Rio Branco, 5 de outubro de 2026.

1200x250 (2)

Artigo de Opinião – Nenhuma mulher eleita: o alerta que o Acre não pode ignorar

Juiz do TRE-AC aponta Assembleia sem representação feminina em 2027 e propõe debate sobre reserva de vagas – Foto cedida

Há quase um ano, escrevi o artigo: “participação feminina e o alerta das decisões eleitorais no Acre”. Naquela ocasião, a reflexão partia das decisões envolvendo fraude à cota de gênero e chegava a uma conclusão simples: não basta lançar mulheres candidatas. É preciso criar condições reais para que elas sejam competitivas.

As eleições de 2026 deram ao alerta uma dimensão que eu não esperava tão cedo.

Nenhuma mulher foi eleita para uma das 24 vagas da Assembleia Legislativa do Acre. A partir de 2027, o Estado terá uma composição exclusivamente masculina no Parlamento estadual.

Talvez o alerta de 2025 tenha sido um pouco mais profético do que eu gostaria.

Há, ao menos, um respiro. Na Câmara Municipal de Rio Branco, duas mulheres passarão a ocupar as vagas deixadas por vereadores eleitos deputados estaduais. A bancada feminina, portanto, será ampliada. É um dado positivo e que merece ser registrado.

Ainda assim, o contraste chama atenção: enquanto a Câmara da capital aumenta sua representação feminina, a Assembleia Legislativa ficará sem uma única mulher.

E é justamente aí que surge a pergunta: a atual cota de gênero é suficiente?

Hoje, a legislação busca garantir participação feminina principalmente por meio da reserva de candidaturas. O problema é que existe uma distância enorme entre estar na lista de candidatos e ocupar, de fato, os espaços de poder.

Houve candidatas. Houve campanha. Houve disputa. Mas nenhuma mulher foi eleita para a ALEAC.

Isso não diminui, em absolutamente nada, a legitimidade dos eleitos. A questão é outra: se a política de cotas existe para enfrentar uma desigualdade histórica de representação, talvez seja necessário também avaliar os resultados concretos que ela produz.

Por isso, talvez tenha chegado a hora de discutir, com serenidade, uma questão que certamente provocará resistência: devemos continuar falando apenas em cota de candidaturas ou também precisamos começar a discutir algum modelo de reserva de vagas?

Não tenho uma resposta pronta. E nem pretendo defender uma solução simplista.

Antes disso, há outra pergunta fundamental: o que os partidos fazem, durante os quatro anos que antecedem a eleição, para formar lideranças femininas?

Quantas mulheres ocupam espaços reais de decisão dentro das legendas? Quantas recebem estrutura, formação, recursos, visibilidade e incentivo para construir uma trajetória política?

O resultado de 2026 não deve servir apenas para gerar espanto. Deve servir para provocar reflexão.

Garantir mulheres entre os candidatos é importante, mas talvez esteja na hora de começarmos a pensar também em como garantir que elas estejam entre os eleitos.

Thalles Sales é advogado, especialista em Direito Público e em Direito Eleitoral, e desde o último dia 25 de março é juiz membro da Corte do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC)

Compartilhe em suas redes

» Mais Lidas

1
Vai parar
Greve dos médicos no Acre começa nesta sexta; Saiba o que funcion...
3
Talento do Acre
“Comecei a lutar porque sofria bullying”; Conheça o pugilista de ...
4
Legado, Oportunidade
Morre empresário que acreditava no esporte como transformação na ...
5
Boa notícia
Parceria amplia oferta de exames a crianças no Acre
6
Pedro Pascoal diz que greve dos médicos coloca vidas em risco
23-2 - DIGITAL ADAPTACAO - PMRB NAS RUAS - 300X250 (GIF)

» Notícias Relacionadas

1200x250 (2)