Rio Branco, 24 de agosto de 2026.

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ARTIGO – Libertadores: Enquanto o sofá range, a taça volta pra Gávea

Apesar de tricolor e “secador”, jornalista reconhece que gestão faz diferença em favor do Flamengo

Raimari Cardoso

Para desgosto de metade dos que se dizem torcedores no Brasil, o Flamengo — que reúne a outra metade, ou quase isso — é tetracampeão da Libertadores. O ofício de “secar” foi inútil. Em Lima, o rubro-negro não foi apenas jogar uma final, mas ser protagonista. O adversário acabou mais como espectador privilegiado do que como ameaça real. O erro crasso da arbitragem no lance em que Pulgar deveria ter sido expulso — o já folclórico “olha o Varmengo aí” — até entrou no debate, mas foi minimizado pela superioridade flagrante do Flamengo durante quase todo o jogo. O Palmeiras só ensaiou uma reação após o gol de Danilo, aos 22 do segundo tempo, quando o roteiro já estava praticamente escrito.

Mas o que de fato quero dizer nessas mal traçadas linhas, como tricolor carioca apaixonado que sou, é que antes de ser “secado”, o Flamengo precisa ser observado, seguido, estudado e, por que não, imitado. Deixando de lado o clubismo, que apesar de chato é essencial para a rivalidade sadia e para a graça do futebol, é preciso exercer a racionalidade. O Flamengo de hoje não é apenas um time vencedor, mas a maior potência do futebol sul-americano. Isso é incontestável, mesmo que eu não ame admitir.

E não há mistério algum nisso. O Flamengo não reinventou a roda. Apenas fez o que quase ninguém no Brasil consegue sustentar por muito tempo. O Mulambo transformou gestão séria em política permanente. Até 2013, o clube da Gávea era apenas mais um na fauna futebolística brasileira — entre um título eventual e constantes lutas contra o rebaixamento. A virada de chave administrativa mudou tudo. O clube de remadores passou a ditar o ritmo do futebol nacional.

Virão, como sempre vêm [incluo-me nisso], os que dirão que o Flamengo é favorecido pela CBF, pela Globo, pela ONU ou por forças ocultas, como diria Jânio Quadros. Pode até ser. Mas nada disso se sustentaria sem o profissionalismo com que passou a administrar seus ativos esportivos e financeiros no curso dos últimos 12 anos. Sem isso, não haveria tetracampeonato algum e o mais fanático dos flamenguistas concordará comigo.

A prova está no contraste cruel do futebol brasileiro atual: a duas rodadas do fim do campeonato, dois campeões do mundo, Santos e Internacional, lutam desesperadamente contra o rebaixamento, vítimas diretas de gestões desastrosas. Enquanto isso, na próxima quarta-feira, [o Flamengo] enfrentará o Ceará no Maracanã para coroar um ano em que por muito pouco não ganhará tudo o que disputou.

Resumo da ópera: não adianta apenas pegar o secador e fazer o sofá ranger. O Flamengo de ontem não jogou uma final — treinou. E enquanto muitos seguem apenas torcendo contra, o rubro-negro segue fazendo o básico bem feito: planejar, investir, organizar e vencer. É simples. Mas, no Brasil, segue sendo raro.

Raimari Cardoso é jornalista de Xapuri e tricolor carioca apaixonado. 

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