
O Acre iniciou o período mais crítico para incêndios florestais de 2026 com um dos menores índices de queimadas do país. Dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que o estado registrou 39 focos de calor até 15 de junho, uma redução de 40% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizados 65 registros.
O desempenho coloca o Acre como o segundo estado brasileiro com menos focos de queimadas no ano, atrás apenas do Distrito Federal, que registra 28 ocorrências. O cenário positivo, porém, não reduziu o nível de alerta dos órgãos ambientais. Os governos federal e estadual vêm ampliando investimentos, fiscalização e ações preventivas para enfrentar a temporada de estiagem e evitar a repetição de episódios críticos observados na Amazônia nos últimos anos.
Uma das principais iniciativas em curso é a Operação Apoena, coordenada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A ação reúne atividades de prevenção, fiscalização, investigação e responsabilização relacionadas ao uso irregular do fogo em áreas da Amazônia Legal, incluindo o Acre.
Como parte da operação, o Ibama publicou editais de notificação preventiva direcionados a grandes propriedades rurais localizadas em municípios considerados estratégicos para o controle das queimadas. Os documentos reforçam a obrigatoriedade da adoção imediata de medidas de prevenção e combate a incêndios, com base na Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e em normas recentes que ampliaram as responsabilidades dos proprietários rurais.
Entre as exigências estão a proibição do uso do fogo sem autorização ambiental, a manutenção de aceiros quando necessário, o manejo adequado da vegetação seca, o monitoramento constante das propriedades durante os períodos críticos e a capacitação de trabalhadores para ações preventivas. Os proprietários também devem possuir planos específicos de prevenção e combate a incêndios e comunicar imediatamente às autoridades qualquer foco identificado.
O órgão federal informou que utiliza sistemas de monitoramento remoto e imagens de satélite para acompanhar o cumprimento das medidas. O descumprimento pode resultar em sanções administrativas, além de responsabilização civil e penal.
O reforço das ações ocorre simultaneamente à ampliação dos recursos federais destinados à proteção ambiental. Nesta semana, o governo federal abriu crédito extraordinário de R$ 337,4 milhões para fortalecer o combate aos incêndios florestais e a fiscalização ambiental em todo o país.
Do total, R$ 194,4 milhões serão destinados ao Ibama. Os recursos serão utilizados em ações de prevenção e controle de incêndios em áreas federais prioritárias, além da ampliação das operações de fiscalização ambiental. Outros R$ 143 milhões serão direcionados ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão das unidades de conservação federais.
A medida atende determinações do Supremo Tribunal Federal (STF) relacionadas à implementação de políticas de combate ao desmatamento e enfrentamento das mudanças climáticas, além de fortalecer a preparação para o período de maior incidência de queimadas na Amazônia.
No Acre, o trabalho de prevenção também vem sendo intensificado por meio da Operação Amburana, coordenada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) em parceria com o Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA), o Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) e o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).
Deflagrada em fevereiro, a operação integra as ações do Sistema Integrado de Meio Ambiente e Mudança do Clima (Simamc) e tem como objetivo combater o desmatamento ilegal e reduzir os riscos de incêndios durante a estiagem.
Na primeira fase, as equipes passaram a atuar em 242 áreas com alertas de desmatamento distribuídas em cinco regionais estratégicas do estado. Apenas nos sete primeiros dias de fiscalização, foram vistoriados 94 alertas, resultando no embargo de 684,6 hectares, apreensão de 24 metros cúbicos de madeira extraída ilegalmente e aplicação de aproximadamente R$ 3,4 milhões em multas.
Outra frente considerada estratégica pelo governo estadual é o fortalecimento das brigadas comunitárias. A Sema lançou edital para seleção de brigadistas que atuarão na prevenção e no combate aos incêndios ambientais em unidades de conservação estaduais.
A iniciativa é desenvolvida em parceria com o Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC), responsável pela capacitação dos participantes. Em 2026, a política contará com investimentos próximos de R$ 2 milhões, provenientes do Programa REM Acre, além do apoio da Fundação Re e do projeto Paisagens Sustentáveis da Amazônia (ASL Brasil).
Segundo o governo estadual, a estratégia já apresentou resultados expressivos em 2025. Dados do Inpe indicaram redução de 75% nos focos de calor em relação ao ano anterior. Nas unidades de conservação estaduais, a queda chegou a aproximadamente 97,7% entre janeiro e outubro.
Embora os números atuais indiquem um cenário mais favorável, especialistas e órgãos ambientais alertam que os próximos meses continuarão exigindo atenção. Historicamente, o Acre registra aumento significativo das queimadas entre julho e outubro, período marcado pela redução das chuvas e pela intensificação das atividades agropecuárias.
O histórico recente demonstra o tamanho do desafio. O pior ano da série histórica do Inpe foi 2005, quando o estado registrou 15.993 focos de queimadas. O segundo cenário mais crítico ocorreu em 2022, com 11.840 registros.
Os dados registrados até junho indicam que o Acre chega à temporada de seca em situação mais favorável do que nos últimos anos, mas ainda sob vigilância constante diante dos riscos associados às mudanças climáticas e à pressão sobre a floresta amazônica.








