
Um relatório internacional que avalia a transparência socioambiental da cadeia da carne bovina na Amazônia Legal revela um cenário de contrastes entre os frigoríficos acreanos habilitados para exportar aos mercados do Oriente Médio e Norte da África. Das três plantas industriais do estado incluídas no levantamento, apenas a unidade da JBS, em Rio Branco, aparece entre as empresas com melhor desempenho em políticas de combate ao desmatamento. Já o Frisacre, também na capital, e a Frigomarca, em Senador Guiomard, receberam nota zero em todos os indicadores avaliados.
Os dados constam no relatório “Beef Transparency in the Brazilian Amazon – Middle East and North Africa Countries 2025“, elaborado pelo Radar Verde, iniciativa que analisa o grau de comprometimento dos frigoríficos da Amazônia com políticas de desmatamento zero e a capacidade de monitorar seus fornecedores.
O estudo ganha relevância em um momento em que os países do Oriente Médio e Norte da África ampliam sua participação como compradores da carne bovina brasileira. Em 2025, as exportações para essa região alcançaram US$ 1,79 bilhão, cerca de 10% de toda a receita obtida pelo Brasil com as vendas externas do produto.
JBS lidera entre os frigoríficos acreanos
Entre as empresas instaladas no Acre, a unidade da JBS em Rio Branco obteve um dos melhores resultados da pesquisa. O frigorífico recebeu 75,7 pontos no indicador que mede o controle sobre fornecedores diretos — fazendas que vendem animais diretamente para a empresa — e nota 39,1 na avaliação geral, sendo classificado pelo Radar Verde no grupo de frigoríficos com maior comprometimento socioambiental.
Apesar do desempenho superior, a empresa também reproduz um problema apontado em toda a cadeia da carne amazônica: a baixa capacidade de monitorar fornecedores indiretos, responsáveis pelas etapas anteriores da criação dos animais. Nesse quesito, a unidade acreana obteve apenas 2,4 pontos, índice semelhante ao das demais empresas mais bem avaliadas.
Além disso, a área potencial de compra de gado da unidade de Rio Branco está estimada em 1,11 milhão de hectares, considerada pelo estudo como área sujeita à exposição ao risco de desmatamento.
Em situação oposta aparecem os outros dois frigoríficos acreanos. O Frisacre Frigorífico Santo Afonso do Acre, em Rio Branco, e a Frigomarca, em Senador Guiomard, receberam nota zero tanto no controle de fornecedores diretos quanto de fornecedores indiretos, resultando em pontuação geral igualmente zerada.
Segundo o Radar Verde, isso significa que não foram identificadas evidências públicas suficientes sobre políticas efetivas de prevenção ao desmatamento, mecanismos de monitoramento da cadeia pecuária ou divulgação de resultados relacionados ao controle socioambiental.
Outro aspecto destacado pelo levantamento é que ambas as empresas não são signatárias do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, firmado com o Ministério Público Federal para coibir a compra de animais provenientes de áreas com desmatamento ilegal. Mesmo assim, as duas plantas possuem habilitação para exportar carne bovina para diversos países do Oriente Médio e Norte da África.
Problema persiste em toda a Amazônia
Embora o desempenho da JBS seja superior ao das demais plantas acreanas, o relatório ressalta que nenhuma empresa habilitada para exportar aos mercados árabes conseguiu demonstrar controle efetivo sobre os fornecedores indiretos. Esse elo da cadeia é considerado um dos principais desafios para garantir que animais criados em áreas desmatadas ilegalmente não sejam incorporados ao processo produtivo por meio de transferências entre propriedades antes do abate.
O estudo conclui que 54% dos frigoríficos avaliados apresentam alto nível de controle apenas sobre fornecedores diretos, mas nenhum comprovou monitoramento consistente dos fornecedores indiretos. No resultado geral, 60% das plantas foram classificadas com baixo nível de controle da cadeia pecuária e 40% com nível muito baixo.
A reportagem não conseguiu manter contato com os frigoríficos acreanos citados na avaliação e mantém o espaço aberto para qualquer manifestação sobre os indicadores divulgados.








