Rio Branco, 24 de junho de 2026.

“De onde ela veio, pra onde ela vai?”: A lição que o Alzheimer me ensinou – por Daigleíne Cavalcante

Esses dias, me deparei com um vídeo do cantor Fernando Mendes, onde ele, comoventemente, se esforçava para entoar uma de suas canções mais emblemáticas, que, por ironia ou destino, se chama “A Desconhecida”.

A letra, tão poética, diz: “No trem que me leva pra longe, eu vejo na outra janela alguém que sorri de repente, mas eu não sei o nome dela…”

Foi um choque perceber que Fernando Mendes, de fato, embarcou em um trem que o levou para longe de quem um dia foi, e hoje, não é mais capaz de “saber o nome dela”. O Alzheimer, essa doença complexa e cruel, rouba da pessoa um bem de valor inestimável: suas memórias. E o pior, sem cura.

“A Desconhecida”, lançada em 1973, é o maior sucesso de sua carreira, vendendo mais de 100 mil cópias na época e catapultando o cantor ao estrelato nacional. Hoje, aos 75 anos, Fernando Mendes vive recluso, longe dos palcos, sob os cuidados da família no interior de Minas Gerais. Foi impossível não sentir um nó na garganta e a dor de pensar que alguém que embalou tantas histórias de amor e levou tanta emoção, já não pode se recordar da própria história.

E, nesse turbilhão de pensamentos, lembrei-me de um outro Fernando, Fernando Henrique Cardoso, o homem que orquestrou a estabilização econômica do Brasil. Um dos maiores nomes da política brasileira, pai do Plano Real, precursor de políticas sociais e um intelectual de projeção internacional, FHC é, sem dúvida, uma das figuras mais importantes de todos os tempos em nosso país. Com Alzheimer em estágio avançado, teve sua interdição civil e patrimonial decretada pela Justiça em abril de 2026, para que seus filhos pudessem cuidar dele e de seu legado.

Recentemente, em uma recepção de uma clínica de estética aqui em Rio Branco, conheci Dona Dulce, uma senhora de mais de 70 anos que comentou estar apressada porque o esposo, Sr. Antônio, a esperava no táxi. Não resisti e perguntei o porquê. Ela respondeu, com um carinho que transbordava: “Ele tem Alzheimer e vai para onde eu vou, seja qual for o lugar. Ele diz que pode esquecer de tudo, mas se ele estiver pertinho de mim o tempo todo, ele nunca vai esquecer de mim.”

Ao sair, olhei para o táxi e lá estava o Sr. Antônio, aguardando a única pessoa do mundo que ele não quer esquecer.

Me peguei refletindo sobre o fato que não importa se Fernado Mendes não lembra mais de seu maior sucesso, gerações e gerações de história de amor seguirão sendo embaladas por ele.

Mesmo que FHC não lembre nada sobre quem foi, ele sua história será sempre contada e seu legado seguirá beneficiando os brasileiros.

E talvez um dia Sr. Antônio até esquecerá da Dona Dulce, mas eu não esquecerei da lição silenciosa que ele me ensinou:

E se um dia eu e você não lembrarmos mais do que vivemos, do que fizemos e do que plantamos, o que deixaremos de lembrança, de valor e de legado pra quem convive conosco?

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Daigleíne Cavalcante

Daigleíne Cavalcante é jornalista com 17 anos de experiência, palestrante, mentora e estrategista em comunicação e oratória.

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