Rio Branco, 7 de junho de 2026.

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Resex Chico Mendes segue entre conquistas e ameaças após 36 anos

Líder seringueiro Chico Mendes foi assassinado em Xapuri em dezembro de 1988 – Foto cedida

Criada em março de 1990 como resposta à luta liderada por Chico Mendes e aos conflitos fundiários que marcaram a história da Amazônia acreana, a Reserva Extrativista batizada com nome do líder sindical chegou aos seus 36 anos consolidada como uma das mais emblemáticas unidades de conservação do Brasil. Símbolo internacional da defesa da floresta em pé, a reserva segue desempenhando papel estratégico para a preservação ambiental, a regulação climática e a manutenção do modo de vida de milhares de famílias extrativistas.

Mas, ao mesmo tempo em que acumula conquistas, a unidade continua cercada por pressões que desafiam sua integridade territorial e seu futuro. Nesta Semana do Meio Ambiente, a discussão sobre os rumos da Resex foi abordada numa conversa com o presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Júlio Barbosa de Aquino, um dos companheiros históricos de Chico Mendes e ainda um dos nomes mais atuantes do movimento socioambiental.

Em entrevista exclusiva ao Portal Acre, Júlio reforçou que as ameaças enfrentadas atualmente pela reserva são reflexo de uma disputa histórica que permanece viva mais de três décadas após sua criação.

“A Reserva Chico Mendes vive há muitos anos um processo de pressão muito grande porque ela é uma extremamente emblemática do ponto de vista da do seu território que abrange sete municípios do estado que vai ser considerado também o arco do avanço da produção de milho e de soja”, afirma.

Segundo ele, a própria localização da unidade contribui para esse cenário. Sua geografia e localização em uma região considerada estratégica para a expansão da pecuária e da agricultura mecanizada, a área desperta interesses econômicos permanentes.

“A reserva é uma planície, tem terras férteis, rios pequenos e facilidade para abertura de estradas, como já existem muitas abertas. Existe uma vontade muito grande de setores ligados à pecuária de um dia ver a Reserva Chico Mendes se acabar”, reforça.

A disputa além da floresta

Júlio Barbosa é, atualmente, dirigente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas – Foto Raimari Cardoso

Para o dirigente do CNS, as pressões não se limitam à ocupação territorial ou ao avanço do desmatamento. Elas também se manifestam no campo político e na disputa de narrativas sobre a própria existência da unidade. Júlio Barbosa avalia que a aproximação do calendário eleitoral tende a intensificar esse processo.

Nos últimos meses, conflitos envolvendo embargos ambientais, ocupações irregulares e operações de fiscalização voltaram a mobilizar lideranças locais e agentes políticos. Em maio passado, uma reunião realizada em Xapuri reuniu produtores rurais, representantes de comunidades e atores do meio político para discutir problemas enfrentados por moradores da reserva.

Embora o encontro tenha sido apresentado como uma tentativa de buscar soluções para os conflitos existentes, o episódio evidenciou como a Resex Chico Mendes permanece no centro das discussões públicas e políticas do Acre. Para Júlio Barbosa, parte desse debate tem sido influenciada pela disseminação de informações que, segundo ele, não refletem a realidade da unidade.

“O que mais tem fortalecido esse discurso nos últimos tempos são as redes sociais, através de fake news e informações mentirosas sobre a reserva. Pouca gente fala das coisas boas que acontecem lá dentro e da importância que ela tem para a questão climática da nossa região.”

O alerta sobre mudanças na legislação

Fake news são consideradas “combustível” para conflitos dentro da Resex – Foto cedida

A preocupação do CNS ganhou novos elementos no curso do mês de maio deste ano com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que reduz a área da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, transformando parte dela em Área de Proteção Ambiental (APA).

A medida, que agora vai ao Senado, reacendeu debates sobre o Projeto de Lei 6024/2019, que tramita no Congresso Nacional e propõe alterações parecidas na Reserva Extrativista Chico Mendes e no Parque Nacional da Serra do Divisor.

Embora o projeto esteja sem avanços recentes, lideranças extrativistas veem na decisão envolvendo o Jamanxim um possível precedente para iniciativas semelhantes em outras áreas protegidas da Amazônia.

“O CNS acompanha isso permanentemente. Cada situação dessa que acontece em outro território nos faz pensar que algo parecido pode ser tentado aqui. Por isso estamos atentos o tempo todo ao que acontece no Congresso Nacional”, explica.

Entre avanços e desafios

Os desafios enfrentados pela reserva também aparecem nos números. De acordo com o presidente do CNS, aproximadamente 90 mil hectares da Resex Chico Mendes já foram desmatados ao longo dos anos. Desse total, cerca de 33 mil hectares teriam sido derrubados durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, período que, segundo ele, foi marcado por uma redução das ações de fiscalização ambiental.

“O que aconteceu naquele período deixou a reserva em uma situação muito difícil. Todos os órgãos de fiscalização receberam a determinação de quem não poderia fazer nenhum processo de fiscalização. Isso deixou a essa reserva se transformar numa casa de ‘mãe joana’. Muita gente passou a fazer o que queria dentro do território”, lamenta.

Apesar disso, Júlio Barbosa reconhece que os últimos anos trouxeram sinais positivos, com queda nos índices de desmatamento, o que, para ele, representa uma esperança de dias melhores para a unidade de conservação.

“Nos últimos dois anos esse processo se modificou e o desmatamento caiu drasticamente. Isso é um fato importante e mostra que a reserva pode caminhar para uma situação menos conflituosa”, avalia.

O legado que continua em disputa

Mais do que uma unidade de conservação, a Reserva Extrativista Chico Mendes representa um modelo de desenvolvimento construído a partir da convivência entre floresta e população tradicional. Seu território abriga comunidades extrativistas, áreas de manejo sustentável e uma biodiversidade fundamental para o equilíbrio ambiental da Amazônia.

Trinta e seis anos após sua criação, a reserva continua sendo um dos maiores legados da luta de Chico Mendes — e também um dos espaços onde se trava, de forma mais evidente, o embate entre diferentes visões sobre o futuro da Amazônia. Para o CNS, essa é uma disputa que está longe de terminar.

“Estamos vivendo um momento que exige atenção. Mas nosso movimento continua forte, unido e vigilante para defender aquilo que foi construído ao longo de décadas”, conclui Júlio Barbosa.

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