Rio Branco, 9 de setembro de 2026.

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Artigo de opinião – Entre o Bem e o Mal: A Política que nos divide

Por que debater política na internet ficou tão difícil?

Mais uma vez, as eleições estão chegando e a história se repete: tentam reduzir toda a complexidade da nossa vida política a um jogo simplista de “bem contra o mal”. De um lado, pessoas que se autoproclamam as únicas donas da verdade; do outro, aqueles que são pintados como uma ameaça absoluta. Nessa dinâmica, a direita e a esquerda deixaram de ser campos de debate de ideias para virar meros rótulos, barreiras que nos desobrigam de dialogar, refletir e, o que é mais grave, de respeitar quem está do outro lado.

Isso me causa uma profunda indignação. É doloroso ver como tantas pessoas são induzidas a acreditar que, para defender seus valores, precisam necessariamente odiar quem pensa diferente. Como se o voto em um candidato fosse uma régua definitiva para medir o caráter, a fé ou a dignidade de alguém.

A política, que deveria ser o nosso espaço para construir caminhos juntos, virou um campo de batalha puramente emocional. No lugar de propostas reais, o que nos entregam são inimigos de estimação. Em vez de argumentos, somos bombardeados por slogans vazios. Em vez de conversa, exige-se de nós uma fidelidade cega a um lado. Só que a democracia é muito maior do que isso; ela não pode sobreviver se for reduzida a uma guerra de torcidas e identidades.

Mas o pior disso tudo é ver a fé sendo sequestrada. A espiritualidade, algo tão íntimo, sagrado e profundo, não pode ser usada como um controle remoto para manipulação política. Não quer dizer que as pessoas não devem votar de acordo com suas convicções religiosas. O ponto é questionar e rejeitar quando a religião é transformada em uma engrenagem para fabricar medo, culpa e obediência cega.

Eu acredito que a fé pode e deve ser uma força para inspirar justiça, solidariedade e cuidado real com o próximo. Mas recuso-me a aceitar que ela seja usada para encurralar consciências ou para carimbar determinados políticos como se fossem os “representantes exclusivos de Deus” na Terra. A verdadeira fé não serve para calar nossas perguntas, mas para ampliar nosso senso de responsabilidade diante da vida e da dor do outro.

Precisamos ser honestos: nenhum grupo político tem o monopólio da virtude. Reconhecer isso não significa achar que todas as propostas são iguais, e muito menos fechar os olhos para discursos e projetos que agridem nossos direitos e as instituições democráticas. Significa apenas entender que nossas escolhas nas urnas devem ser baseadas em fatos, em princípios sólidos, na responsabilidade pública e nos resultados práticos das ações e nunca na desumanização de quem discorda de nós.

Eu quero poder olhar para os candidatos e avaliá-los pelo que eles realmente fizeram, por suas propostas e pelo compromisso real que têm com as pessoas. Quero que possamos discutir o que importa de verdade: educação, saúde, trabalho, desigualdade e o futuro que queremos deixar para as próximas gerações. Quero uma política onde discordar seja um direito natural, e não um motivo para ser tratado como inimigo; onde possamos escolher sem nos sentirmos coagidos, exercendo nossa cidadania sem entregar nossa própria consciência a líderes, partidos ou discursos religiosos.

Eu não quero viver em um país onde todo mundo seja obrigado a pensar igual. Quero uma democracia de verdade, onde a nossa pluralidade seja celebrada e onde a fé, para quem a tem, seja um farol de cuidado com o outro, e não uma ferramenta para alimentar o medo do diferente. Que o próximo período eleitoral seja um convite à lucidez e ao diálogo, e não mais um combustível para o ódio. No fim das contas, defender a democracia é exatamente isto: proteger a nossa liberdade sagrada de pensar, questionar e escolher.

Márcia da Costa Oliveira é professora, pesquisadora e coordenadora de Educação Profissional do Conselho Estadual de Educação do Acre (CEE/AC). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT/IFAC), desenvolve estudos sobre práticas pedagógicas críticas, formação humana integral, juventude e mundo do trabalho. Também é acadêmica de Direito e atua na elaboração e análise de políticas e normas educacionais.

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