Rio Branco, 20 de setembro de 2026.

Há verdades que precisam ser escondidas?

Há algum tempo eu passei a me interessar pela morte, pelo processo que vivenciamos até o ato final de nossa existência. E enquanto lia um dos capítulos do livro A morte é um dia que vale a pena viver, de Ana Claudia Quintana Arantes eu comecei a refletir sobre as consequências de falar para o paciente verdades que ele precisa saber sobre a doença que o atinge.

Existe uma fantasia por parte de familiares ou até mesmo por parte de profissionais de saúde, de que se o paciente souber que tem uma doença grave ou que seu quadro agravou ainda mais, ele morrerá mais rápido, quando na verdade o que o matará não será a verdade e sim a doença.

É inegável que existem verdades que doem. Mas será que toda verdade que dói deve ser escondida? Omitir a verdade, mesmo que essa omissão nasça da intenção de proteger, da genuína vontade de poupar alguém de uma dor que parece grande demais, esquecemos que no fim, não conseguiremos poupá-la da morte, porque independente do que façamos ela chegará.

 Quando escondemos a verdade sobre o real quadro do paciente, estamos tirando dele oportunidade de viver, de organizar a vida que lhe resta, realizar sonhos como uma viagem por exemplo e por vezes de se reconciliar com o filho, com os pais ou até com ele mesmo.

Dizer a verdade, não significa que ela deva ser dita de qualquer forma, sem preparo, sem técnica, notícias difíceis exigem cuidado, linguagem adequada, exige escuta. A verdade não destrói a esperança, que nem sempre está ligada a cura, uma pessoa gravemente doente pode ter a esperança de viver o que lhe resta com qualidade e ter preservada sua dignidade.

Não se trata apenas do direito a informação, a autonomia ou a dignidade. Não esconder a verdade diz respeito a segurar a mão de seu ente querido, enquanto uma verdade difícil é dita e fazer sentir-se presente auxiliando nessa travessia.

Às vezes, o maior gesto de cuidado não é impedir alguém de conhecer a verdade, é garantir que, quando ela chegar, essa pessoa não precise enfrenta-la sozinha.

Aline Ramalho é advogada, especialista em Direito da Saúde e colunista do Portal Acre.

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Aline Ramalho

Advogada, especialista em Direito da Saúde, com foco em medicamentos e tratamentos de alto custo, especialmente em casos oncológicos, coautora de livros. Comprometida em viabilizar acesso digno e efetivo à saúde.

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