Rio Branco, 28 de outubro de 2026.

Entre a notícia e a torcida, onde fica o jornalista?

Tenho 19 anos de jornalismo. Durante esse tempo, aprendi que uma das coisas mais difíceis da nossa profissão não é conseguir uma boa notícia, uma entrevista exclusiva ou uma informação que ninguém mais tem. É conquistar a confiança de quem nos lê.

Talvez por isso eu sempre tenha tido tanto cuidado com as minhas posições políticas. Não porque não as tenha. Tenho, como qualquer cidadão. Mas porque nunca quis que minhas convicções pessoais chegassem ao leitor antes das minhas palavras.

Sempre pensei que meus textos precisassem ter credibilidade suficiente para serem lidos por quem está do lado A ou do lado B, sem que o leitor torcesse o nariz antes mesmo de chegar ao primeiro parágrafo.

Não se trata de agradar a todos. O jornalismo, quando cumpre seu papel, muitas vezes desagrada. Trata-se de fazer com que as pessoas confiem na honestidade daquilo que está sendo contado, mesmo quando a notícia contraria suas preferências.

Mas tenho observado, com certo estranhamento, um movimento entre colegas de profissão. Jornalistas que levantam bandeiras políticas, declaram apoio a candidatos, comemoram vitórias e se comportam publicamente como integrantes de uma torcida organizada.

E me pergunto: em que momento deixamos de nos preocupar com a confiança de quem nos lê?

Não estou defendendo que jornalistas sejam pessoas sem opiniões. Seria uma ingenuidade. Todos temos convicções, valores e preferências. Também não acredito que o silêncio público seja, por si só, garantia de imparcialidade. Há quem nunca declare um voto e, ainda assim, permita que suas preferências contaminem cada linha que escreve.

Mas existe uma diferença entre ter uma opinião e fazer dela uma bandeira pública enquanto se exerce uma profissão cuja principal moeda é a credibilidade.

É claro que essa reflexão não se aplica da mesma forma ao jornalista que atua na assessoria política. Quem trabalha na comunicação de um candidato, de um partido ou de um governo exerce uma função diferente, na qual a defesa de posições e projetos políticos faz parte do trabalho. Estamos falando aqui do jornalista de redação, daquele que noticia, apura, entrevista e leva informações ao público sob o compromisso da independência editorial. É dele que o leitor espera encontrar notícias, e não torcida disfarçada de informação.

Muitos jornalistas não são donos dos veículos em que trabalham, não definem a linha editorial, não escolhem todas as notícias que serão publicadas e sequer têm a palavra final sobre os próprios textos. São profissionais que integram uma estrutura maior, construída também pelo trabalho e pela reputação de outras pessoas.

Ainda assim, quando assumem publicamente a defesa de um candidato, colocam uma dúvida sobre a mesa: até que ponto suas preferências interferem na maneira como enxergam e contam os fatos?

E, por mais que não seja essa a intenção, acabam transmitindo uma mensagem preocupante: pouco importa se parte do público deixará de confiar no que escrevem. Pouco importa se essa desconfiança alcançará o veículo ao qual estão vinculados. Pouco importa o que essa exposição poderá representar para a própria trajetória profissional.

É claro que ninguém perde automaticamente a capacidade de apurar uma notícia porque declarou um voto. Mas confiança não depende apenas daquilo que somos capazes de fazer. Depende também daquilo que o outro consegue reconhecer em nossa postura.

E o jornalismo vive dessa relação delicada.

Quando um leitor começa a desconfiar de uma reportagem não pelo conteúdo apresentado, mas por saber quem a escreveu, alguma coisa importante já se perdeu.

Talvez o mais preocupante seja perceber como essa exposição tem sido naturalizada. Como se o jornalista pudesse vestir a camisa de um candidato hoje e, amanhã, simplesmente retirá-la para voltar a ocupar, diante do público, o lugar de quem observa os fatos com independência.

Mas a memória do leitor não funciona assim.

As redes sociais ampliaram nossa voz, mas também tornaram mais visíveis nossas escolhas. E nem toda escolha que temos o direito de fazer é uma escolha sem consequências para a profissão que exercemos quando são expostas.

Depois de quase duas décadas no jornalismo, continuo acreditando que a credibilidade exige uma espécie de cuidado diário. É construída lentamente, reportagem após reportagem, e pode ser comprometida por atitudes que, à primeira vista, parecem não ter relação alguma com o trabalho.

Não quero que alguém confie em mim porque votamos no mesmo candidato. Quero que confie porque, independentemente de quem esteja no poder, encontrará em meu trabalho o mesmo compromisso com os fatos.

Sei que nem sempre conseguiremos convencer todos dessa independência. Mas considero nossa obrigação não oferecer motivos desnecessários para que duvidem dela.

Porque candidatos passam. Governos terminam. As disputas eleitorais chegam ao fim, os palanques são desmontados e as bandeiras são guardadas.

O jornalista, no entanto, precisa continuar escrevendo no dia seguinte.

E é nesse dia seguinte que a credibilidade faz falta.

Afinal, quando a torcida termina, quem ainda acredita no que temos a dizer?

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Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

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