Rio Branco, 17 de agosto de 2026.

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Enquanto vivo o processo de cura do câncer, curo feridas que nem conhecia – Por Daigleíne Cavalcante

Esses dias encontrei uma pessoa que olhou nos meus olhos daquele jeito de quem realmente se importa e perguntou:

— Você está bem?

Eu respondi “sim”. No automático. Como a gente responde para quase todo mundo.

Ele apertou minha mão e perguntou novamente, um pouco mais devagar:

— Você está realmente bem?

Naquele momento, eu percebi que havia alguma coisa dentro do olhar dele. Como se ele soubesse que, dentro do meu processo, existiam outros processos acontecendo.

E então eu respondi:

— Eu estou bem. Estou me curando de coisas que eu nem sabia que existiam dentro de mim.

Talvez essa seja uma das coisas que eu mais tenho aprendido nesse processo.

Quando alguém ouve a palavra câncer, imediatamente pensa na doença, no medo, na dor, no tratamento e, principalmente, na cura.

É natural.

O câncer parece ser o processo maior. O mais dolorido. O que mais chama atenção aos olhos de quem recebe a notícia.

Mas, dentro desse processo, existe tanta coisa acontecendo que nem sempre é possível explicar.

Eu tenho sido obrigada a olhar para dentro.

Tenho revisitado feridas da infância, relações familiares, comportamentos que trouxe para a vida adulta, questões que atravessam meus relacionamentos, minhas escolhas, meus medos e até a forma como lido com as pessoas.

Quando descobri a doença, fui orientada a iniciar um processo terapêutico com uma psicóloga.

E, de alguma maneira, o câncer me colocou diante de portas que talvez eu jamais tivesse coragem de abrir sozinha.

Não porque a doença precise existir para que alguém se cure de alguma coisa.

Mas porque, diante dela, já não podemos adiar algumas coisas.

A gente passa a olhar para aquilo que estava escondido.

E talvez seja aí que começam algumas das pequenas curas que ninguém vê.

Naquela conversa que deu início a esse texto, a pessoa me contou que viveu algo parecido quando acompanhou o processo de câncer de uma amiga.

Ele e um grupo de vários amigos estiveram próximos dela durante toda aquela caminhada. E, segundo ele, ao longo daquele processo, eles perceberam muitas pessoas se curando de coisas que provavelmente jamais seriam vistas ou percebidas se aquela mulher não tivesse enfrentado o câncer.

Até que, ao final do tratamento, fizeram uma carreata. Balões, cartazes, carros pintados, gente celebrando a vida.

E, depois daquele momento, uma moça mandou uma mensagem no Instagram da mulher que havia vencido o câncer.

Ela contou que naquele dia estava decidida a tirar a própria vida.

Mas viu aquela carreata, as pessoas celebrando a vida de alguém e sentiu ESPERANÇA.

Disse que, naquele momento, percebeu que precisava voltar a viver.

Quando ele me contou isso, fiquei pensando que talvez aquele processo de câncer tivesse alcançado uma pessoa que ninguém daquela história imaginava alcançar.

Não sei se esse era o propósito daquela doença e, sinceramente, talvez ninguém possa saber.

Mas sei que alguma coisa nasceu daquele processo e isso me fez pensar no meu próprio processo.

Porque, desde que comecei a falar sobre o câncer, sobre os medos, os aprendizados, as mudanças e tudo aquilo que tenho vivido, recebo mensagens de pessoas dizendo:

“Eu precisava ouvir isso.”, “Você falou exatamente sobre uma coisa que eu estou vivendo.”, “Eu precisava entender isso.”, “Obrigada por compartilhar.”.

E, nessas mensagens, eu percebo que alguma coisa está acontecendo além de mim.

Foi pensando nisso que me lembrei de uma conversa que tive com Fabíola Fleming, mãe do Pedro e do Tiago, dois meninos que enfrentam uma doença rara e cuja família hoje vive uma corrida contra o tempo para conseguir recursos para que eles tenham acesso a um estudo clínico que pode mudar o curso da doença.

Durante o nosso podcast, o Sem Filtro, Fabíola falou uma coisa que ficou em mim.

Ela disse que gostaria que as pessoas não precisassem estar em um lugar de dor para procurar a cura de outras coisas.

Que não precisassem adoecer para procurar Deus.

Que não precisassem perder alguma coisa para perceber o que realmente importa na vida.

Aquilo me fez pensar.

Porque talvez esse seja um dos grandes aprendizados de qualquer processo de dor: não esperar a dor chegar para começar a aproveitar o que a vida proporciona.

Não esperar uma doença para cuidar da alma.

Não esperar perder alguém para dizer que ama.

Não esperar uma crise para procurar ajuda.

Não esperar o casamento desmoronar para perceber o que precisava ser cuidado.

Não esperar a vida nos colocar de joelhos para lembrar de Deus.

Porque, se existe alguma coisa que tenho aprendido, é que a doença não precisa ser romantizada para que os aprendizados sejam reconhecidos.

Dor é dor.

Medo é medo.

Câncer é câncer.

E ninguém precisa agradecer por estar doente.

Mas, se estamos atravessando um processo difícil, talvez possamos nos perguntar o que ele está revelando.

O que ele está nos ensinando.

O que ele está nos fazendo mudar.

E quem, de alguma maneira, está sendo alcançado pela nossa caminhada.

Talvez eu nunca saiba exatamente qual é o propósito de tudo isso. Talvez ninguém saiba, mas sei que existem pequenas curas acontecendo.

Em mim, nas pessoas que convivem comigo, em quem me acompanha de perto e até em pessoas que eu nunca encontrei pessoalmente.

Uma conversa que finalmente acontece, uma ferida que finalmente é reconhecida, um perdão que começa a ser possível, uma relação que muda, uma pessoa que decide pedir ajuda. alguém que volta a ter esperança. Alguém que percebe que precisa mudar. Alguém que finalmente entende que também merece viver.

A cura final, aquela que todo mundo espera e comemora, é obviamente importante, mas existem pequenas curas acontecendo antes dela e elas também importam muito!

Elas não aparecem nos exames, não estão nos laudos, não são anunciadas quando uma doença chega ao fim…

Mas transformam vidas!

E talvez a grande lição seja essa: Não precisamos esperar a dor para começar a cuidar daquilo que realmente importa:

Não precisamos esperar a doença para procurar Deus.

Não precisamos esperar perder para valorizar.

Não precisamos esperar quebrar para pedir ajuda.

Porque talvez a maior cura seja justamente essa:

descobrir o que realmente importa antes que a vida precise nos ensinar pela dor.

E, enquanto eu espero pela minha cura, tenho descoberto essas outras.

As pequenas.

As silenciosas.

As que ninguém vê.

Mas que, de alguma forma, também estão me devolvendo à vida.

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