Rio Branco, 20 de junho de 2026.

Quem decide seu tratamento: o médico, o plano de saúde ou um algoritmo?

Não é novidade que a inteligência artificial já está presente em grande parte das nossas decisões cotidianas. Ela sugere músicas, escolhe o caminho mais rápido para o trânsito, identifica fraudes bancárias e até ajuda empresas a selecionar currículos.

O que talvez, você ainda não saiba é que essa mesma tecnologia avança rapidamente sobre um dos setores mais sensíveis da sociedade: a saúde.

Quando ouvimos falar em inteligência artificial na medicina, normalmente pensamos em diagnósticos mais rápidos, exames mais precisos e novas possibilidades de tratamento. E, de fato, esses avanços já são realidade. A tecnologia tem contribuído para melhorar a eficiência dos serviços de saúde e apoiar profissionais na tomada de decisões.

Mas existe uma outra discussão que ainda recebe pouca atenção: o uso da inteligência artificial por planos de saúde. Sim! Os planos de saúde já utilizam essa tecnologia bem mais do que podemos imaginar.

Segundo reportagem publicada pelo portal O Futuro da Saúde, as operadoras já utilizam inteligência artificial em diversas etapas de sua operação, incluindo análise de fraudes, autorizações de procedimentos, encaminhamentos, reembolsos, atendimento virtual e análises preditivas. O objetivo declarado é aumentar a eficiência, reduzir desperdícios e otimizar recursos.

À primeira vista, isso pode parecer uma excelente notícia. Afinal, quem não gostaria de ter respostas mais rápidas para solicitações de exames, cirurgias ou tratamentos?

O problema surge quando a busca por eficiência encontra a complexidade da vida real, pois nenhum paciente é igual ao outro e talvez esse ponto seja desconsiderado pela inteligência artificial.

Dois indivíduos podem ter exatamente o mesmo diagnóstico e, ainda assim, apresentar necessidades completamente diferentes. Idade, histórico clínico, condições associadas, resposta a tratamentos anteriores e inúmeros outros fatores fazem com que a medicina seja, acima de tudo, uma prática individualizada.

É justamente na prática individualizada, que surge uma reflexão importante.Quando um médico indica determinado tratamento, ele não está apenas analisando dados. Está considerando a história daquele paciente, suas características específicas e a urgência de sua condição.

Um algoritmo, por mais sofisticado que seja, trabalha de maneira diferente. Ele identifica padrões, cruza informações e compara situações semelhantes. Isso pode ser extremamente útil para apoiar processos. Mas será suficiente para compreender todas as particularidades de uma pessoa que enfrenta uma doença grave?

O próprio setor reconhece a necessidade de cautela. Em entrevista ao portal O Futuro da Saúde, representantes do mercado destacaram que a “inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas que sua utilização exige responsabilidade, supervisão e preocupação constante com os impactos que pode gerar na assistência aos pacientes”.

A preocupação não é exclusiva dos especialistas. Recentemente, o presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Wadih Damous, afirmou que a agência pretende ampliar o uso de inteligência artificial em seus próprios processos. Ao mesmo tempo, alertou para a necessidade de fiscalização sobre o uso da tecnologia pelas operadoras, justamente para evitar aplicações que possam prejudicar beneficiários.

O debate também chegou aos órgãos médicos. Recentemente, o Conselho Federal de Medicina publicou normas sobre o uso da inteligência artificial na prática médica, reforçando um princípio fundamental: a tecnologia pode auxiliar, mas não substitui a responsabilidade humana pelas decisões clínicas.

E talvez essa seja a questão central. A inteligência artificial pode ser uma excelente ferramenta de apoio. Pode acelerar análises, reduzir burocracias e contribuir para uma gestão mais eficiente dos sistemas de saúde.

Mas quando falamos sobre diagnósticos, tratamentos e vidas humanas, eficiência não pode ser o único critério. Pacientes não são estatísticas, não são padrões, pacientes não são apenas dados inseridos em um sistema.

Por trás de cada pedido de exame existe uma pessoa preocupada. Por trás de cada solicitação de medicamento existe alguém aguardando uma chance de tratamento. E por trás de cada decisão existe uma história que dificilmente cabe integralmente em um algoritmo.

É importante ter em mente que o diagnóstico e a indicação do tratamento, sempre serão decisões médicas e que nem o plano e tampouco a inteligência artificial terão o poder de se sobrepor a esse profissional. Plano de Saúde não decide a condução do tratamento ao qual o paciente será submetido.

Inevitavelmente a tecnologia continuará avançando e isso é inevitável. No entanto, a pergunta que a sociedade precisa responder é outra: até que ponto estamos dispostos a permitir que sistemas automatizados participem de decisões que afetam diretamente a saúde das pessoas?

Porque, no final das contas, quando o assunto é vida, a inovação é bem-vinda. Mas a humanidade continua sendo insubstituível.

Fontes: Portal O Futuro da Saúde, reportagem “Planos de saúde apontam redução de custos e mais eficiência com o uso de IA” (03/09/2025), e reportagem “ANS vai ampliar uso de inteligência artificial e alerta para uso indevido por operadoras” (15/04/2026).

Aline Ramalho é advogada, especialista em Direito da Saúde e colunista do Portal Acre.

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Aline Ramalho

Advogada, especialista em Direito da Saúde, com foco em medicamentos e tratamentos de alto custo, especialmente em casos oncológicos, coautora de livros. Comprometida em viabilizar acesso digno e efetivo à saúde.

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