Rio Branco, 13 de junho de 2026.

Até que a doença nos una

Queridos leitores, a coluna entrou no clima do dia dos namorados e resolvi trazer aqui uma reflexão sobre uma frase muito ouvida em casamentos, cartões e declarações de amor, frase esta que atravessa gerações “na saúde e na doença”, uma frase tão conhecida e, tão pouco compreendida. Porque sejamos realistas que só passamos a entender o verdadeiro significado da frase quando a doença chega.

A vida tem o hábito de testar promessas, e é durante a chegada de um diagnóstico grave que percebemos que, ele não atinge apenas um paciente. Ele atravessa uma família inteira. Altera rotinas, interrompe planos, muda prioridades e exige uma reorganização profunda da vida de quem está ao redor. Entre consultas, exames, internações e tratamentos, surge uma figura que raramente recebe atenção: aquele que permanece.

No último ano tive a oportunidade de acompanhar a história de um casal que impactou todos aqueles que acompanharam sua história, pois mostrou o verdadeiro significado de permanecer quando a saúde já não está mais presente, quando os dias são preenchidos com cirurgias, procedimentos, fios, aparelhos, pela incerteza e pela esperança.

Em um dia comum, tudo mudou quando ele foi atingido por um tiro de fuzil, quando contra todas as perspectivas ele sobreviveu e quando ela permaneceu e acredito que nesse momento de tantas incertezas o amor se transforma, deixa de ser apenas sentimento e se transforma em presença.

A doença tem uma capacidade singular de retirar as máscaras da vida cotidiana. Ela revela fragilidades, limitações e medos. Mas também revela a força silenciosa do cuidado. Enquanto o paciente enfrenta a dor física, alguém ao seu lado enfrenta a angústia da espera, a insegurança do futuro e o desgaste emocional de assistir ao sofrimento de quem ama.

Esse casal permaneceu por 423 dias, a eles foi concedido o tempo para viver o hoje, para sofrer e para se alegrar e para ter esperança, eles tiveram a oportunidade das permanências e da despedida.

No exercício da advocacia voltada ao direito à saúde, essa realidade aparece todos os dias.

Por trás de cada processo judicial que busca um medicamento, uma cirurgia ou um tratamento negado, existe uma história que dificilmente cabe nas páginas dos autos. Existem noites sem dormir, economias comprometidas, filhos preocupados e parceiros que se recusam a abandonar a batalha.

Os documentos falam de prescrições médicas, laudos e contratos. A vida fala de amor e, talvez seja justamente nesses momentos que o verdadeiro significado da expressão “na saúde e na doença” se revele. Não como uma promessa feita diante de testemunhas, mas como uma escolha renovada diariamente diante das dificuldades.

O amor romântico costuma ser celebrado pelas flores, pelos presentes e pelas datas comemorativas. Mas existe uma forma de amor que raramente aparece nas fotografias: aquela que segura a mão durante uma sessão de quimioterapia, que acompanha exames de madrugada, que aprende nomes de medicamentos difíceis de pronunciar e que insiste em acreditar quando o outro já perdeu as forças.

O amor está presente nos dias comuns, nos corredores de hospitais, nas salas de espera, naquilo que ninguém vê. A doença tem o poder de mudar planos, de impor limites, alterar corpos. No entanto, ele também tem a capacidade de revelar a capacidade de permanecer.

Porque infelizmente há quem vá embora diante da doença. E há quem escolha ficar quando a rotina desaparece, quando o medo faz companhia diária e quando o futuro é totalmente incerto, porque pode ser aí que o amor encontre sua expressão genuína.

Entre a lei e a vida, há histórias que não cabem nos processos. História de cuidado, resistência e afeto e muita resiliência.

Porque, às vezes, a doença não separa.

Na minha jornada tenho aprendido que em muitos processos, a maior prova de resistência não está apenas na luta contra a doença, mas na capacidade de continuar cuidando e amando apesar dela.

Aline Ramalho é advogada, especialista em Direito da Saúde e colunista do Portal Acre.

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Aline Ramalho

Advogada, especialista em Direito da Saúde, com foco em medicamentos e tratamentos de alto custo, especialmente em casos oncológicos, coautora de livros. Comprometida em viabilizar acesso digno e efetivo à saúde.

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