Rio Branco, 16 de junho de 2026.

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Juventudes interrompidas: até quando vamos tratar o evitável como fatalidade?

Há pouco mais de seis meses, escrevi neste espaço sobre a morte de dois adolescentes de Xapuri — Julinho, de 17 anos, e Débora, de 16 — vítimas de acidentes envolvendo motocicletas conduzidas de forma irregular na zona rural do município. Na ocasião, o propósito não era — como segue não sendo agora — apontar culpados nem transformar a dor de famílias em debate público. A real intenção é chamar atenção para uma realidade conhecida por todos, mas que continua a ser tratada como algo normal.

Menos de vinte dias após aquele artigo, outro adolescente perdeu a vida em circunstâncias semelhantes na mesma cidade. Em dezembro de 2025, Kauan Cristian, de apenas 15 anos, tornou-se mais um nome numa sequência de tragédias que já deveria ter provocado uma mobilização muito maior da sociedade e do poder público. Agora, em junho de 2026, a história se repete com a morte de Rafael Teixeira, também de 15 anos, após um grave acidente envolvendo motocicletas em Xapuri, neste último fim de semana, que deixou outro menor, de 14 anos, ferido.

É impossível não sentir tristeza com tantas vidas interrompidas tão cedo. Mas diante de cada novo caso, a nossa reação costuma seguir o velho roteiro de lamentar, prestar solidariedade, acompanhar o velório, compartilhar mensagens de pesar e seguir em frente. O problema é que, quando a mesma tragédia se repete tantas vezes, talvez seja necessário fazer uma pergunta incômoda: estamos realmente diante de fatalidades ou de um problema coletivo que ainda não tivemos coragem suficiente para enfrentar?

A verdade é que a condução de motocicletas por adolescentes sem qualquer formação para o trânsito e muitas vezes sem equipamentos de proteção tornou-se uma realidade banalizada em muitas comunidades urbanas e rurais do Acre. Não se trata de um fenômeno escondido. Todos veem. Todos sabem. Em maior ou menor grau, todos convivem com isso.

Naturalmente, existem fatores sociais que não podem ser ignorados. Em muitas localidades, a motocicleta representa o único meio viável de deslocamento. Há famílias que dependem dela para trabalhar, estudar, buscar atendimento médico ou simplesmente vencer as longas distâncias impostas pela realidade amazônica. O problema, porém, é que compreender as razões não significa aceitar as consequências como inevitáveis.

Quem sabe o ponto central da discussão esteja justamente aí. Durante décadas, fomos construindo uma cultura de tolerância ao risco. Uma cultura que, sem perceber, passou a considerar normal aquilo que nunca deveria ter sido natural. E quando algo se torna culturalmente aceito, a fiscalização perde força, a orientação perde espaço e o sentimento de urgência desaparece.

Mas onde estamos errando?

Estamos errando quando a educação para o trânsito não alcança os jovens antes que eles tenham acesso aos veículos. Quando o Estado aparece apenas para punir, mas não para orientar, prevenir e criar alternativas. Quando a fiscalização é insuficiente ou descontínua. Quando a sociedade inteira passa a enxergar situações perigosas como parte inevitável da rotina. E talvez estejamos errando, sobretudo, quando só discutimos o assunto depois que uma nova cruz é erguida em um cemitério.

Isso não significa defender uma onda de repressão indiscriminada contra famílias simples que enfrentam dificuldades reais. O desafio exige inteligência, sensibilidade e políticas públicas capazes de combinar educação, fiscalização, regularização e inclusão. Exige diálogo entre escolas, órgãos de trânsito, forças de segurança, associações comunitárias e lideranças locais, além de campanhas permanentes e não apenas ações pontuais motivadas por tragédias recentes.

Quantos jovens mais precisaremos perder antes de compreender que existe um problema estrutural diante de nossos olhos? Não há resposta fácil. Mas há uma certeza: Cada adolescente que morre nessas circunstâncias deixa uma família devastada, amigos marcados para sempre e uma comunidade inteira empobrecida de futuro.

E quando casos semelhantes se repetem ano após ano, já não basta apenas lamentar. É preciso refletir, agir e reconhecer que preservar vidas jovens é uma responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias e sociedade. Porque nenhuma cidade pode se acostumar a enterrar seus adolescentes.

Raimari Cardoso é radialista e jornalista em Xapuri, onde atua como locutor e repórter nas rádios Aldeia FM e Difusora Acreana, além de colaborar eventualmente com o Portal Acre.

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