. O diagnóstico de infertilidade também foi uma coisa que me impactou muito, porque eu não estava preparada para receber essa palavra, de infértil, mas eu nunca recebi essa palavra como sentença […] Em 2021, fiz um exame e vi que as minhas duas trompas estavam desobstruídas. Eu acredito que foi um milagre e que Deus me curou”, relatou.

Relato nas redes sociais

Nas redes sociais, a servidora escolheu falar sobre o diagnóstico, como forma de inspirar outras mulheres a viverem com endometriose. Através do perfil @meireelemcarvalho no Instagram, Meireelem reforça a importância do diagnóstico precoce e da qualidade de vida.

“Um dos motivos que eu escolhi contar minha história nas redes sociais é fazer com que o maior número de mulheres entendam, que elas precisam buscar por um profissional que realmente entenda a sua dor, que a dor não é normal e mesmo que você não sinta cólica, mas dores em outros locais, é importante ter o diagnóstico”, disse.

Ao compartilhar o próprio testemunho, Meireelem afirma que passou a receber mensagens de mulheres que se identificaram com os sintomas e que, até então, acreditavam que sentir dor intensa era algo comum no ciclo menstrual.

“Nas que eu compartilhei o meu testemunho, muitas mulheres vieram falar comigo, buscando entender o que estavam sentindo. Isso me enche de gratidão, porque eu entendo que tudo tem um propósito. Se eu vivi tudo que vivi, eu gostaria que outras mulheres não precisassem viver da mesma forma”, relatou.

Ela conta que recebeu mensagens de mulheres que só descobriram a endometriose já próximas da menopausa, após anos de sofrimento silencioso:

“Eu recebi relatos de mulheres que estavam fazendo a retirada do útero e só na menopausa foram diagnosticadas com endometriose. Quantos anos essas mulheres sofreram com dores incapacitantes e não foram ouvidas? Dor de cólica não é normal. A gente precisa repetir isso”, reforçou.

Diagnóstico precoce e acesso à saúde

Ginecologista Camila Amorim destaca a importância do diagnóstico precoce – Foto acervo pessoal

Para a ginecologista Camila Amorim, o diagnóstico precoce é determinante para evitar complicações mais graves, além de promover uma melhor qualidade de vida para a mulher, estabilizar a doença e, até mesmo, planejar uma gravidez em um momento oportuno.

“Os primeiros sinais incluem a cólica menstrual mais intensa, que não melhora com analgésicos comuns, e que ocasionam faltas à escola ou ao trabalho. Se a sua cólica menstrual te impediu de fazer alguma atividade, isso deve chamar a sua atenção”, alerta a ginecologista, sobre os primeiros sinais a serem observados.

Assim como Meireelem Carvalho, muitas mulheres possuem um diagnóstico tardio da doença, com demora para conseguir o diagnóstico, segundo a médica Camila Amorim, essa demora acontece porque as cólicas menstruais foram, por muito tempo, normalizadas.

“Na endometriose, o diagnóstico deve ser clínico, ou seja, pelas queixas da paciente. Um exame normal não deve descartar a possibilidade da doença”, explicou.

Acolhimento e apoio

Para a médica, é importante que aqueles que convivem com mães, irmãs, amigas ou esposas, também compreendam os incômodos que a endometriose causa para quem a possui. Segundo ela, a dor não deve ser normalizada:

“Não pensem que é normal todos os meses ter uma dor que interfere em suas atividades ou apresentar dor na relação sexual, dor ao evacuar. Toda dor merece ser investigada. Não minimize a sua dor e nem a dor de outra pessoa. Se você tem dor, procure ajuda especializada, e se você conhece alguém que tenha esse quadro, oriente essa mulher a procurar ajuda”, orientou Camila Amorim.

Como portadora da doença, Meireelem também concorda. Para ela, além disso, é importante que os pais e responsáveis estejam atentos e orientem suas filhas:

“Hoje eu tenho uma filha e um dos meus maiores motivos é fazer esse alerta para os pais. Que eles estejam atentos às filhas, que acolham quando elas reclamarem de dor na escola. Que essa geração não precise sofrer como muitas de nós sofremos”, disse.

No mês do Março Amarelo, o alerta permanece: quando a dor vira rotina, é hora de investigar. Porque sentir dor não é normal, e ser ouvida pode mudar a qualidade de vida de meninas e mulheres.

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