Rio Branco, 5 de maio de 2026.

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O saldo de São Sebastião – Por Raimari Cardoso

Extração do látex ajudou a forjar a história do Acre – Foto reprodução

Chamava-se Zé Raimundo. Lá da Cova da Onça, colocação distante da margem e por muitos mal-afamada. Não por ser ruim de seringa, castanha ou de caça, isso muito pelo contrário, mas pelo que o próprio nome ameaçadoramente já denunciava: era uma região de grande ocorrência do maior felino das Américas — a temida onça-pintada. Era lugar para seringueiro velho bom de mato, atirador exímio, com sangue no olho, daqueles que conhecem o tempo pela cor do céu e o rumo certo pelos sons que a floresta faz. E ele era mesmo desses, intrépido e extremamente vivido naquelas brenhas, apesar de não ter idade tão avançada.

Nascido e criado nas matas de Xapuri, forjado desde menino no cabo da cabrita nas estradas de seringa do seringal Porto Franco, filho de pai maranhense desgarrado e mãe cabocla de sangue puxado pra índio, Zé tinha o corpo miúdo, mas de estrutura muscular firme e dura que nem cumaru-ferro. O rosto era fino, o bigode ralo e o olho sempre meio desconfiado, de quem aprendeu desde cedo que na mata a gente só confia em Deus e muitas vezes desconfia até de si mesmo. Era excelente caçador. Não perdia veado nem porquinho na espera e não costumava repetir tiro.

Naquele oco de mundo, ele era dos melhores no corte da seringa e na produção da borracha. Não deixava estrada sem ser percorrida, não maltratava madeira, e de seu corte sempre jorrava um leite grosso, abundante e viscoso, que ele não deixava jamais misturar com água de chuva. No defumador, com os olhos vermelhos, tirava peles bem formadas, no peso certo e livres de sujeiras — terra, pedras e até toras de açaizeiro — que seringueiro ruim e desonesto botava dentro para render no peso do produto.

Quando chegava tempo de apuração, do acerto de contas anual com o seringalista, o entorno do barracão ficava sempre cheio de gente e do falatório da seringueirada que se reunia em rodas de conversas. E o tom de despeito de alguns com a fama de Zé Raimundo era sempre perceptível em meio ao entra e sai e aos cálculos intermináveis feitos pelo guarda-livros.

— Lá vem o Zé da Cova da Onça. Esse sempre tira saldo, sabe-se lá como — diziam alguns, maldosamente, antes que ele botasse o pé no primeiro dos três degraus da escada de madeira que dava acesso ao armazém da sede do seringal.

E ele tirava saldo mesmo. Um dos poucos a “riscar o caderno”. Sem saber que o saldo era miúdo diante do tanto que o patrão levava, é verdade, mas isso ele não sabia medir. Pra ele, saldo era qualquer dinheiro vivo no bolso, era poder ir à cidade. E aquele ano prometia. A produção tinha sido boa e a Festa de São Sebastião tava batendo à porta. O coração de Zé Raimundo já andava adiantado, caminhando na frente do corpo, já quase descendo varadouro rumo à rua grande de Xapuri.

Depois do acerto com o patrão e da aviação do mês, separou o que dava pra gastar. Primeiro pensamento foi em Rosinha, a mulher nova, risonha, de fala mansa, que ainda tinha cheiro de mato molhado no cabelo. Um vestido novo, bonito, de tecido que rodasse na perna quando ela andasse. Pros meninos — uma fileira só, tudo um atrás do outro, a mais velha com oito, o mais novo com quatro — roupa também e sapato. Sapato de verdade, não aqueles de borracha que só enganam o pé.

Na véspera da viagem ele quase não dormiu. Arrumou a estopa cedo, dobrou a roupa limpa com cuidado, amarrou o dinheiro num pano e guardou dentro da velha bermuda, bem arrochado na cintura. Antes de sair, enrolou um porronca de Arapiraca Tigre e acendeu uma vela curta pra São Sebastião, pregada numa fresta da parede de paxiúba.

— Num me deixe passar vergonha na cidade, meu santo — pediu baixinho, como quem conversa com uma pessoa íntima. Sua devoção ao padroeiro de Xapuri era intensa e motivadora da resiliência com que suportava o suplício do trabalho no seringal.

A viagem para a rua foi longa. Caminhada de três horas pelo varadouro castigado pelas chuvas de janeiro e pelo pisotear dos comboios de burros que levavam a mercadoria e traziam a borracha e a castanha. Uma carona de tropa com alguns animais descarregados minimizou o sofrimento da mulher e dos meninos. Depois da margem do Rio Acre, canoada a varejão e a remo até Xapuri — mais de duas horas de subida. Quando chegou à cidade, o mundo parecia outro. Barulho, gente, cheiro de coisa frita no óleo, marreteiro gritando preço, sanfona chorando longe.

Zé Raimundo andava devagar, olhando tudo, com o olho grande de quem vê novidade uma vez por ano. Comprou o vestido de Rosinha, azul-claro, bonito que só vendo. O olhar dela, de uma felicidade penetrante, sacudiu o seringueiro que não costumava estremecer nem para onça pintada, nem para surucucu-pico-de-jaca. Os sapatos dos meninos, alinhados no balcão, parecia até coisa de outro mundo. Também comprou muda de roupa nova para todos, menos para ele. Seu rosto se encheu de uma alegria tímida e rara.

— Obrigado, meu santo!

À noite na missa, entrou na igreja de chapéu na mão, o peito cheio. Olhou o santo no altar, todo flechado, firme, e sentiu um aperto bom no coração. Ajoelhou, agradeceu pela borracha, pela saúde, pelos filhos vivos, pela mulher direita. Na procissão, caminhou junto, descalço, fita vermelha na cabeça, vela acesa. A promessa feita todos os anos ele nunca revelava, e nem a graça recebida. Como sempre, prometeu voltar no ano seguinte, se Deus quisesse e São Sebastião novamente ajudasse.

Depois da procissão teve bênção, flor de laranjeira tirada a duras penas da ornamentação do santo. Teve quermesse, jogou bingo. Mais tarde teve festa, música e riso. Cachaça tomada com cuidado, só pra esquentar a alma. No Forró do Juvenal, dançou pouco, ficou mais olhando tudo, cabeça de Rosinha no ombro, sentindo o cheiro bom daquele “extrato” dela que ele não sabia ler o nome, mas que lhe suscitava um universo de sensações. E ali ficou por um tempo que lhe pareceu eterno, guardando tudo na lembrança, como quem enche um saco pra levar de volta pro mato.

Quando a festa acabou e a cidade começou a se despedir, ele já sentia o chamado da floresta. Sabia que dali a pouco estaria outra vez sozinho, com a mulher e os filhos, na mesma labuta de sol a sol, no corte da seringa, na coleta da castanha, escutando só o barulho do mato, dos bichos e o próprio pensamento. Mas voltava diferente. Com a esperança remendada, com a fé renovada e com o sonho quieto, mas firme, de um dia largar o seringal, morar na cidade, ver os filhos crescerem longe da estrada de seringa.

Enquanto isso não vinha, Zé Raimundo do Porto Franco, da Cova da Onça, das matas profundas de Xapuri, seguia firme e resignado com sua própria sorte. Porque para ele, seringueiro bom era mesmo assim: apanhava da vida, mas não largava a fé. E todo ano, quando São Sebastião chamava, ele novamente tomava a mulher e os filhos pela mão, pegava o varadouro escorregadio e descia para mais um encontro com a sua devoção. Mesmo sem saber que era ali que ele tirava o maior de todos os saldos.

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