
Em um estado marcado pela diversidade cultural e religiosa, as tradições de matriz africana seguem fortalecendo sua presença e preservando conhecimentos ancestrais transmitidos de geração em geração. No Acre, onde o Censo do IBGE 2022 registrou crescimento no número de adeptos das religiões afro-brasileiras, terreiros mantêm viva uma herança cultural que une espiritualidade, identidade e resistência.
É nesse contexto que a Roça de Candomblé, Ilê Asé Omó Dan Setó, localizado no bairro da Estação Experimental, em Rio Branco, realizou no sábado, 6, a tradicional Festividade “Ipeté de Osun”, uma das mais importantes celebrações dedicadas a Orixá das águas doces, fertilidade, prosperidade e do amor.
Antes da cerimônia pública, a comunidade religiosa esteve mobilizada em um período de preparação espiritual. Durante os dias que antecedem a festividade, foi realizada rezas, orôs, ebós e demais rituais litúrgicos destinados a reverenciar Oxum e fortalecer os laços entre os fiéis e o sagrado. Na oportunidade foi realizada o Odu Itá (obrigação de três anos), das primeiras Osun da casa, Dofona Rosa Ti’ Kare (rombona) e Dofona Luiza Ti’ Ijimú (filha carnal da Iyàlòrísá da casa).

O Ipeté é uma festividade em homenagem ao Adimú (oferenda) prato sagrado dedicado a Oxum nas religiões de matriz africana, como o Candomblé. A festividade celebra o amor, fertilidade e a união, onde a comunidade se reúne para compartilhar a iguaria e renovar os votos com os Orixás.
A cerimônia gira em torno da oferenda principal de mesmo nome, com danças e cânticos aos Orixás. O ipeté é uma espécie de purê, massa feita à base de inhame, azeite de dendê, camarão seco e temperos, cuidadosamente preparado e enfeitado com ovos cozidos e camarão, servido no barracão a toda comunidade de axé, diretamente das mãos de Osun, que esconde seus segredos e fundamentos dentro da própria panela que acomoda o Ipeté.
À frente da celebração esteve a dirigente do Ilê Asé Omó Dan Setó, Iyàlòrísá Térgila Ti’ Osùmàrè Arrunsetó (mãe de santo). Iniciada há 13 anos no Candomblé e também no culto de Ifá Òrúnmìlà. A celebração e obrigações contou com a presença do Sacerdote (pai de santo) da Iyàlòrísá Térgila, Bàbáláwo e Bàbálòrìsá André Ti’ Odé Àkwàrámetá, dirigente do Ilé Àsé Olooke Ti’ Efón Odé Àkwàrámetá (São Paulo – SP).
Os sacerdotes destacam que a preparação do Ipeté envolve não apenas o preparo do alimento sagrado, mas uma série de obrigações espirituais que antecedem a entrega à comunidade.
Segundo a mãe de santo Térgila Juca (Iyàlòrísá), a celebração representa um momento de fortalecimento da comunidade religiosa e de valorização dos saberes ancestrais preservados pelos povos de santo.
“O Candomblé ensina o respeito à natureza, aos ancestrais e à coletividade. Quando compartilhamos o Ipeté, estamos também compartilhando nossos valores, nossa cultura e nossa espiritualidade”, afirma.

Embora a liberdade de crença seja garantida pela Constituição Federal, sacerdotes e praticantes destacam que a desinformação e o preconceito ainda resultam em episódios de discriminação contra comunidades tradicionais de terreiro. Por isso, momentos de fé e partilha como o Ipeté de Oxum também se transformam em oportunidades de diálogo, valorização da cultura afro-brasileira e fortalecimento do respeito à diversidade religiosa.







