
Por Socorro Camelo
Existe algo ainda mais grave do que o desabamento de uma ponte.
É o desabamento da lógica.
Uma obra pública que custou mais de R$ 36 milhões caiu antes mesmo de completar três anos de existência.
Pessoas ficaram feridas.
Famílias viveram momentos de pânico.
O patrimônio público foi destruído.
E, no entanto, uma parte do debate parece ter tomado um rumo estranho.
Em vez de investigar por que a ponte caiu, discute-se quem estava sobre ela. Em vez de buscar explicações para o colapso da estrutura, procura-se encontrar culpados convenientes entre aqueles que presenciaram a tragédia.
Essa inversão talvez seja o aspecto mais perturbador de toda essa história.
Sociedades sérias começam pelas causas.
Somente depois discutem as circunstâncias.
A poucos quilômetros dali existe uma ponte sobre o Rio Iaco que atravessa gerações.
Foi construída há mais de quarenta anos.
Numa época sem softwares sofisticados, sem modelagens tridimensionais e sem boa parte dos recursos tecnológicos disponíveis atualmente.
Conviveu com cheias históricas.
Conviveu com secas rigorosas.
Conviveu com o conhecido fenômeno das terras caídas, realidade tão antiga quanto os próprios rios amazônicos.
E continua de pé.
A outra ponte não teve a mesma sorte.
E o fenômeno das terras caídas não surgiu na semana passada.
O Rio Iaco não mudou de lugar de repente.
A Amazônia não começou a existir depois da licitação.
Se o risco era conhecido, foi adequadamente considerado no projeto?
Foi adequadamente considerado na execução?
Foi adequadamente considerado na fiscalização?
Quanto mais previsível é um risco, maior é a obrigação de enfrentá-lo.
E quanto maior o investimento público, maior deve ser o rigor na fiscalização.
Essas são as perguntas que deveriam ocupar o centro do debate.
Mas elas parecem estar sendo empurradas para a margem.
É mais confortável discutir quem estava na ponte do que discutir as razões do colapso.
É mais fácil apontar o dedo para cidadãos do que examinar projetos, contratos, laudos e responsabilidades administrativas.
Nenhuma sociedade aprende com seus erros quando escolhe transformar testemunhas em culpados.
Se alguém subiu numa ponte interditada, isso pode e deve ser discutido.
Mas nenhuma pessoa que estivesse sobre ela levou consigo os mais de R$ 36 milhões investidos na obra.
Nenhuma pessoa que estivesse sobre ela assinou projetos.
Nenhuma pessoa que estivesse sobre ela fiscalizou a execução.
Nenhuma pessoa que estivesse sobre ela recebeu a responsabilidade de garantir a segurança da estrutura.
Em vez de apresentar respostas, tenta-se desviar o foco do debate para um senador que chegava ao município para cumprir uma agenda política e que, diante da tragédia, fez o que qualquer pessoa minimamente sensível faria, cancelou os compromissos previstos e seguiu diretamente para o hospital para prestar solidariedade às vítimas e colocar seu mandato à disposição.
Aliás, há uma distinção importante que parece estar sendo ignorada.
Quem deseja explorar politicamente uma tragédia costuma procurar os holofotes do desastre.
Quem se preocupa com as pessoas procura primeiro os feridos
Se a intenção fosse produzir imagens ou explorar o episódio politicamente, o caminho mais curto teria sido a ponte desabada.
Não foi.
O destino foi o hospital.
E isso faz toda a diferença.
Não se trata de disputa partidária.
Não se trata de governo ou oposição.
Não se trata de esquerda ou direita.
Trata-se de vidas humanas.
Trata-se de pessoas que saíram de casa sem imaginar que seriam vítimas de uma tragédia.
E vidas humanas são importantes demais para serem transformadas em cortina de fumaça quando o que a população espera são respostas.
A tentativa de deslocar o debate para o comportamento das vítimas, das testemunhas ou daqueles que prestaram solidariedade apenas reforça a impressão de que ainda faltam respostas para as perguntas mais importantes.
A ponte sobre o Rio Iaco será reconstruída.
Novos projetos serão elaborados.
Novos recursos serão investidos.
Novas inaugurações acontecerão.
Mas existe outra estrutura igualmente atingida pelo desabamento.
A confiança da população.
Essa não se reconstrói com concreto.
Reconstrói-se com transparência.
Reconstrói-se com responsabilidade.
Reconstrói-se com coragem para responder às perguntas que realmente importam.
A grande questão aqui não é culpar quem se feriu por estar em cima da ponte.
É, sobretudo, o dever de exigir respostas de quem tinha a responsabilidade de mantê-la de pé.
Socorro Camelo, Jornalista e Escritora








