
Queridos leitores, o tema da coluna é um tanto inusitado e tenho certeza que desconhecido para muitos. Meu papel aqui não será expor o tema à exaustão, mas sim trazer a possibilidade de que mais pessoas compreendam que a morte faz parte da vida e, inevitavelmente todos nós um dia a encontraremos. Aliás, desconheço algo tão verdadeiramente democrático como a morte; ela chega para todos, não importando a raça, o credo, a posição social. Inevitavelmente, um dia nos encontraremos com ela, ou ela nos encontrará.
Infelizmente, conversas sobre o tema são raras e difíceis, cercadas de formalismos; dentro das famílias, costumam ser superficiais. Casais não sabem o desejo um do outro, e filhos desconhecem os desejos de seus pais para quando o momento de finitude chegar. A terminalidade da vida vai chegar e quando esses momentos finais estiverem próximos, você vai querer ser expectador de seus cuidados? Ou vai querer ter participado ativamente desse momento, tendo sua autonomia e seu direito de decidir respeitados?
A meu ver, viver e morrer com dignidade deveriam ser processos naturais. No entanto, poucos entendem o significado de morte digna. Afinal, o que seria ter uma “boa morte” ou morrer com dignidade? Esse conceito é muito particular, depende dos valores, princípios, desejos individuais; é nesse contexto que surgem as doulas da morte.
O termo “Doula” origina-se do grego, que significa de forma literal “escrava” ou “serva”; no contexto histórico, fazia referência à mulher que prestava serviços domésticos. Em meados de 1970, a antropóloga Dana Rafael passou a utilizar o termo para designar mulheres que oferecem apoio físico e emocional à gestante no momento do parto e pós-parto. Durante a década de 90, o trabalho da doula se expandiu para os cuidados as pessoas em fim de vida, oferecendo cuidados e apoios não-clínicos a pacientes com doenças graves, incluindo familiares e cuidadores, desde o diagnóstico até o luto, contribuindo com a autonomia desses pacientes e a aceitação das famílias sobre a finitude de alguém importante em suas vidas.
O objetivo do trabalho da doula é desestigmatizar a morte, o que contribui para melhor adesão e relacionamento com a equipe médica, melhorias psicológicas e no relacionamento entre equipe, paciente, família. A Doula visa proteger os desejos do paciente, fornecer apoio emocional e espiritual ao longo de todo o processo de fim de vida. A atuação não envolve procedimentos médicos, e a doula da morte não substitui médicos, enfermeiros ou psicólogos. O trabalho está relacionado ao suporte emocional, à escuta ativa e o auxílio em questões práticas e afetivas que surgem nesse período.
Existe uma infinidade de serviços que podem ser desempenhados pela doula antes, durante e após a morte que fazem parte de um cuidado integral e singular, oferecendo acolhimento, escuta, companhia, ajudam a família a entender a progressão da doença, antecipar escolhas, avaliar riscos e ajudar na escolha de opções terapêuticas. O trabalho da doula consiste na “presença sem pressa” ressignificando o fim de vida de um evento médico, para uma experiência humana, cercada de afeto, memória e significado.
As doulas da morte ou doulas de fim de vida, não se limitam à sua atuação somente ao morrer, atuam no cuidado, na escuta, no respeito a história de cada pessoa até o fim. E talvez seja justamente isso que mais falta quando o assunto é finitude: menos silêncio e mais humanidade
*Agradecimento especial à Dra. Letícia Pinto Corrêa, pela generosidade em disponibilizar sua tese de mestrado, (leia aqui) que serviu como importante fonte de pesquisa e inspiração para construção deste artigo.
Aline Ramalho é advogada, especialista em Direito da Saúde e colunista do Portal Acre.