
Por muito tempo, pareceu difícil imaginar a política acreana sem Gladson Cameli no centro dela.
E talvez seja impossível contar a história política recente do Acre sem reconhecer uma coisa: Gladson é um político profissional e eleitoralmente muito bem-sucedido.
Antes que alguém confunda reconhecimento com absolvição, é justamente aí que começa esta reflexão.
Gladson soube fazer política.
Começou como deputado federal, foi reeleito, chegou ao Senado e depois ao governo do Acre. Em 2018, venceu a disputa pelo Palácio Rio Branco ainda no primeiro turno, com 53,71% dos votos válidos. Quatro anos depois, repetiu o feito: foi reeleito governador novamente no primeiro turno, desta vez com mais de 56% dos votos válidos.
Mas os números explicam apenas uma parte do fenômeno. A verdade é que Gladson caiu no gosto da galera! Ele fala como o povo fala.
A imagem de Cameli sorrindo, brincando, abraçando, escapando do protocolo, cometendo gafes e principalmente dançando está na mente da maioria dos acreanos e talvez justamente por isso tenha conseguido construir uma identificação que poucos políticos do Acre alcançaram nas últimas décadas.
Onde Gladson chegava, era recebido como celebridade!
Durante algum tempo, Gladson parecia maior que o próprio grupo político ao seu redor. Não precisava que alguém lhe emprestasse popularidade. Era ele quem emprestava.
As eleições municipais de 2024 talvez tenham sido a demonstração mais clara dessa força. O Progressistas, partido comandado por ele no estado, conquistou 14 das 22 prefeituras acreanas. Mais de 60% dos municípios passaram a ser administrados por prefeitos da legenda. A força política de Gladson foi vista no desempenho positivo dos candidatos aos quais ele declarou apoio.
Gladson transformou-se em uma espécie de selo eleitoral, ter ele no palanque valia muito!
E talvez seja exatamente por isso que sua queda seja tão simbólica. Porque a história está cheia de homens que chegaram tão alto que passaram a acreditar que permaneceriam lá para sempre.
O poder tem uma característica perigosa: quando permanece tempo demais nas mesmas mãos e cercado pelos mesmos aplausos, pode produzir a ilusão de invulnerabilidade.
Gladson parecia politicamente invulnerável, até deixar de ser.
Em 6 de maio de 2026, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça condenou o ex-governador a 25 anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A decisão também determinou multa e indenização de R$ 11,7 milhões ao Estado. A condenação ainda admite recursos.
Segundo o STJ, Gladson liderava uma organização formada por núcleos político, familiar e empresarial destinada ao desvio de recursos públicos. A acusação apontou irregularidades envolvendo contratos de obras públicas e prejuízo milionário ao erário. As investigações afirmaram que movimentações financeiras indicavam que dinheiro desviado havia enriquecido Gladson e seu núcleo familiar.
E aqui talvez esteja a parte mais triste dessa história: Gladson não precisava disso para ser grande, porque politicamente, ele já era.
Tinha votos, tinha carisma, tinha partido, tinha prefeitos, aliados, mandato. Tinha uma relação com o eleitor que muitos políticos passam uma vida tentando construir e nunca conseguem.
E então chegamos a 2026.
Um dia antes da condenação, uma pesquisa do Instituto Veritá mostrava Gladson liderando a disputa pelo Senado com 38,2% das intenções de voto. Jorge Viana aparecia com 19,8% e Márcio Bittar, com 15,9%. Gladson tinha praticamente o dobro do segundo colocado.
Parecia caminhar para mais uma vitória, mas cinco meses depois, as urnas contaram outra história.
Márcio Bittar foi eleito, Mara Rocha foi eleita e Gladson Cameli terminou em terceiro lugar, com 145.244 votos, 16,59% dos votos computados para os candidatos ao Senado. Sua candidatura permaneceu sub judice, mas nem sequer alcançou votação suficiente para ocupar uma das duas vagas.
Talvez o mais impressionante não tenha sido simplesmente perder, mas perceber como a política continuou sem ele.
O homem que durante anos concentrou holofotes terminou a eleição como mais um nome entre derrotados.
O Acre amanheceu nesta segunda-feira, 5, testemunhando o que talvez seja o fim da era Gladson Cameli.
Não necessariamente porque sua vida pública tenha terminado já que política raramente permite previsões tão definitivas, mas porque terminou a ideia de que Gladson era maior do que as circunstâncias.
Há poucos anos, uma fotografia com Gladson poderia ajudar a eleger alguém. Em 2026, nem toda a força acumulada ao longo de duas décadas foi suficiente para garantir a própria eleição.
É difícil encontrar imagem mais simbólica para a impermanência do poder.
Gladson Cameli construiu uma trajetória que não pode ser apagada. Foi deputado federal, senador, governador duas vezes e um dos políticos mais populares da história recente do Acre.
Mas também carregará em sua biografia uma condenação de 25 anos e nove meses imposta pelo Superior Tribunal de Justiça por crimes cometidos justamente enquanto ocupava o espaço que o eleitor lhe confiou.
No fim, talvez a história de Gladson Cameli deixe uma lembrança que serve não apenas para políticos, mas para qualquer pessoa que um dia ocupe um lugar de poder: o poder pode até embebedar o homem, mas a urna, de tempos em tempos, o obriga a encarar a ressaca.