Rio Branco, 6 de maio de 2026.

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Tragédia do São José: Especialistas falam sobre prevenção e preparo para combater a violência no ambiente escolar

Maria Mariana Mota

Mortes provocaram sentimento de insegurança, dor e questionamentos – Foto cedida

O ataque registrado nesta terça-feira, 5, no Instituto São José, levantou o debate sobre a violência extrema dentro do ambiente escolar. Especialistas ouvidos pela equipe do Portal Acre defendem que o debate precisa alcançar medidas concretas de prevenção, acolhimento psicológico e preparação das instituições de ensino.

Um adolescente de 13 anos entrou armado na escola e matou duas supervisoras. O crime chocou o Acre e “espalhou” um sentimento de tristeza e preocupação com a segurança dos estudantes no ambiente escolar.

O coronel da Polícia Militar Giovane Galvão, que já ocupou diversos cargos importantes dentro da corporação, e que possui formação especializada na área de resposta a situações com “atirador ativo”, além ser pedagogo, explica que esse tipo de ocorrência segue padrões observados em diversos ataques registrados no Brasil e no exterior.

“Atirador ativo é a pessoa que entra em um ambiente com a intenção de matar e lesionar o maior número possível de pessoas”, afirma. Segundo ele, no Brasil, os casos têm ocorrido principalmente em escolas e geralmente envolvendo adolescentes.

O especialista ressalta que o perfil dos agressores não pode ser tratado de maneira simplista ou reduzido a uma única causa. “São gatilhos multifatoriais”, explica. Ele destaca ainda que muitos desses jovens demonstram sinais anteriores, seja por mudanças de comportamento, falas, conteúdos publicados na internet ou manifestações dentro da escola.

Para Giovane, um dos principais desafios é impedir o chamado “efeito contágio”, quando a ampla exposição de ataques acaba incentivando novos episódios. Por isso, ele defende responsabilidade na divulgação das informações e evita qualquer tipo de glamourização do agressor.

“É importante não transformar quem comete esse tipo de crime em protagonista. A forma como isso é tratado publicamente faz diferença”, pontua.

O coronel também avalia que o Acre precisa ampliar o treinamento de profissionais da educação para situações de crise. Ele cita que, no ano passado, o Estado trouxe um oficial especializado do Amapá para um ciclo de capacitações voltados a gestores e coordenadores escolares. “Foi um trabalho muito amplo e responsável, mas as ações precisam alcançar mais escolas e comunidades”, afirma.

“Quando a Secretaria de Educação, as universidades e os institutos federais intensificarem esse tipo de formação, muitas vidas poderão ser salvas”, completa.

Segundo ele, protocolos simples podem reduzir riscos em situações extremas. Entre eles, priorizar a fuga quando possível, buscar abrigo fora do campo de visão do agressor e utilizar barreiras improvisadas dentro das salas de aula.

“Não dá para agir no improviso em uma situação dessas. As pessoas precisam saber minimamente como reagir.”

“É preciso preciso reconhecer os sinais”

Psicóloga Jayne Barroso fala sobre os impactos emocionais deixados pela tragédia – Foto Acervo pessoal

A psicóloga Jayne Barroso chama atenção para os impactos emocionais deixados em estudantes, profissionais e familiares que vivenciaram o ataque. Ela explica que situações traumáticas podem provocar alterações comportamentais importantes, principalmente em adolescentes.

“Todas as pessoas que vivenciaram o evento podem apresentar dificuldades para elaborar as cenas que foram vistas. O corpo ainda sente, a mente revive o que aconteceu e o medo aparece de diferentes formas”, afirma.

Segundo a psicóloga, adolescentes ainda estão desenvolvendo recursos emocionais para lidar com situações extremas, o que torna indispensável o acompanhamento psicológico e a observação cuidadosa nos dias seguintes.

Jayne também destaca que sinais de sofrimento psíquico costumam aparecer antes de episódios graves, embora nem sempre sejam fáceis de identificar.

“Isolamento, mudanças bruscas de humor, redução da comunicação e dificuldade de interação são comportamentos que precisam ser observados com atenção. Às vezes o adolescente mascara o sofrimento, por isso a escuta da família e da escola é tão importante.”

Ela defende que a importância de escolas promoverem espaços permanentes de diálogo sobre emoções, bullying, impulsividade e convivência. “A prevenção ainda é o melhor cuidado. Escola e família precisam caminhar juntas.”

A psicóloga também reforça a importância da segurança física aliada ao acolhimento emocional.

“Detector de metais, controle de acesso, profissionais preparados e plano de crise fazem parte da segurança escolar, mas é preciso criar um ambiente seguro, ouvir os conflitos e construir relações de confiança”, conclui.

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