
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) lançou, nesta sexta-feira (16), um documentário intitulado “Vozes que ecoam da floresta” que dá protagonismo às experiências de cooperação entre povos indígenas e comunidades tradicionais na Amazônia brasileira. A produção percorre histórias vividas na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, e resgata o legado do ambientalista assassinado em 1988, símbolo da defesa da floresta e dos direitos dos povos da Amazônia.
Construído a partir dos próprios relatos de quem vive na floresta, o documentário apresenta o dia a dia, as dificuldades e as expectativas de indígenas, extrativistas, agricultores e comunidades tradicionais que dedicam suas vidas à preservação da Amazônia para as próximas gerações. As vozes locais conduzem a narrativa, destacando a relação direta entre proteção ambiental, justiça social e desenvolvimento sustentável.
No Acre, segundo a produção, a governança ambiental tem como base o diálogo permanente com as populações que dependem da floresta. Um exemplo citado é a atualização da repartição de benefícios do programa ISA Carbono, integrante do Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA), definida por meio de um processo participativo.
As consultas públicas ocorreram em cidades como Brasiléia, Cruzeiro do Sul, Feijó, Jordão, Sena Madureira e Rio Branco, reunindo agricultores, povos indígenas e extrativistas. Para as comunidades envolvidas, participar das decisões é fundamental para garantir que os projetos atendam às necessidades reais de cada território.
Na Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada em Xapuri, criada em 1990 e gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a ligação entre conservação ambiental e justiça social segue como princípio central. A unidade de conservação protege mais de 970 mil hectares no Acre.
Liderança extrativista, Raimundo Mendes chama atenção para os efeitos das mudanças climáticas, como a diminuição das chuvas e o aumento das temperaturas. Para ele, a devastação provocada pelo ser humano coloca em risco todas as formas de vida.
Já na Reserva Extrativista Rio do Liberdade, em Cruzeiro do Sul, Renilda Santana divide a rotina no campo com a atuação comunitária. Integrante do Conselho Deliberativo da reserva, ela também faz parte da Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade, criada por mulheres da própria comunidade.
Renilda destaca a importância de deixar claro o que as comunidades desejam e necessitam em seus territórios para que seja possível trabalhar com a biodiversidade de forma sustentável. A proposta, segundo ela, é demonstrar que é viável gerar renda familiar mantendo a floresta em pé. Em sua síntese, defende que “o mercado é a floresta”, apostando em um modelo de desenvolvimento baseado no uso responsável dos recursos naturais.
Na aldeia indígena Nova Morada, em Feijó, a Escola Tekahayne Shanenawa assume papel estratégico na preservação cultural e ambiental. Professora do primeiro ano, Andréia Shanenawa reforça o valor da terra, da água e da floresta para o povo indígena.
Ela afirma que ser guardião da floresta implica assumir a responsabilidade pela sua proteção e transmitir esse compromisso às novas gerações, especialmente diante das intensas transformações ambientais em curso.
Diretora da escola, Edileuda Shanenawa ressalta a relevância das consultas públicas e diferencia o ato de ouvir as comunidades da imposição de decisões externas. Para ela, o diálogo verdadeiro garante compreensão e participação efetiva nos processos de decisão.
Entre as comunidades acreanas, a participação ativa é vista como elemento indispensável para a formulação de políticas públicas eficientes. Nos espaços de diálogo, fortalece-se a noção de que a população tem o direito de decidir os rumos do seu território e o futuro das próximas gerações.
De acordo com Jaksilande Araújo, presidente do Instituto de Mudanças Climáticas do Acre, o governo estadual concluiu consultas nas cinco regionais do estado, assegurando voz a agricultores, povos indígenas e extrativistas.
Durante o fórum participativo, foram estabelecidos novos percentuais para a distribuição dos recursos do programa ISA Carbono dentro do SISA. Do total, 26% serão destinados aos extrativistas, 24% aos pequenos e médios agricultores, 22% aos povos indígenas e 28% ao governo. O acordo é apresentado como um pacto histórico entre comunidades e poder público, reforçando o Acre como referência internacional em políticas de REDD+ Jurisdicional, voltadas à redução das emissões por desmatamento e degradação florestal.
Assista ao documentário abaixo.








