Rio Branco, 31 de maio de 2026.

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Gol, arma e silêncio: até onde vai a “brincadeira”?

Era para ser apenas a comemoração de um gol.

Durante uma partida entre Galvez Esporte Clube e Vasco da Gama Acre, pelo Campeonato Acreano, neste sábado 28, um jogador levou a mão à cabeça, simulou um tiro e caiu no gramado como se estivesse morto.

Alguns podem dizer: “Ah, é só uma comemoração”. Mas será mesmo só isso?

Momento em que jogador comemora com simbolo de morte Foto: Captura de Tela

O Acre vive uma realidade dura. Nos últimos anos, o estado tem enfrentado uma preocupante onda de suicídios. Crianças, adolescentes, jovens adultos e pais de família têm virado manchete não por sonhos realizados, mas por despedidas precoces. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registra mais de 14 mil mortes por suicídio por ano, uma média de cerca de 38 pessoas por dia. E a Região Norte apresenta taxas crescentes, com estados que figuram entre os maiores índices proporcionais do país.

Não estamos falando de um tema distante. Estamos falando de algo que atravessa escolas, bairros, igrejas, quartéis e lares acreanos.

E aí vem a pergunta incômoda: estamos nos acostumando?

Quando um jogador, figura admirada, seguida, imitada, faz um gesto como esse, ele talvez não tenha intenção alguma de desrespeitar. Pode ser impulso. Pode ser repetição de algo visto em outros campeonatos. Pode ser apenas euforia.

Mas o futebol não acontece no vácuo.

Jogadores profissionais, especialmente em clubes tradicionais do nosso estado, tornam-se referência, principalmente para as categorias de base. São também inspiração para meninos que treinam descalços em campos de terra, para adolescentes que sonham com ascensão social pelo esporte, para crianças que reproduzem cada gesto do seu ídolo no intervalo da escola.

E o que estamos ensinando quando naturalizamos a simulação da própria morte como parte de uma festa?

O suicídio é hoje um problema de saúde pública. Não é pauta sensacionalista. Não é exagero. É dor real. É família devastada. É culpa, é silêncio, é perguntas sem resposta. É mãe que não dorme. É pai que carrega um peso que nunca mais sai das costas.

Transformar esse gesto em “comemoração” pode parecer pequeno para quem está em campo. Mas para quem perdeu alguém, para quem luta contra pensamentos intrusivos, para quem está fragilizado emocionalmente, não é pequeno: É gatilho!

Escrevo não para criar um movimento contra o jogador, o qual nem citei o nome, mas para que não nos acostumemos com esse tipo de imagem, para que o clube se posicione. Não para crucificar. Não para cancelar. Mas para orientar. Para educar. Para assumir a responsabilidade que vem junto com a visibilidade. O futebol é ferramenta de transformação social, mas isso exige consciência e posicionamento.

Celebrar o gol é legítimo. Vibrar é justo. Extravasar faz parte do espetáculo.
Mas a vida precisa ser maior do que qualquer placar.

Talvez esteja na hora de refletirmos como sociedade sobre o que estamos normalizando. Sobre o que estamos repetindo sem pensar. Sobre o quanto estamos anestesiados diante de uma dor coletiva que só cresce.

Porque quando a morte vira gesto banal, algo dentro de nós também está morrendo.

E isso, definitivamente, não pode ser comemorado.

Que hoje seja de festa no futebol do Acre e do país, mas que também seja dia de consciência!

Em tempo vale à pena lembrar:

O Brasil registra mais de 14 mil mortes por suicídio por ano, segundo dados do Ministério da Saúde — uma média de cerca de 38 pessoas por dia.
• O suicídio está entre as principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos no país.
• Especialistas alertam que falar sobre o tema com responsabilidade ajuda na prevenção.

Precisa de ajuda? Você não está sozinho.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas por dia.

📞 Ligue 188 (gratuito, de qualquer telefone)
💬 Chat e e-mail: www.cvv.org.br

Se houver risco imediato, procure uma unidade de saúde ou ligue para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pelo número 192.

Veja o vídeo:

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