Rio Branco, 1 de maio de 2026.

A vida pede pausas – Por Daigleíne Cavalcante

Fiquei um tempo sem escrever para esse espaço, tirei férias dessa “tarefa” para conseguir realizar várias outras, assim como diminui as aparições nas redes sociais. Mas todos os dias sentia uma “pressão” na minha mente, uma autocobrança como se essa pausa fosse imoral, ilegal… e é claro, eu precisei refletir sobre essa cultura da vida ativa.

Produzir, não parar, manter o padrão de entrega, postar, responder, aparecer. Quando você começa algo, parar é quase um atestado de incompetência ou de fraqueza. É como se nós, digo, a sociedade, enxergássemos as pausas como retrocesso, insucesso ou apenas preguiça.

E pra quem usa as redes sociais como ferramenta de trabalho, como é o meu caso, a pressão é diferente, além de constante, é invasiva. Parar significa perder relevância, engajamento, espaço. Sem contar que não faltam pessoas perguntando: O que aconteceu? Está bem? Adoeceu? Casou? Separou? E o algoritmo? Ah, esse não descansa, e a gente aprende a não descansar junto.

Mas o problema é que o cérebro não opera sob a lógica da pressão e expectativas  sociais ou das redes sociais. Pesquisas conduzidas pela Universidade de Harvard e publicadas na Proceedings of the National Academy of Sciences mostram que, durante períodos de pausa e divagação mental, o cérebro ativa a chamada Default Mode Network (DMN), uma rede neural ligada à autorreflexão, criatividade, consolidação de memórias e tomada de decisões complexas. Traduzindo: quando a gente parece improdutivo, o cérebro está organizando aquilo que o excesso de estímulo impede de acontecer.

Estar sempre ativo é um risco

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente, em 2019, o burnout como um fenômeno ocupacional, associado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente administrado. Não se trata apenas de excesso de tarefas, mas da incapacidade de se desconectar, de pausar, de existir fora da lógica do desempenho contínuo.

Recorte geracional

A geração millennial foi treinada para confundir valor pessoal com produtividade. Aprendemos que trabalhar muito era virtude, que descansar era privilégio e que usufruir do próprio esforço poderia esperar. Crescemos sob o discurso do “aguenta firme”, do “depois você descansa”, do “quem quer, corre atrás”. Não aprendemos a parar. Muito menos a desfrutar.

A geração seguinte parece reagir a esse modelo. Prioriza tempo, saúde mental e flexibilidade, porém, em alguns casos, cai no extremo oposto, tratando o trabalho quase como algo descartável. Não é uma falha isolada. É uma resposta a um sistema que romantizou o cansaço e normalizou o adoecimento.

No meio desse choque de visões, estamos nós, tentando produzir sem adoecer, tentando descansar sem culpa, tentando entender que pausa não é abandono de projeto, é manutenção e algumas vezes realinhamento de rota.

Estudos do Stanford Center for Compassion and Altruism Research indicam que longos períodos sem descanso reduzem drasticamente a capacidade cognitiva, a criatividade e a qualidade das decisões, logo, trabalhar sem parar não nos torna melhores, nos torna mais cansados, mais reativos e menos conscientes.

Portanto me obrigo a aceitar, feliz, que viver períodos de silêncio não é ser improdutivo, que é preciso normalizar a pausa para reorganização interna e o ócio para que o cérebro “floresça” longe das telas. Ao meu corpo eu insisto em afirmar que nele, a cultura da performance já não tem lugar.

Mas pra falar Sem Filtro, preciso reconhecer que essa briga interna que o descanso foi obrigado a vencer, me deu fôlego para correr mais “mil léguas”!

Não posso prometer que estarei aqui, refletindo com vocês todas as semanas, mas estarei “correndo” nas entrelinhas de cada matéria publicada no Portal Acre, cada postagem feita em nosso Instagram, cada podcast e transmissão ao vivo realizada, porque no fim das contas, como boa millennial cedi ao “desvio moral” do descansar para depois me deleitar nesse trabalho que me preenche de quem sou.

É isso, estou voltando, mas sem esquecer que existem realizações, sonhos e projetos que só acontecem quando a gente para de correr mesmo que o mundo trate isso como fraqueza.

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Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

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