Rio Branco, 10 de maio de 2026.

O Dia das Mães depois do terror no Instituto São José

Um abraço…sem julgamentos – Foto criada por IA

Enquanto o país assistia, perplexo, às imagens do ataque no Instituto São José, em Rio Branco, eu precisava acompanhar as notícias como jornalista. Na correria da supervisão de vídeos, matérias e informações chegando o tempo todo, não pude parar para sentir. Mas, em algum momento daquele dia, deixei de olhar apenas para os fatos e comecei a pensar nas pessoas por trás deles. Principalmente nas mulheres. Principalmente nas mães.

Me peguei pensando que tragédias como essa não terminam quando cessam os gritos. Elas continuam ecoando nos corredores vazios, nos quartos silenciosos, nas mensagens não respondidas, nos corações assustados e, com toda certeza, dentro das mães.

De um lado, estão as mães dos alunos que estavam na escola no momento do ataque, divididas entre a gratidão de terem seus filhos vivos e o terror de imaginar o que poderia ter acontecido. Mulheres que agora precisam encontrar forças para retomar a rotina, transmitir segurança, reconstruir a sensação de normalidade e convencer os próprios filhos de que ainda é possível voltar para a escola sem medo.

Do outro lado, existem filhos que não poderão abraçar suas mães neste domingo porque elas foram vítimas fatais da tragédia. Pessoas que viverão um Dia das Mães marcado pela dor, pela saudade e pelo peso cruel do “último abraço” que nunca souberam que seria o último.

E, no centro de tudo isso, existe uma mãe que passará este domingo longe do filho e, provavelmente, se culpando por não ter conseguido impedir que tudo aquilo acontecesse.

E não, eu não estou colocando essa mãe em um lugar de culpa. Estou falando sobre um sentimento que acompanha muitas mulheres desde o instante em que se tornam mães. A sensação permanente de responsabilidade. Como se, de alguma forma, precisassem prever dores, evitar abismos e proteger os filhos até deles mesmos.

Talvez por isso também tenham surgido tantos comentários nas redes sociais perguntando “onde está essa mãe?”, como se ela fosse a explicação simples para algo que jamais será simples, algo que não tem volta.

Me pego observando que tudo aconteceu justamente na semana do Dia das Mães, e isso torna tudo ainda mais doloroso. Talvez porque algumas dores só possam ser compreendidas a partir daquilo que somos capazes de imaginar.

No fim de tudo, enquanto muita gente discutia segurança nas escolas, falhas do Estado, protocolos e responsabilidades — debates urgentes, necessários e inevitáveis — mães e filhos tentam sobreviver a dores que nenhum debate público consegue mensurar.

E, enquanto algumas mães celebrarão este domingo de forma diferente, abraçando seus filhos com uma intensidade nova, percebendo da maneira mais brutal possível que o cotidiano também é milagre, vejo que outra mãe viverá o silêncio das incertezas, da culpa dilacerante e do vazio deixado pela ausência física.

E além da profunda dor dos filhos que viram suas mães partirem sem a chance de um último abraço apertado, enxergo uma mulher que não viverá o domingo de café na mesa, bagunça na cozinha, mensagens simples de “feliz Dia das Mães” naquele amor automático, cotidiano e quase distraído que só percebemos profundamente quando falta.

Chega a ser inimaginável o sentimento, neste Dia das Mães, de quem viu o próprio filho ocupar o lugar do algoz e talvez essa seja uma das dores mais solitárias que existem.

A verdade é que nós, como sociedade, escolhemos rapidamente nossos “monstros”. Precisamos deles porque precisamos acreditar que o mal nasce distante, em lugares facilmente identificáveis: em casas sem afeto, famílias sem amor ou histórias completamente diferentes das nossas. Talvez essa seja a forma que encontramos para dormir um pouco mais tranquilos.

Mas a realidade raramente é tão simples. Nenhuma mãe gera um filho imaginando que um dia precisará sobreviver ao horror de vê-lo destruir vidas. Nenhuma mulher passa noites em claro cuidando de uma criança febril pensando que, no futuro, será apontada nas ruas, julgada em silêncio ou condenada junto com ele.

Nesse domingo, enquanto lojas ainda estarão vendendo flores e campanhas publicitárias transformando o amor materno em comerciais emocionalmente calculados, aquela mulher estará, talvez, tentando apenas sobreviver ao vazio. Tentando entender em que momento perdeu o filho para um abismo que talvez ela mesma nunca tenha enxergado.

Neste Dia das Mães, é impossível desejar um dia feliz para ela, mas ofereço meu abraço de mãe, sem julgamentos.

Compartilhe em suas redes

Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

» Blogs e Colunas

Por Leônidas Badaró

Por Daigleíne Cavalcante

Por Fredson Camargo

Por Lana Valle

Por Robison Luiz Fernandes

Por Aline Ramalho

Portal Acre