
O Acre aparece entre os estados onde os planos de governo dos candidatos considerados competitivos nas eleições de 2026 apresentam menor grau de aprofundamento sobre saneamento básico. É o que aponta estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, que analisou propostas de 62 candidatos aos governos das 27 unidades da Federação.
No Acre, três candidaturas foram incluídas na análise. O estado obteve média de comprometimento de 2,33, em uma escala de 1 a 4, resultado que ganha relevância diante dos déficits locais de acesso aos serviços. Segundo os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SINISA), referentes a 2024 e utilizados pelo estudo, apenas 44,27% da população acreana tem atendimento total de água, o menor percentual entre todas as unidades da Federação analisadas.
No esgotamento sanitário, o cenário também é crítico: somente 11,04% da população é atendida com coleta de esgoto, enquanto o índice de tratamento total de esgoto é de 25,06%.
Outro indicador destacado é o volume de recursos aplicados. O Acre registrou investimento médio de apenas R$ 14,95 por habitante, também o menor valor entre os estados e o Distrito Federal, segundo a comparação apresentada pelo levantamento.
A situação estadual acompanha um problema mais amplo da Região Norte. A região possui os piores indicadores médios de saneamento entre as cinco regiões brasileiras, com 62,81% de atendimento de água, 24,65% de atendimento de esgoto e 22,49% de tratamento de esgoto. Apesar disso, ficou com média de 2,71 na avaliação do comprometimento dos planos eleitorais.
O levantamento também identificou que o Acre está entre os cinco estados que possuem pelo menos um plano de governo classificado como “superficial” em relação ao saneamento. Nessa categoria, o documento desenvolve somente um dos quatro eixos considerados pela metodologia. Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e Santa Catarina também aparecem nesse grupo.
Critérios analisados
O Instituto Trata Brasil avaliou os programas apresentados à Justiça Eleitoral até 15 de setembro. Foram considerados quatro eixos: planejamento e regionalização para universalização dos serviços; investimentos e superação dos gargalos; governança e regulação; e existência de metas concretas e verificáveis para o mandato.
A classificação adotada varia entre “ausente”, “superficial”, “transversal” e “abrangente”. O estudo não identifica nominalmente os candidatos em cada classificação e ressalta que a avaliação considera exclusivamente o conteúdo dos planos de governo, sem recomendar ou favorecer candidaturas.
No cenário nacional, apenas 13 dos 62 planos analisados, equivalente a 21%, foram considerados abrangentes. Outros 44, ou 71%, receberam classificação transversal, enquanto cinco, cerca de 8%, foram considerados superficiais.
A universalização dos serviços foi o compromisso mais encontrado nos documentos, aparecendo em 54 dos 62 planos, ou 87%. Em contrapartida, apenas 16 planos, equivalentes a 26%, apresentaram metas consideradas tangíveis para o mandato.
O cenário chama atenção porque o próximo governador terá mandato entre 2027 e 2030, período considerado estratégico para o cumprimento das metas nacionais do saneamento. O Marco Legal estabelece que, até 2033, 99% da população deverá ter acesso à água potável e 90% à coleta e ao tratamento de esgoto.
No caso acreano, a distância até esses percentuais ainda é significativa. A situação também aparece na capital: levantamento anterior do Trata Brasil apontou que Rio Branco possuía somente 46,74% de cobertura de abastecimento de água e investimento médio anual de R$ 8,99 por habitante, considerando o período de 2020 a 2024 o menor entre as capitais brasileiras.
O Instituto Trata Brasil destaca que os governos estaduais têm atribuições importantes no setor, incluindo a organização regionalizada dos serviços, elaboração de planejamento estadual, estruturação de blocos ou microrregiões e atuação relacionada à drenagem.
Para a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, a presença do saneamento nos programas eleitorais representa um avanço, mas precisa ser acompanhada por compromissos concretos.
“A agenda do saneamento entrou nos planos, o que é um passo importante, mas não basta aparecer somente no papel e continuar como uma promessa abstrata”, afirma.
O estudo conclui que não foi encontrada relação estatisticamente significativa entre a gravidade dos déficits estaduais e o nível de comprometimento apresentado pelos candidatos. No caso do Acre, os números evidenciam esse contraste: o estado possui o menor índice de atendimento de água e o menor investimento por habitante entre as unidades da Federação analisadas, mas alcançou média de apenas 2,33 na avaliação dos planos eleitorais.








