Rio Branco, 25 de maio de 2026.

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Caminhada ao túmulo renova memória de Chico Mendes, mas público reduzido reacende debate sobre reconhecimento local

Público pequeno durante caminhada suscita o debate sobre Chico Mendes – Foto: cedida

A tradicional caminhada solene ao túmulo de Chico Mendes, realizada na manhã desta terça-feira, 16, no Cemitério São José, marcou o segundo dia da Semana Chico Mendes, em Xapuri. O ato, de forte carga simbólica, reuniu militantes históricos, representantes de movimentos sociais e pessoas diretamente ligadas à trajetória do líder seringueiro. Mais uma vez, porém, a presença popular foi reduzida — um cenário recorrente que reacende um antigo e delicado questionamento.

A cerimônia ocorreu um dia após a abertura oficial da Semana, marcada pela entrega do Prêmio Chico Mendes de Resistência. Apesar da organização cuidadosa e do tom compatível com a importância histórica do evento, o público foi pequeno. A ausência de autoridades municipais, de antigos companheiros de luta e de representantes de comunidades diretamente beneficiadas pelo ativismo de Chico Mendes voltou a chamar atenção e reforçou uma pergunta que atravessa décadas: por que Xapuri não se reconhece plenamente em um de seus maiores símbolos históricos?

O contraste é evidente. Nacional e internacionalmente, Chico Mendes é referência incontornável na defesa da floresta, dos povos tradicionais e da justiça socioambiental, com reconhecimento que ultrapassa fronteiras e gerações. Em sua cidade natal, onde viveu, lutou e foi assassinado em 1988, a memória permanece viva nos ritos e nos discursos, mas a adesão popular segue limitada.

Raimundão, uma das figuras que mais representam a luta em defesa dos povos da floresta – Foto: cedida

A leitura de quem carrega o legado

Filha primogênita do líder ambiental e presidente do Comitê que leva o seu nome desde hora depois do assassinato, que completará 37 anos na próxima segunda-feira, 22, Angela Mendes avalia que a baixa participação popular é resultado de um conjunto de fatores históricos, políticos e culturais que se acumularam ao longo do tempo.

“A gente fica muito triste, porque são vários fatores envolvidos. Desde sempre foram espalhados muitos boatos falsos sobre o meu pai, e a gente sabe de onde isso vem. Interessa que o nome dele seja desrespeitado, que a sua luta e a sua trajetória nunca sejam reconhecidas. Essa não participação vem de uma mentalidade atrasada, arcaica, que não reconhece que o que ele falava nas décadas de 1970 e 1980 hoje é plenamente reconhecido pela ciência. Não dá para achar que desmatar a floresta para colocar boi é desenvolvimento. Desenvolvimento para quem?”, questiona.

Angela destaca ainda o paradoxo entre o reconhecimento externo e a resistência local em valorizar esse legado:

“Enquanto nacional e internacionalmente ele é extremamente reconhecido, tanto que ganhou um prêmio da ONU pela defesa da vida, aqui ainda existe um afastamento dessa história. A luta do meu pai foi pelo bem comum. Foi uma luta por justiça social, justiça territorial e justiça climática. É uma luta pela vida, e a gente gostaria muito que a população de Xapuri reconhecesse isso e se reconhecesse nessa história.”

O olhar de quem viveu a luta

Raimundo Monteiro foi amigo pessoal e companheiro de luta de Chico Mendes – Foto: Raimari Cardoso

Amigo pessoal e companheiro de caminhada de Chico Mendes desde a juventude, o extrativista Raimundo Monteiro, de 86 anos, acompanha esse processo com a autoridade de quem esteve presente desde os primeiros embates. Quando conheceu Chico, Monteiro tinha 22 anos e ele apenas 16. Décadas depois, observa o que considera um afastamento progressivo da causa.

“O que nós estamos vendo hoje é que, depois que mataram o Chico, a maioria do pessoal abandonou a luta e esqueceu dele. Esqueceram, e agora nós estamos no prejuízo. Eu estive em São Paulo duas vezes, e quando dizia que era do Acre, as pessoas queriam saber tudo sobre o Chico. Aqui, a maioria só repete o nome, mas não valoriza de verdade”, relata.

Monteiro também associa a ausência de mobilização a mudanças profundas no território e no modo de vida:

“Naquele tempo, nós tínhamos cerca de 95% de floresta. Hoje não temos mais nem 60%. As famílias cresceram, a pressão aumentou, e eu me pergunto: daqui a cinco, dez anos, onde é que nós vamos colocar essa família toda? Foi pela luta do Chico que a gente pôde permanecer aqui. Foi por essa luta que ele perdeu a vida.”

Uma memória que segue em disputa

A caminhada solene terminou sob o tom costumeiro, de reverência e comedimento nas manifestações, como pede o respeito ao lugar e à história. O debate, porém, permanece aberto. Entre a consagração internacional de Chico Mendes e a participação restrita nos atos realizados em Xapuri, evidencia-se uma tensão que atravessa o tempo e expõe diferentes leituras sobre desenvolvimento, território e memória.

As vozes que ecoaram nesta manhã trazem elementos para reflexão, sem respostas prontas. O legado de Chico Mendes segue vivo nas instituições, nos movimentos sociais e nos debates globais. A questão que permanece, após mais uma cerimônia com público reduzido, é até que ponto esse legado será plenamente incorporado também pela cidade onde ele transformou a própria vida — e a perdeu — em nome de uma causa coletiva.

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