Rio Branco, 27 de outubro de 2026.

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Novo governo de Mailza terá desafio de manter queda dos homicídios e conter feminicídios

Mailza entra para a história como a primeira mulher eleita governadora pelo voto no Acre – Foto assessoria

A redução das mortes violentas e o enfrentamento da violência contra as mulheres estarão entre os desafios da gestão de Mailza Assis, reeleita governadora do Acre neste domingo, 25. Embora os indicadores de homicídios apresentem uma trajetória de queda, os registros de feminicídios e tentativas desse crime mostram que a segurança pública exige ações específicas de prevenção, proteção e atendimento às vítimas.

Mailza recebeu 272.635 votos, equivalentes a 66,21% dos votos válidos, e garantiu mais quatro anos à frente do Executivo estadual, de 2027 a 2030. A reeleição coloca a continuidade das políticas de segurança pública no centro das expectativas para o próximo mandato, especialmente diante da necessidade de preservar os avanços na redução dos homicídios e fortalecer as medidas de combate à violência de gênero.

O cenário mais recente apresenta resultados distintos conforme o tipo de violência analisado. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, mostram que o Acre contabilizou 96 vítimas de homicídio doloso entre janeiro e setembro de 2026, contra 123 no mesmo período de 2025. A redução foi de 21,95%, equivalente a 27 vítimas a menos.

A queda acompanha uma tendência identificada em um período mais longo. O Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que a taxa de homicídios no Acre caiu de 38,8 por 100 mil habitantes, em 2019, para 20,2 em 2024. A redução foi de 47,9%. Em números absolutos, o total passou de 325 para 174 homicídios.

Os dois levantamentos, porém, utilizam recortes temporais e indicadores que não devem ser confundidos. Enquanto o Atlas permite observar a evolução histórica dos homicídios, os dados do Sinesp oferecem uma referência mais recente sobre as vítimas de homicídio doloso em 2026.

A melhora desses números não elimina os desafios da segurança pública. A violência contra as mulheres exige atenção própria, tanto pela gravidade dos casos consumados quanto pelas ocorrências que antecedem o feminicídio e podem representar sinais de risco à vida das vítimas.

Feminicídios e tentativas exigem atenção

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 14 feminicídios consumados e 54 tentativas no Acre em 2025. A taxa de feminicídios chegou a 3,2 vítimas por 100 mil mulheres, uma das mais elevadas do país. O número de mortes representou aumento de 75% em relação a 2024, quando haviam sido contabilizados oito casos.

Os dados mais recentes mostram que o problema permanece presente em 2026. Segundo o Sinesp, o Acre registrou quatro vítimas de feminicídio entre janeiro e agosto. No mesmo período, houve 30 vítimas de tentativas de feminicídio entre janeiro e setembro, conforme o painel do Ministério da Justiça. Os registros de tentativas alcançaram 14 dos 22 municípios acreanos, e Rio Branco concentrou nove vítimas, ou 30% do total estadual.

Os números exigem cautela na comparação, pois os períodos de referência são diferentes e os dados podem ser atualizados. Ainda assim, evidenciam a necessidade de manter o enfrentamento da violência contra as mulheres como prioridade permanente, mesmo quando há redução em outros indicadores criminais.

Homicídio e feminicídio também não são categorias equivalentes. O primeiro abrange mortes provocadas intencionalmente por outra pessoa, enquanto o feminicídio corresponde ao assassinato de uma mulher por razões da condição do sexo feminino, como em situações de violência doméstica e familiar ou de menosprezo e discriminação à condição de mulher.

Essa distinção é importante para a formulação de políticas públicas. A redução geral dos homicídios não significa, necessariamente, que a violência doméstica esteja diminuindo na mesma proporção ou que as mulheres estejam mais protegidas contra ameaças e agressões.

Propostas de Mailza para a proteção das mulheres

Durante a campanha eleitoral, Mailza apresentou medidas voltadas à prevenção da violência e à ampliação da rede de proteção. Entre as propostas previstas em seu plano de governo estão a criação do Pacto Acreano pela Vida das Mulheres, Crianças e Adolescentes e a ampliação da Patrulha Maria da Penha.

O documento também prevê o monitoramento eletrônico de 100% das medidas protetivas consideradas de alto risco. A iniciativa pretende ampliar o acompanhamento de situações em que a integridade das vítimas esteja ameaçada e reforçar a capacidade de resposta diante de possíveis descumprimentos das determinações judiciais.

A proposta inclui, ainda, ações de prevenção à violência entre jovens e iniciativas de policiamento comunitário. A execução dessas medidas dependerá da definição de prioridades, da disponibilidade de recursos e da integração entre as forças de segurança, o sistema de Justiça e os serviços de atendimento social.

A ampliação da rede de proteção precisa considerar, sobretudo, a capacidade de atender mulheres que vivem fora dos principais centros urbanos. As distâncias entre os municípios, as dificuldades de deslocamento em áreas rurais e a necessidade de acesso rápido aos serviços podem dificultar a denúncia e o acompanhamento de situações de violência.

Nesse contexto, a existência de medidas protetivas é apenas uma parte da resposta. Também é necessário assegurar que as vítimas consigam registrar ocorrências, receber orientação, ter acesso a serviços especializados e obter proteção efetiva diante de ameaças.

Continuidade dependerá de resultados mensuráveis

A reeleição oferece à gestão estadual a oportunidade de dar continuidade às iniciativas que contribuíram para a redução dos homicídios e, simultaneamente, aperfeiçoar as políticas de enfrentamento da violência contra as mulheres.

O desafio será transformar as propostas apresentadas durante a campanha em ações concretas, com orçamento, metas verificáveis e acompanhamento público. A ampliação de patrulhas, o monitoramento de medidas protetivas e o fortalecimento dos serviços especializados precisam estar associados à capacidade de prevenir agressões, investigar ameaças e evitar que a violência doméstica termine em morte.

A avaliação da política de segurança também dependerá da divulgação transparente dos indicadores e da integração entre os órgãos responsáveis. Acompanhamentos periódicos podem ajudar a identificar quais medidas produzem resultados, onde persistem dificuldades e quais regiões necessitam de maior presença do poder público.

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