
Em quase duas décadas de jornalismo, acompanhei governos irem e virem, faixas sendo passadas, discursos sendo repetidos e bastidores sendo reorganizados com a precisão de quem já conhece o roteiro.
Mas, pela primeira vez, acompanho a transição de governo para uma mulher: a governadora Mailza Assis.
Sempre houve tensão, sempre houve expectativa, mas também sempre houve um consenso silencioso, daqueles que ninguém precisa dizer em voz alta: quem chega, escolhe com quem fica.
Todos os secretários, diretores e equipes de cargo de confiança sabem disso. Não é pessoal, nunca foi. É da natureza do poder.
Como já dizia Maquiavel, os homens se movem muito mais por interesse do que por lealdade e, no jogo político, isso sempre ficou muito claro, mas desta vez… algo está diferente.
Pela primeira vez, vejo uma movimentação mais intensa, mais visível e, no mínimo, mais inquieta.
Não se trata apenas do desejo de permanecer, isso sempre existiu. Trata-se de como estão tentando permanecer.
Articulações intensas que deixaram de ser silenciosas, movimentos de bastidor cada vez mais evidentes, tentativas de permanência que parecem ultrapassar o que historicamente sempre foi compreendido como natural em uma transição de governo.
E é aqui que a pergunta deixa de ser política e passa a ser comportamental: O que mudou?
O cargo continua o mesmo.
O poder da caneta continua o mesmo.
A estrutura continua a mesma.
Então por que, desta vez, tantos parecem acreditar que podem interferir nas decisões de quem foi instituída como maior liderança do estado?
A resposta pode não ser simples, mas a reflexão precisa ser feita. Será apenas apego ao poder?
Medo de perder espaço? Ou estamos diante de algo mais profundo?
Será que os personagens que hoje vemos “batendo o pé e puxando beicinho” para forjar uma tentativa de permanecer no cargo que ocupam, a todo custo, esquecem que primeiro é necessário que a liderança seja respeitada, depois é imprescindível que a confiança seja estabelecida para que o trabalho seja realizado como deve?
Mas existe uma pergunta ainda mais desconfortável e talvez a mais importante de todas: E se fosse um homem assumindo o governo, veríamos esse mesmo comportamento?
Que fique claro que isso não se trata de acusação, mas de observação. Porque o poder, como bem definiu Hannah Arendt, não está apenas no cargo, mas na capacidade de agir em conjunto.
E talvez o mais contraditório seja perceber que, entre esses movimentos, também estão vozes que defendem unidade e fortalecimento feminino, mas que, na prática, parecem disputar espaço antes mesmo de reconhecer a liderança de outra mulher.
E agir em conjunto não é disputar espaço antes mesmo do jogo começar. É reconhecer, ainda que silenciosamente, quem agora conduz a partida.
Talvez seja cedo para conclusões definitivas, mas não é cedo para registrar o incômodo. Porque, em política, os gestos (as matérias publicadas, os áudios vazados, as ligações feitas) dizem muito, às vezes, dizem mais do que discursos.
E o que se vê neste início de governo, no mínimo, foge ao padrão que por tantos anos pareceu inquestionável.
A verdade é que a faixa, foi passada, mas ao que tudo indica, ainda há quem não tenha entendido, ou não queira aceitar, que é preciso respeitar a autoridade da governadora instituída, e que cargos tem muitos, mas a caneta, tem dono, aliás tem dona e chama-se Mailza Assis!