
Mais de 39,1 mil crimes cibernéticos e mais de 10,4 mil casos de violência doméstica podem ter deixado de ser registrados no Sistema de Segurança Pública em Rio Branco nos últimos 12 meses. Estes foram alguns dados apresentados durante o Seminário de Apresentação da Pesquisa de Vitimização na Cidade de Rio Branco que ocorreu nesta terça-feira (16), no plenário do Tribunal de Contas do Acre (TCE-AC).
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A pesquisa que serviu de base para o evento foi coordenada pelo professor Dr. Ermício Sena, da Universidade Federal do Acre (Ufac), e desenvolvida pelo grupo de pesquisa “Sujeitos, Ações e Percepções: Grupo de Pesquisa em Violência e Conflitualidades”, liderado pela professora Dra. Marissol Brandt, que atuou como debatedora durante o Seminário.
“A pesquisa de vitimização é um diagnóstico da subnotificação da violência em Rio Branco, ou seja, ela é o que a gente chama de busca da ‘cifra obscura’. Aquela que está escondida, que as polícias, os órgãos de segurança e a sociedade não sabem. Muitas pessoas não registram boletins de ocorrência, que é muito importante para a polícia agir, e fazem isso porque acham que isso vai piorar a situação delas, porque [o problema] não vai ser resolvido. E isso é uma cifra obscura que é importante na hora de diagnosticar a situação da segurança, a percepção de segurança ou de insegurança das pessoas”, explicou Ermício.
Para a presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício, o custo da vitimização é uma conta social que nunca foi fechada e que precisa de ações mais eficazes do Poder Público.
“Precisamos nos reunirmos mais vezes para debater a importância desse tema, ficar atento aos orçamentos também dos municípios e do governo, para contemplar políticas efetivas que combatam essa violência encoberta no campo social. Nosso tecido está contaminado de violência e isso passa pela discussão da democracia e desses vieses que tentam se instalar também no nosso país. Então são temas profundos, complexos e que são muito bem passíveis de uma reflexão a partir dos dados que foram apresentados neste trabalho”, enfatizou.
Pesquisa ouviu 800 pessoas na capital acreana

O estudo foi contratado pela Ufac e executado pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) através da Fundação de Apoio e Desenvolvimento Ensino e Pesquisa Universitária no Acre. O trabalho mapeou os impactos da violência urbana e as percepções de segurança dos moradores da capital.
Esta foi a primeira edição em uma cidade acreana, mas segundo o relatório, as questões aplicadas foram elaboradas com base na experiência acumulada pelo IPO em pesquisas de vitimização em diferentes municípios brasileiros.
_“Além disso, incorporou novos indicadores para captar temas emergentes, como violência doméstica e percepção de justiça, ampliando o alcance do diagnóstico. A pesquisa oferece uma base empírica consistente para compreender a relação entre vitimização, medo do crime e confiança institucional. Os resultados servem como instrumento estratégico para monitorar tendências, qualificar o debate público e orientar a formulação de políticas de segurança no município”, explicou o relatório._
Ao todo, foram *entrevistados 800 moradores das 10 regionais de Rio Branco maiores de 16 anos, entre os dias 24 de fevereiro e 6 de abril deste ano*. A pesquisa considerou diversas categorias, incluindo sexo biológico idade, situação de trabalho e região de moradia. Segundo o IPO, a margem de erro é de 3,5 pontos percentuais e o intervalo de confiança é de 95%.
A pesquisa traz ainda relatos de pessoas que foram vítimas de algum tipo de violência ou crime, a sensação de segurança da população e percepções sobre as polícias Civil e Militar.
Passo importante para o Acre
A pesquisa aponta que uma média de 6% dos moradores de Rio Branco já foram vítimas de algum tipo de crime. Destes, 27,8%, em média, registraram boletins de ocorrência policial. Os dados apontam ainda que os três crimes com menor taxa de registro são:
- Constrangimento por insinuação de cunho sexual;
- Discriminação;
- Fraude pela internet.
Já os crimes com maior taxa de registro policial e que correspondem a mais da metade das ocorrências são: furto de veículo automotor, agressão física e roubo de objetos de valor.
_“A grande maioria das vítimas, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, não registra as ocorrências, inclusive no caso de crimes graves e violentos. Por essa razão, países mais avançados nessa área já utilizam as pesquisas de vitimização como um instrumento fundamental há muitas décadas. No Brasil, ainda há poucas pesquisas desse tipo. O Acre dá um passo muito importante ao realizá-la. Isso é fundamental, em primeiro lugar, para os gestores de segurança pública e, especialmente, para as polícias, que passarão a dispor de dados muito mais consolidados e representativos sobre o que de fato está a acontecer”, destacou o Prof. Dr. Marcos Rolim (TCE-RS), um dos responsáveis pela pesquisa._
Rolim é doutor em Sociologia e especialista em segurança pública, reconhecido nacionalmente pela atuação em direitos humanos e análise de sistemas prisionais e preventivos.
Além dele e de Marissol Brandt, a mesa de debate contou ainda com a participação Prof. Dr. Marcos Montysuma da Universidade Federal de Santa Catarina, doutor em História e pesquisador de dinâmicas sociais, com forte produção voltada a políticas públicas e vulnerabilidades. Já a mediação ficou a cargo do professor Dr. Francisco Alves Neto (Ufac).
Pontos de atenção e principais desafios
O relatório termina trazendo um compilado dos principais pontos que devem receber atenção da segurança pública incluindo:
• Elevada percepção de violência na cidade;
• Concentração territorial da insegurança em regiões vulneráveis;
• Convergência entre percepção e evidência de campo em áreas críticas;
• Presença de crimes digitais como nova dimensão da vitimização;
• Impacto da violência na própria coleta de dados.
O relatório inclui ainda uma lista com os principais desafios que devem ser enfrentados para que haja mudança em indicadores e na percepção de segurança da população:
• Reduzir desigualdades territoriais na segurança;
• Fortalecer a presença institucional em áreas vulneráveis;
• Aumentar a confiança nas forças de segurança;
• Qualificar estratégias de enfrentamento aos crimes digitais;
• Ampliar políticas específicas para violência contra a mulher.








