Rio Branco, 12 de setembro de 2026.

O que as faculdades de saúde ainda não ensinam sobre o sofrimento humano

Quando ingressamos na tão sonhada faculdade e iniciamos a preparação para ser um profissional de saúde, há uma preparação rigorosa para aprender a identificar doenças, interpretar exames, prescrever tratamentos e executar procedimentos. Mas quem prepara o futuro profissional da saúde para olhar nos olhos de alguém que acaba de receber um diagnóstico grave?

Essa é uma pergunta que merece espaço nas salas de aula, nos hospitais universitários e nos debates sobre a formação em saúde.

Não se trata de diminuir a importância do conhecimento técnico. Pelo contrário: ele é indispensável. O problema começa quando a formação se concentra tanto na doença que o paciente passa a ser percebido apenas como o portador de uma condição clínica, e não como uma pessoa que está atravessando uma experiência que pode mudar completamente sua vida.

O paciente não chega sozinho ao consultório, quando alguém procura um profissional da saúde, não leva apenas sintomas, exames ou um diagnóstico. Leva uma história, uma família, preocupações financeiras, responsabilidades e, muitas vezes, um medo que nem consegue explicar.

Uma pessoa diagnosticada com câncer, por exemplo, pode estar preocupada com o tratamento, mas também com os filhos, o trabalho, a possibilidade de sentir dor e o futuro que imaginava ter. O diagnóstico pode ser o mesmo para duas pessoas, mas a forma como cada uma o vivencia será diferente.

É justamente por isso que o cuidado não pode se limitar à doença, o conhecimento científico permite compreender o que está acontecendo no organismo. A escuta permite compreender o que está acontecendo com a pessoa.

Conversas difíceis também fazem parte da profissão e são tão pouco ensinadas. Comunicar um diagnóstico, explicar um prognóstico, falar sobre os limites de um tratamento ou conversar sobre a possibilidade de morte são situações que fazem parte da realidade de muitos profissionais da saúde.

Ainda assim, nem sempre o preparo para essas conversas recebe a mesma atenção que o aprendizado de técnicas e protocolos.

E como aprender a lidar com uma conversa que pode mudar a vida de alguém? Não existe uma frase perfeita para comunicar uma notícia difícil. Mas existe preparo. Existe a possibilidade de aprender a falar com clareza, respeitar o tempo do paciente, reconhecer suas emoções e permitir que ele faça perguntas.

Também existe a necessidade de compreender que o silêncio, em determinadas situações, não é falta de resposta. Pode ser o espaço de que alguém precisa para assimilar uma informação.

O profissional não precisa ter respostas para tudo. Mas precisa estar preparado para não transformar a vulnerabilidade do outro em um momento de abandono.

A empatia não pode depender apenas da personalidade. Frequentemente, a capacidade de acolher é tratada como uma característica individual: alguns profissionais seriam naturalmente mais empáticos, enquanto outros teriam mais dificuldade.

Mas será que podemos deixar uma competência tão importante depender apenas da personalidade de quem atende? Obviamente que não, todos os profissionais precisam desenvolver essa habilidade, existe técnica, existe roteiro que devem ser ensinados, praticados e aprimorados.

A formação em saúde precisa criar oportunidades para que os estudantes reflitam sobre a relação com o paciente, sobre seus próprios limites e sobre a maneira como suas palavras e atitudes podem impactar alguém.

A medicina e as demais áreas da saúde avançaram de maneira extraordinária. Hoje, existem recursos diagnósticos, tratamentos e tecnologias capazes de transformar prognósticos e ampliar possibilidades terapêuticas.

Mas nenhum avanço tecnológico elimina a necessidade de uma conversa humana, de entender o que o paciente deseja para seu tratamento ou para os cuidados de fim de vida.

Quanto mais complexa se torna a assistência, maior deveria ser a preocupação com a comunicação. Afinal, informação sem compreensão pode gerar medo; tratamento sem diálogo pode gerar insegurança; e uma conduta tecnicamente adequada, quando apresentada sem sensibilidade, pode ser vivenciada como uma experiência de desamparo.

Humanizar não é suavizar ou esconder a verdade. O paciente tem direito à informação clara, à participação nas decisões e ao respeito à sua autonomia. A verdade pode e deve ser comunicada com responsabilidade, sem crueldade e sem indiferença.

Quando falamos em direitos do paciente, muitas vezes pensamos em acesso a consultas, exames, medicamentos e tratamentos. Tudo isso é essencial. Mas o cuidado em saúde também envolve o direito de ser informado, ouvido e tratado com dignidade.

A relação entre profissional e paciente não deve ser construída apenas sobre a doença e sua respectiva conduta. Ela precisa considerar a pessoa, suas escolhas e suas necessidades.

Por isso, discutir a formação dos profissionais da saúde é também discutir a qualidade da assistência que queremos oferecer.

As faculdades não precisam formar profissionais menos técnicos. Precisam formar profissionais tecnicamente excelentes e, ao mesmo tempo, preparados para lidar com a dimensão humana do adoecimento.

Porque o sofrimento não aparece apenas nos exames. Ele também está nas perguntas que o paciente não consegue fazer, no medo que tenta esconder e nas conversas que, por mais difíceis que sejam, precisam acontecer.

E talvez essa seja uma das maiores lições que a formação em saúde ainda precise aprofundar: antes de tratar uma doença, existe uma pessoa que precisa ser cuidada.

Observação editorial: esse texto adota uma crítica à formação, mas sem afirmar que todas as faculdades negligenciam a humanização. Isso o torna mais consistente e evita uma generalização que poderia enfraquecer o argumento.

Aline Ramalho é advogada, especialista em Direito da Saúde e colunista do Portal Acre.

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Aline Ramalho

Advogada, especialista em Direito da Saúde, com foco em medicamentos e tratamentos de alto custo, especialmente em casos oncológicos, coautora de livros. Comprometida em viabilizar acesso digno e efetivo à saúde.

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