
Falta apenas um dia para as eleições 2026 e, depois de semanas assistindo a candidatos trocarem acusações, ataques, provocações e, em alguns casos, simplesmente decidirem não comparecer aos debates, uma pergunta não sai da minha cabeça: E se a política que tanto criticamos estiver apenas aprendendo conosco?
É confortável dizer que os políticos perderam o nível. Que as campanhas viraram baixaria. Que ninguém mais discute projeto, saúde, educação, segurança, emprego, infraestrutura ou aquilo que realmente vai interferir na nossa vida depois que as urnas forem fechadas.
Mas talvez exista uma parte dessa conversa que seja menos confortável. O que nós, eleitores, estamos escolhendo assistir?
A verdade é que a política também aprende com a audiência. Ela aprende com aquilo que compartilhamos. Com o vídeo em que paramos o dedo no feed. Com o corte que mandamos para o grupo da família. Com a provocação que comentamos. Com a briga que assistimos três vezes.
E talvez os políticos tenham entendido que a audiência da maioria dos eleitores não está no debate real de ideias.
Mas nem sempre foi assim. É difícil dimensionar hoje o peso que a televisão já teve numa eleição brasileira.
Em 1982, quando o país voltou a realizar eleições diretas para governador depois de duas décadas, os debates televisionados apareceram como parte importante daquele processo de abertura política. Registros do próprio Congresso daquela época falavam da necessidade de garantir aos candidatos acesso aos meios de comunicação para que houvesse um “debate amplo das ideias”.
Em 1989, na primeira eleição direta para presidente depois da ditadura, a televisão ocupou o centro da disputa política.
No segundo turno, Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva participaram de dois debates. O último, realizado poucos dias antes da votação, tornou-se um dos episódios mais conhecidos da história eleitoral brasileira, inclusive pela controvérsia provocada posteriormente pela edição dos melhores momentos exibida no Jornal Nacional.
O debate era mais do que um programa de televisão, era “o acontecimento”
Para um candidato, estar ali significava a única chance de falar simultaneamente para milhões de pessoas. Para o eleitor, era uma das poucas oportunidades de colocar os concorrentes lado a lado, submetidos às mesmas perguntas, ao contraditório e ao desconforto de responder diante do adversário.
Então veio a internet, o smartphone… as redes sociais. E o palco deixou de estar apenas no estúdio de televisão.
Hoje, cada candidato carrega o próprio canal de comunicação no bolso. Pode entrar ao vivo quando quiser. Pode escolher o assunto. Pode gravar dez vezes até gostar da resposta. Pode cortar a própria fala. Pode falar durante uma hora sem adversário, jornalista ou mediador interrompendo.
E, principalmente, pode transformar quinze segundos em conteúdo para milhões de visualizações.
O debate também virou conteúdo
Existe outro problema. As redes não apenas deram aos candidatos novos palcos. Elas mudaram aquilo que costuma ganhar atenção dentro do próprio debate.
Uma explicação detalhada sobre orçamento público dificilmente cabe em um vídeo de quinze segundos. Uma proposta complexa para a saúde exige contexto, assim como um plano para geração de emprego exige números.
Mas uma provocação cabe perfeitamente, um xingamento também! Uma frase de efeito, melhor ainda. Uma briga? Essa pode atravessar o país em minutos.
Talvez o exemplo mais simbólico dos últimos anos tenha acontecido na eleição municipal de São Paulo, em 2024.
Durante um debate da TV Cultura, José Luiz Datena agrediu Pablo Marçal com uma cadeira depois de uma sequência de provocações. A cena interrompeu o programa e imediatamente tomou as redes sociais. Virou meme, montagem, vídeo, comentário e assunto nacional.
Um monitoramento divulgado na época mostrou que as menções a Datena e Marçal em grupos públicos de WhatsApp saltaram de 30 para 600 a cada 100 mil mensagens depois do episódio. Vinte vezes mais.
Agora eu pergunto: Você lembra quais propostas para São Paulo foram apresentadas naquele debate? Talvez alguém até lembre, mas a maioria lembra apenas da “cadeirada”.
E é exatamente aí que mora o problema. Nós dizemos que queremos propostas. Mas premiamos o espetáculo?
Essa talvez seja a pergunta mais incômoda desta coluna. Nós reclamamos que os políticos só brigam, mas compartilhamos a briga. Reclamamos dos ataques, mas comentamos o ataque. Dizemos que queremos conhecer projetos, mas quantos vídeos explicando um plano de governo recebem a mesma atenção de uma provocação?
Não estou dizendo que o eleitor seja responsável pelo comportamento de um candidato. Cada pessoa pública responde pelas próprias escolhas. Mas existe uma relação entre política, comunicação e audiência que nós não podemos fingir que não existe.
Aquilo que recebe atenção ganha valor político
E, quando a atenção se transforma em moeda, o escândalo passa a competir diretamente com a proposta.
Talvez seja por isso que a ausência em debates mereça uma reflexão que vá além de simplesmente chamar determinado candidato de “fujão”. Candidatos sempre fizeram cálculos sobre comparecer ou não a debates. Quem ocupa posição confortável numa disputa pode avaliar se tem mais a perder do que a ganhar se expondo ao confronto.
Isso não nasceu com as redes sociais. Mas há sinais de que o fenômeno ganhou força. Na eleição presidencial de 2026, debates foram esvaziados ou cancelados diante da ausência de candidatos importantes. O primeiro turno terminará sem um debate televisionado colocando frente a frente os dois candidatos que lideram as pesquisas, situação que não ocorria havia duas décadas.
Talvez seja hora de perguntarmos por quê
Se um candidato consegue alcançar milhões de pessoas pelo próprio celular, falando para uma audiência que já simpatiza com ele, por que se submeter voluntariamente a duas ou três horas de perguntas difíceis, adversários, jornalistas, réplicas e tréplicas?
Do ponto de vista estratégico, é possível compreender o cálculo. Do ponto de vista democrático, vale discutir o que perdemos quando esse cálculo prevalece.
Talvez a política esteja nos conhecendo bem demais
Talvez aquilo que mais rejeitamos na política seja, em alguma medida, um espelho desconfortável da sociedade que estamos construindo e talvez mudar a política não dependa apenas de exigir candidatos melhores. Talvez dependa também de nos tornarmos eleitores mais difíceis de distrair. Eleitores que perguntem menos “quem lacrou?” e mais “o que ele pretende fazer?”. Que assistam à resposta inteira antes de compartilhar o corte. Que cobrem presença, números, projeto. Que cobrem explicação.
Porque domingo nós vamos escolher quem ocupará cargos públicos, mas muito antes de apertarmos qualquer número na urna, fazemos pequenas escolhas políticas todos os dias. Inclusive quando decidimos a quem , e a quê damos a nossa atenção.