
Talvez você tenha visto a imagem que circulou nas redes: um restaurante espanhol colocou na porta uma placa dizendo que influencers não eram bem-vindos.
De início parece até uma ação bem humorada ou de marketing, mas por trás dessa imagem há uma discussão séria e um ponto de reflexão.
Alguns restaurantes e pequenos negócios espanhóis começam a se colocar contra criadores que pedem comida ou serviços em troca de divulgação, assim como os que fazem gravações que interferem no funcionamento do estabelecimento ou transformam a experiência em um estúdio.
O El País, um dos jornais mais importantes da Espanha, publicou no início do mês de agosto, que alguns restaurantes espanhóis já começaram a a restringir esse tipo de comportamento.
A reportagem cita que alguns estabelecimentos preferem campanhas comerciais previamente negociadas, identificadas como publicidade, em vez do modelo “eu como de graça e posto uma avaliação”.
E a discussão ganhou força com aquilo que a imprensa espanhola passou a chamar de “caída de los influencers”.
O começo do fim?
Muitos dizem que esse é o começo do fim dos influencers. Mas talvez seja só o início da queda da ingenuidade do público que consome esse tipo de conteúdo e o começo de uma discussão sobre os limites da influência.
Nos Estados Unidos, uma pequena loja de Nantucket colocou uma placa simplesmente dizendo “No Influencers”. A reação foi enorme e abriu uma discussão nacional sobre o direito de comerciantes de protegerem seus espaços da produção incessante de conteúdo.
Na Austrália, o fenômeno já chegou a outro nível: em março de 2026, a autoridade de defesa do consumidor aplicou uma penalidade de quase US$ 40 mil a uma empresa que orientava influencers a esconder que haviam recebido produtos gratuitamente em troca de avaliações.
Espetacularização do glamour no Acre
A discussão parece distante da nossa realidade, mas essa conversa também cabe no Acre.
Estamos encerrando a chamada “temporada de bota e chapéu”, a época de festas country, período em que basta abrir o Instagram os influencers estão por todos os lados, mostrando o looks do dia, uma produção diferente a cada noite, botas, chapéus, acessórios, maquiagem, cabelos, assim como aparecem desfrutando de camarotes, copos de uísque, drinques sofisticados, experiências exclusivas.
Tudo parece maravilhoso. E é mesmo! Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece no story: quem paga essa conta?
Não há nada errado em uma influenciadora receber uma roupa, ser convidada para um camarote ou fazer uma parceria comercial. Isso faz parte do mercado e é um trabalho digno, justo e que realmente dá trabalho, acreditem!
O problema começa quando a publicidade se mistura tanto com a rotina que já não sabemos onde termina a vida real e começa a estratégia de venda.
Porque o influencer não vende apenas uma roupa, uma viagem ou um restaurante. Ele vende, muitas vezes, uma ideia de vida e aí está o ponto que interessa.
Como uma família que precisa escolher em qual noite vai à Expo consegue desfrutar de uma vida “exige” uma produção diferente para cada evento? Como um jovem que ainda depende dos pais interpreta e internaliza uma sequência diária de viagens, roupas caras, restaurantes e experiências como algo normal?
O problema real
Talvez o problema não seja o luxo, mas a régua, já que quando aquilo que é exceção começa a parecer regra, alguém sempre vai se sentir vivendo errado.
Nós, que crescemos assistindo televisão, também fomos influenciados por padrões de beleza, riqueza e sucesso. Vimos casas perfeitas nas novelas, celebridades nos comerciais e famílias que pareciam não ter problemas.
Mas havia uma diferença: sabíamos que era televisão, comercial, ficção.
Hoje, a publicidade pode chegar disfarçada de intimidade. Está no café da manhã, na conversa sobre o marido, na rotina com os filhos, no passeio de domingo, tudo o parece vida real.
E talvez essa seja a grande revolução cultural dos influencers. Eles não influenciam apenas o que compramos, influenciam, muitas vezes, o que desejamos ser.
E isso importa especialmente quando pensamos nas crianças e adolescentes. Que referências de sucesso estamos construindo para uma geração que passa parte da infância acompanhando, diariamente, a vida de pessoas que nem sabem que ela existe?
O que eles vão guardar dessa infância? Talvez essa seja uma pergunta que ainda não sabemos responder.
No fim, essa não uma reflexão contra influencers, mas sobre nós mesmos.
É que o mundo que cabe em um story pode ser lindo, luxuoso e até desejável, mas não precisa caber na nossa vida e talvez esteja na hora de não só lembrarmos disso, mas nos posicionarmos como sociedade para que sejamos informados, onde termina o conteúdo de vida real e onde começa o conteúdo pago, patrocinado e de publicidade.