
Menos de dois meses depois de realizar um desejo carregado de memórias e significado, morreu José Caetano, conhecido carinhosamente como “Negão da Gameleira”. Acamado desde que sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), ele havia protagonizado, no início de junho, um momento emocionante ao voltar a andar de Fusca pelas ruas de Rio Branco.
José morreu nesta quinta-feira (6). O, com um cortejo emocionante de fuscas, marcou a ida do corpo até o Cemitério Jardim da Saudade onde ocorreu o sepultamento na manhã desta sexta-feira (7), marcando a despedida de familiares e amigos. Antes de falecer, teve a oportunidade de reviver uma das grandes paixões de sua vida e retornar a um lugar que guardava parte importante de sua história.
No último dia 8 de junho, o Portal Acre contou a história de José (leia aqui) e da mobilização realizada para concretizar um desejo especial. Um dia antes, em 7 de junho, familiares, amigos e integrantes do Fusca Clube Acre se reuniram para proporcionar a ele um passeio até a região da Gameleira, no Segundo Distrito da capital acreana, local diretamente ligado à sua trajetória profissional e afetiva.
O Fusca não era apenas um automóvel na história de José Caetano. Ao longo da vida, ele chegou a possuir 15 veículos do modelo. A paixão atravessou décadas e acabou se misturando às próprias lembranças da família. Segundo Raimunda Caetano, esposa de José, o primeiro Fusca do casal foi adquirido quando eles ainda moravam no bairro Aeroporto Velho.
Casados havia 44 anos quando a homenagem foi realizada, José e Raimunda construíram parte da história da família em torno desses veículos. Foi em um Fusca que ele ensinou a esposa e um dos filhos a dirigir. José também tinha o costume de modificar os carros que comprava. Independentemente da cor original, muitos terminavam vermelhos e recebiam detalhes escolhidos por ele.
Um desejo realizado poucas semanas antes da despedida
A oportunidade de reviver essa paixão surgiu após Raimunda procurar o Fusca Clube Acre e contar aos integrantes do grupo sobre a vontade do marido. O pedido ganhou ainda mais significado diante da condição de saúde enfrentada por José.
Ele havia sofrido um AVC isquêmico em 2018. A partir daquele momento, a rotina da família mudou profundamente. Conforme o relato feito pela esposa ao Portal Acre, José permaneceu 22 dias em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e ainda passou aproximadamente três meses hospitalizado. Quando recebeu alta, necessitava de alimentação por sonda e de uma cama hospitalar.
As sequelas fizeram com que José passasse a depender integralmente dos cuidados da família. Raimunda relatou, na ocasião, que o marido não conseguia se sentar ou mudar sozinho de posição na cama. Próximo à realização do passeio, seu estado de saúde havia apresentado uma nova piora e sua capacidade de comunicação também estava bastante reduzida.
Foi nesse contexto que o desejo de voltar a andar de Fusca ganhou um significado ainda maior.
Sensibilizados com a história, integrantes do Fusca Clube Acre organizaram a homenagem. José deixou a casa onde vivia e seguiu em um Fusca vermelho, acompanhado por uma comitiva formada por outros veículos, familiares e amigos.
O destino escolhido não poderia ser mais simbólico: a Gameleira.
O retorno à Gameleira
Conhecido como “Negão da Gameleira”, José trabalhou durante anos como eletricista, principalmente na região do Segundo Distrito de Rio Branco. Durante o passeio, o grupo fez uma parada justamente diante do local onde ele havia trabalhado por aproximadamente 20 anos.
Naquele retorno, passado e presente se encontraram. José reencontrou Luis Alberto Ferreira, um antigo amigo. O reconhecimento emocionou as pessoas que acompanhavam a homenagem e acrescentou mais uma lembrança especial ao passeio.
Depois, o grupo seguiu até o Calçadão da Gameleira. José foi acomodado em uma cadeira e permaneceu cercado pelas pessoas que participaram da homenagem. Ao pôr do sol, familiares, amigos e integrantes do clube registraram fotografias ao lado dele.
Naquele momento, ninguém poderia saber que a despedida aconteceria poucas semanas depois. O que a família sabia era que um desejo que parecia difícil de concretizar diante das limitações impostas pela doença havia se tornado realidade.
Raimunda contou ao Portal Acre naquele dia que, embora o casal conversasse sobre a vontade de José, ela não imaginava que seria possível realizar o passeio. Poder proporcionar aquele momento ao companheiro de mais de quatro décadas se transformou em uma lembrança especial para a família.
Paixão que atravessou décadas
A mobilização também marcou os integrantes do Fusca Clube Acre. Com 12 anos de existência e, à época, 65 integrantes, o grupo mantinha encontros periódicos e desenvolvia diferentes atividades, incluindo ações solidárias.
Nilton Pontes, um dos coordenadores do clube, relatou ao Portal Acre que a história de José o havia emocionado. Para ele, a relação entre proprietários e Fuscas muitas vezes ultrapassa o valor material do veículo, carregando histórias familiares e lembranças construídas ao longo de décadas.
No caso de José Caetano, essas lembranças estavam presentes no primeiro Fusca adquirido pelo casal, nos veículos que ele modificava, nas pessoas que ensinou a dirigir e nos anos em que circulou pela região onde ficou conhecido como “Negão da Gameleira”.
O passeio realizado em 7 de junho acabou acrescentando um capítulo especial a essa trajetória.
Agora, após a morte de José nesta quinta-feira (6) e seu sepultamento na manhã desta sexta-feira (7), as imagens daquele encontro ganham um significado ainda maior para familiares e amigos. O Fusca vermelho, o retorno à Gameleira, o reencontro com um antigo amigo e os registros feitos ao pôr do sol permanecem como lembranças de um desejo realizado poucas semanas antes de sua despedida.
A história de “Negão da Gameleira” fica marcada não apenas pelo período de limitações enfrentado após o AVC, mas também pelas memórias construídas ao longo de décadas ao lado da família e pela paixão pelos Fuscas. Uma paixão que, menos de dois meses antes de sua morte, proporcionou a José a oportunidade de retornar aos lugares e às lembranças que fizeram parte de sua trajetória.








