Carlos Calf é um daqueles artistas cuja trajetória confirma um ditado comum entre os moradores do Acre: o xapuriense sai de Xapuri, mas Xapuri não sai dele. Nascido no município acreano, ele deixou a cidade em 1960, aos 14 anos, para estudar, seguindo primeiro para Belém (PA) e, posteriormente, para o Rio de Janeiro. Hoje, vive em Niterói, mas mantém uma relação contínua e afetiva com a terra natal, à qual retorna com frequência — especialmente no mês de janeiro, quando a cidade celebra São Sebastião, seu padroeiro, no principal evento religioso e cultural local.

A música entrou de forma definitiva na vida de Calf em 1969, quando compôs O Último Abraço, canção que ganhou projeção ao ser gravada pela cantora Silvinha, um dos nomes ligados ao movimento da Jovem Guarda e que foi mulher do cantor Eduardo Araújo. O início da década de 1970 marcou um período decisivo em sua carreira. Em 1971, o compositor acreano procurou a gravadora CBS, então um dos grandes polos da indústria fonográfica brasileira, onde Roberto Carlos construiu parte fundamental de sua história e onde Raul Seixas atuava como produtor antes de se lançar como cantor.
Foi nesse contexto que Calf apresentou a composição Lady Baby. Raul Seixas demonstrou interesse imediato pela música, mas observou que a letra precisava ser desenvolvida além da introdução e do refrão. Diante da dificuldade do compositor em avançar, Raul sugeriu que ele cantasse a melodia para que pudesse criar um novo verso. A parceria se concretizou naquele momento. Ao recordar o episódio, Calf destaca a postura acolhedora de Raul.
“Ele me recebeu na sala dele, um cara generoso, educado, ouviu com todo carinho a música e se prontificou a fazer a letra naquele mesmo momento. Eu não conhecia o Raul ainda, nada. Ele era um produtor e compositor praticamente desconhecido, ligado a Jerry Adriani, com um trabalho muito mais popular do que aquele Raul roqueiro que surgiria no futuro”.
Pouco tempo depois, os caminhos dos dois se separaram, e Raul Seixas seguiria para se tornar um dos nomes mais emblemáticos da música brasileira.

Entre 1972 e 1973, Carlos Calf voltou a ter uma composição gravada por artistas de projeção nacional. Em parceria com Olímpio Artur, escreveu Um Olhar Perdido, registrada pela dupla Leno e Lilian, também ligada à Jovem Guarda. Outro encontro significativo em sua trajetória foi a parceria com a novelista acreana Glória Perez na canção Amai-vos, gravada por Lucinnha Bastos, cantora de Belém. Sobre essa colaboração, Calf conta que a música nasceu a partir da musicalização de um poema escrito por Glória ainda na adolescência.
“Eu participo de um grupo do Acre no Facebook, onde a Glória também está. Lá resgataram um poema que ela escreveu aos 14 ou 15 anos. Quando li, fiquei impressionado com a qualidade e com o quanto o texto era atual, como se tivesse sido escrito hoje. Aquilo me inquietou e pensei: preciso musicar esse poema”, relata.
Segundo ele, após concluir a melodia, enviou o trabalho para a autora. “Mandei para ela, conversamos por WhatsApp e por telefone, falamos da música, da família. Foi aí que nasceu a canção. Calf acrescenta que Glória chegou a perguntar por que ele não havia alterado nenhum trecho do poema para fazer a música. “Eu disse: Glória, isso é história. Eu não posso mudar uma vírgula”.
O vínculo com Xapuri sempre esteve presente em sua obra. A canção Xapuri é Meu Lugar, composta em parceria com Denise Barreto, é uma declaração direta de pertencimento e memória afetiva. Ainda nos anos 1970, no entanto, Calf optou por se afastar temporariamente da música para se dedicar ao serviço público, tendo ingressado no Banco do Estado do Rio de Janeiro, carreira que seguiu até a aposentadoria.
Já aposentado, retomou a produção musical. Entre seus trabalhos mais recentes, ainda em fase de finalização, estão as músicas Amor de Enlouquecer, em parceria com Paulo Belem e produção de Rodrigo Camarão, e Eu Quero Saber, que sinalizam um retorno gradual ao universo da composição.
Em 2026, Carlos Calf está novamente em Xapuri para participar de mais uma Festa de São Sebastião. Em conversa durante a visita, reafirmou o amor pela cidade e se emocionou ao explicar por que, mesmo após mais de 65 anos longe, permanece tão ligado ao lugar onde nasceu. “A distância geográfica nunca foi suficiente para romper os laços construídos pela memória, pela música e pela identidade xapuriense que segue presente em minha vida e em minha obra”, finaliza.








