Existe uma frase que me incomoda: “O importante é ter saúde”.
Ela parece bonita. É repetida em aniversários, nas redes sociais, depois de uma doença e até diante de situações extremamente difíceis.
Mas, quando você trabalha com Direito da Saúde e começa a conhecer de perto a realidade de quem precisa de atendimento, medicamento, tratamento ou simplesmente de uma resposta, percebe que saúde não é apenas uma questão de sorte.
E talvez esteja na hora de parar de romantizar isso.
Porque ter saúde é, sim, um dos maiores desejos de qualquer pessoa. Mas adoecer não pode significar perder a dignidade, esperar indefinidamente por atendimento ou precisar provar que a própria vida merece cuidado.
Há pessoas que passam meses esperando por uma consulta especializada. Outras esperam por um exame que pode mudar completamente o rumo de um diagnóstico.
Há quem receba a indicação de um medicamento e descubra que não consegue pagar por ele. Há famílias que precisam escolher entre comprar o tratamento e pagar as despesas básicas de casa.
E existe ainda quem, diante de uma doença grave, precise aprender rapidamente palavras que nunca imaginou conhecer: negativa, protocolo, autorização, incorporação, judicialização.
É fácil falar sobre saúde quando ela está funcionando. Difícil é falar sobre ela quando você está do outro lado da porta, esperando. O problema começa quando o acesso deixa de ser simples.
Quando estamos saudáveis, muitas vezes não pensamos sobre o sistema de saúde. Não pensamos em filas, protocolos, cobertura, medicamentos de alto custo ou políticas públicas.
Pensamos nisso quando precisamos. E é justamente nesse momento que muitas pessoas descobrem que existir um direito não significa, necessariamente, conseguir exercê-lo com facilidade.
É aí que surge uma das maiores contradições da saúde no Brasil. Temos uma Constituição que reconhece a saúde como direito de todos. Temos um sistema público de saúde de enorme importância. Temos avanços médicos que permitem diagnosticar e tratar doenças que, no passado, tinham poucas alternativas.
Mas ainda existem pessoas que não conseguem chegar a tempo ao tratamento de que precisam. E tempo, para quem está doente, não é um detalhe. Não deveríamos precisar lutar para ser cuidados. Talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.
Em muitos casos, a pessoa já está enfrentando o diagnóstico, o medo, os efeitos do tratamento e a preocupação com a família. Ainda assim, precisa lutar pelo acesso.
Não há nada de bonito nisso e não deveria ser romantizado. Judicializar uma questão de saúde não é conquista, não é motivo para comemorar — porque significa que alguma coisa não funcionou. E, quando se fala em Estado, estamos falando, na maioria das vezes, de sua ineficiência.
É claro que a Justiça tem um papel importante e pode ser fundamental em situações em que um direito está sendo violado. Mas precisamos ter cuidado para não transformar a judicialização em algo normal.
Existe ainda uma desigualdade silenciosa sobre a qual pouco discutimos: a desigualdade da informação. Duas pessoas podem ter a mesma doença, a mesma indicação médica e a mesma necessidade de tratamento, mas desfechos opostos.
O acesso à saúde não pode ser reservado para quem sabe lutar por ele. Talvez precisemos mudar a pergunta. Em vez de dizer apenas “o importante é ter saúde”, talvez precisemos perguntar:
O que acontece quando alguém perde a saúde? Quem cuida dessa pessoa? Quanto tempo ela terá que esperar? Ela terá acesso ao tratamento indicado? Conseguirá comprar o medicamento? Será atendida quando precisar? Terá informação suficiente para tomar uma decisão? E, principalmente: será tratada com dignidade?
Essas perguntas são menos bonitas do que “o importante é ter saúde”. Mas são muito mais necessárias. Porque ninguém escolhe adoecer. E, quando a doença chega, a pessoa não deveria precisar enfrentar também o abandono, a desinformação e a burocracia.
Depois de anos atuando no Direito da Saúde, uma coisa ficou muito clara para mim: por trás de cada pedido, cada negativa, cada processo e cada documento, existe uma pessoa. Existe uma mãe. Um pai. Um filho. Alguém esperando por uma resposta.
É por isso que acredito que precisamos parar de romantizar a saúde. Precisamos falar sobre ela de forma mais realista, com menos frases prontas e mais responsabilidade. Porque, enquanto a saúde for apenas uma palavra bonita nas redes sociais, continuaremos esquecendo o que ela realmente significa para quem, naquele momento, mais precisa dela.
Saúde não deveria ser um privilégio. E cuidar dela não deveria ser uma luta que o paciente precisa enfrentar sozinho.
Aline Ramalho é advogada, especialista em Direito da Saúde e colunista do Portal Acre.