Rio Branco, 26 de setembro de 2026.

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Conheça ‘Zé da Bota’, o acreano que viajou sete meses de mula até chegar a Barretos com o Berranteiro das Américas

Zé da Bota na Festa de Barretos, uma dos maiores festas de peão no mundo – Foto acervo pessoal

O que deveria durar apenas um ou dois dias se transformou em uma jornada de aproximadamente sete meses para o acreano Cleberson Brito, de 30 anos, conhecido como Zé da Bota e também pelo apelido de “Secretário”. Natural de Rio Branco, ele se juntou à expedição de Pedro Henrique Biondo Matias, o Pedro Berranteiro, durante a passagem do aventureiro pelo Acre e seguiu montado em uma mula até Barretos, no interior de São Paulo.

A história foi contada por Zé da Bota durante entrevista ao Portal Acre. O acreano relatou que já acompanhava pelas redes sociais a trajetória de Pedro, responsável pela expedição conhecida como Berranteiro das Américas, mas inicialmente não imaginava que teria participação tão longa na aventura.

Pedro havia partido de Fort Worth, no Texas, nos Estados Unidos, em uma jornada que atravessou diferentes regiões das Américas e percorreu mais de 10 mil quilômetros até o Brasil. Zé da Bota, no entanto, não participou de todo o percurso desde os Estados Unidos. Ele passou a integrar a comitiva quando a expedição chegou ao Acre.

A ideia do acreano, naquele momento, era muito mais simples: montar seu animal e acompanhar Pedro por um curto trecho.

“Eu falei: ‘Se ele passar aqui, eu vou andar um dia com ele, um dia ou dois’. E parece que deu certo mesmo para acontecer de eu ir nessa viagem”, relembrou.

Os dois se encontraram e começaram a percorrer juntos as estradas acreanas. Segundo Cleberson, inicialmente havia pouca conversa entre eles, mas a convivência durante a cavalgada rapidamente deu origem a uma amizade.

“Do segundo dia em diante, parecia uma amizade que nós já tínhamos há anos. Ele me chamou para a viagem e eu fui”, contou.

O convite mudou completamente os planos do acreano. Aquilo que seria uma breve participação passou a fazer parte de sua rotina durante os meses seguintes.

Montado em uma mula, Zé da Bota acompanhou a comitiva por cerca de sete meses. No Brasil, a jornada passou por estados como Acre, Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo, até a chegada a Barretos.

Além de cavalgar, Cleberson também assumiu funções importantes na rotina da comitiva. Uma delas estava diretamente relacionada aos animais utilizados na viagem. Com experiência no manejo, ele auxiliava quando surgiam problemas com as ferraduras ao longo do caminho.

“Uma coisa que eu ajudava também era ferrar a tropa. Quando caía uma ferradura ou, às vezes, gastava e não tinha ferrador por perto, eu ajudava”, explicou.

Percorrer milhares de quilômetros sobre animais também significava conviver diariamente com imprevistos. A comitiva não seguia uma estrutura convencional de viagem e, muitas vezes, não havia pousadas ou locais preparados para receber os viajantes.

Quando conseguiam apoio de moradores, passavam a noite em propriedades e casas encontradas pelo caminho. Em outras ocasiões, a própria natureza se transformava em local de descanso.

“Não tinha canto. Se desse um pouso e o pessoal arrumasse, a gente dormia normal, em rede. Dormi muito em beira de igarapé, no Mato Grosso. Quando não tinha casa, a gente armava a rede e dormia”, relatou.

Apesar das longas distâncias percorridas e do esforço físico exigido pela viagem, Zé da Bota contou que um dos desafios que mais pesavam durante o percurso era o sono.

A chegada da comitiva às cidades e comunidades costumava chamar a atenção dos moradores. Os encontros, conversas e recepções frequentemente avançavam pela noite. No dia seguinte, porém, era necessário voltar para a estrada e cumprir mais uma etapa da viagem.

Para o acreano, cada parada também se tornou uma oportunidade de falar sobre suas origens. Durante a entrevista, ele destacou que fazia questão de dizer às pessoas encontradas pelo caminho que havia saído de Rio Branco e representava o Acre naquela aventura.

“Levamos o nome do Acre, que é o mais legal. Levar o nome do Acre, de Rio Branco, nossa capital”, destacou.

Depois de meses atravessando estradas, propriedades rurais e diferentes estados brasileiros, a chegada a Barretos representou um capítulo especial para Cleberson.

Conhecer a tradicional Festa do Peão de Barretos já era um desejo antigo do acreano. O que ele jamais havia imaginado era que realizaria esse sonho depois de viajar durante meses montado em uma mula.

“Era meu sonho ir ao Barretão, mas nunca que eu achava que ia chegar montado de mula. É uma emoção demais”, afirmou.

A entrada na arena ficou marcada entre os momentos mais emocionantes da aventura. Ao relembrar a experiência, Zé da Bota contou que não conseguiu conter as lágrimas.

“Até chorei no primeiro dia que nós entramos na arena. Você está doido. Era meu sonho ir ao Barretão”, disse.

Para além da distância percorrida, Cleberson afirma que as principais lembranças deixadas pela viagem estão relacionadas às pessoas que encontrou.

Ao longo dos sete meses, moradores de diferentes regiões ajudaram a comitiva oferecendo locais para descanso, alimentação, apoio aos animais e companhia. Para Zé da Bota, a hospitalidade encontrada pelo caminho foi uma das principais experiências proporcionadas pela expedição.

“Aprendi muita coisa, principalmente o respeito que o pessoal tem pela gente. Muitas vezes abriram as portas das casas para nós dormirmos. Onde a gente passou foi só aprendizado”, afirmou.

Depois de aproximadamente sete meses sobre uma mula, atravessando diferentes paisagens brasileiras até realizar o sonho de conhecer Barretos, o acreano avalia que dificilmente outra viagem conseguiria reproduzir exatamente tudo o que viveu durante a expedição.

“É uma viagem que, se fizer outra, não vai ser igual. É tudo diferente. Onde a gente chegava, o povo apoiava. Só tenho que agradecer”, concluiu.

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